Imprensa histérica perdeu a noção de vez e alerta contra hackers telepatas

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Quando o primeiro macaco antropóide pré-humano emergiu da lama primordial logo após o Big Bang ele inventou o fogo. 2 minutos depois outro macaco correu, inventou a escrita, abriu o primeiro jornal e questionou a idéia, pois fogo pode ser perigoso, pessoas jogadas nele em geral morrem, e não é bom quando você tenta comê-lo. Nascia o primeiro jornalista.

De lá para cá a imprensa tem uma relação de ódio/medo com a tecnologia. Tudo, TUDO que é apresentado pela Ciência como novidade é imediatamente dissecado por jornalistas assustados feito suricatos e tem as mais remotas e improváveis possibilidades de causar alguns risco exploradas como falhas inevitáveis.

E não estou falando de jornalismo certificadamente insano, como aquela militante feminista que acusou Elon Musk de estar planejando lançar pedras da Lua na Terra e dominar o mundo (sério). Videogame estraga televisão, ver TV de perto vai te deixar cego se você não morrer antes de câncer por causa da radiação, celular afeta aprendizado das crianças, computador em casa é porta para pedófilos, a CIA vai roubar seus dados mesmo com o computador desligado, seu iPod vai te deixar surdo, ovo faz mal, ovo faz bem, seu celular está te rastreando e tecnologia isola as pessoas.

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A internet, graças à abundância de adubo, é terreno fértil para essas matérias, e o que é pior: muitos laboratórios e universidades, desesperados por mídia, que significa tornar o departamento conhecido e em última análise, mais verbas, trabalham fornecendo material para esse tipo de clickbait.

Por isso a University of Alabama at Birmingham soltou um release com o título Study finds hackers could use brainwaves to steal passwords — Estudo descobre como hackers poderiam usar ondas cerebrais para roubar senhas.

O artigo no qual o release é baseado tem um título bem menos sexy:

PEEP: Passively Eavesdropping Private Input via Brainwave Signals — PEEP: espionagem passiva de entrada de dados privada via sinais de ondas cerebrais (não vou fazer a sigla combinar, esqueça) — mas não se engane o clickbait é forte nele também.

O pior é que a idéia é bem interessante como experimento em interfaces cérebro-máquina. Em essência os pesquisadores resolveram testar se era possível utilizar aparelhos de eletroencefalograma domésticos, daqueles usados por alguns jogos para detectar senhas.

O procedimento envolveu fazer medições dos usuários enquanto digitavam sequências de senhas geradas pelo computador. Os dados do EEG foram então processados e foi criado um modelo de rede neural para associar os sinais com números ou letras específicas.

Os usuários então foram instruídos a digitar uma senha numérica de 4 dígitos e uma alfanumérica de 6.

O resultado chegou a uma taxa de acerto real de 34% por dígito, mais em alguns casos, menos em outros. Interessante, mas só isso. Como ganhar a mídia?

Os autores derivaram para um viés alarmista, trabalhando com um cenário absolutamente doido:

Eles propõem uma situação onde um hacker usaria um videogame com interface de controle mental, que criaria captchas e outras entradas com senhas para captar as ondas cerebrais do usuário. O jogo montaria um modelo do processamento mental do sujeito, e quando estivesse bem refinado, observaria se a vítima entrou em um site de banco ou ecommerce.

Obviamente ainda com o capacete de EEG na cabeça, o cidadão digitaria sua senha, que seria captada pelo jogo, e enviada para o hacker malvado.

Beleza, mas… PRA QUÊ?

Sim, teoricamente com tudo dando certo o sujeito teria em 30% e 40% de chance de acertar sua senha, mas esses valores são POR DÍGITO, e site de banco não é igual ao NORAD (de Wargames) onde o computador informa se você acertou individualmente os dígitos da senha.

Se o cara tem esse nível de acesso no seu PC, é mais fácil instalar um keylogger do que comprometer a segurança de um grande fabricante de games, hackear um hardware que basicamente ninguém tem e rezar pro sujeito acessar o banco logo após jogar BrainQuake ou seja lá que jogo use esse troço.

Claro, o RT coloca a manchete “Hackers podem usar sinais cerebrais através de headsets de EEG para acessar senhas” e todo mundo entra em pânico. A realidade é bem diferente: o Post-It é uma ameaça de segurança muito maior que o EEG. E sendo bem pragmático, como bem lembrou o xkcd, a ferramenta mais eficiente para conseguir as senhas de alguém é uma chave de boca de US$ 5,00.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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