Ronaldo Gogoni 22/05/2026 às 10:23
Atualização: segundo o site Tom's Hardware, a Lenovo lançou uma investigação interna de modo a descobrir por que o G02 estaria sendo vendido com ROMs piratas e por que ele foi parar no AliExpress. Segundo a empresa, a companhia responsável pela fabricação do portátil foi expressamente proibida de vendê-lo fora da China.
Das duas, uma: ou nada disso fazia parte do acordo, ou a Lenovo entrou em modo controle de danos. A companhia aponta para a possibilidade de que revendedores tenham inserido cartões com os jogos à revelia da fabricante, que fechou um contrato "white label", em que a Lenovo só imprime o nome no console.
De qualquer forma, o G02 sumiu completamente do AliExpress, ficando assim restrito ao mercado chinês.
Segue abaixo a notícia original.
Tom Clancy dizia que a diferença entre a ficção e a realidade é que "a ficção precisa fazer sentido". Tal afirmação ilustra bem a situação envolvendo o Lenovo G02, um retroconsole portátil voltado à emulação que, como qualquer outro produto Made in China de sua categoria, é vendido com uma grande quantidade de ROMs piratas de diversos sistemas do passado.
Inicialmente visto como uma piada bem elaborada, o causo ganhou ares surreais quando a própria Lenovo confirmou se tratar de um produto real "exclusivo" para o mercado chinês, mas que está ao alcance de qualquer um graças ao AliExpress.

Embora a Lenovo diga que o G02 é um produto "exclusivo" do mercado chinês, ele está disponível no AliExpress (Crédito: Divulgação/Lenovo)
O rolo começou no início de maio, quando vários veículos de mídia notaram um novo produto à venda no AliExpress, um console portátil com o form factor do Game Boy como tantos outros vendidos por empresas chinesas como Anbernic, Ayaneo, Retroid e afins. O que chamou a atenção, claro, foi o nome da Lenovo ligado ao tal G02, o que não fazia sentido algum.
Por mais que a empresa tenha sede na China, um país notório por não dar a mínima para direitos autorais de fora de suas fronteiras (salvo raríssimas exceções, a justiça local não pune infrações de copyright cometidas por seus cidadãos ou companhias em questões de direito internacional), a Lenovo é uma grande companhia de tecnologia com alcance global, avaliada em US$ 195,37 bilhões (~R$ 983,06 bilhões, cotação de 22/05/2026).
Vale lembrar que a Lenovo controla a Motorola, ainda uma grande fabricante no cenário mobile, e é uma potência no mercado de PCs, especialmente laptops (graças à herança da linha ThinkPad) e PCs portáteis para games. Se envolver com emulação, um assunto espinhoso para qualquer um que não detenha os direitos dos games pirateados na forma de ROMs ilegais, e um tabu para gigantes como a Nintendo, parecia ser algo altamente improvável e, como diz o Sr. Spock, ilógico.
O site Retro Dodo fez o que qualquer um em sã consciência no ramo jornalístico deveria fazer: entrou em contato diretamente com a Lenovo, a fim de esclarecer se o G02 era um produto real ou um scam, produzido por terceiros que resolveram estampar o nome da companhia em seu console, muito provavelmente para aumentar as vendas com base na confiabilidade da companhia e em todo o óbvio buzz gerado pela situação.
Então a Lenovo respondeu ao contato, e o caso ficou ainda mais esquisito.
Segue abaixo a réplica oficial:
"O G02 é um dispositivo desenvolvido por meio de um acordo local de licenciamento, voltado exclusivamente para o mercado chinês interno e que não faz parte do portfólio global da Lenovo.
Produtos como este, desenvolvidos através de tais acordos, podem diferir dos vendidos pela Lenovo via canais autorizados.
Obrigado pela sua preocupação e por nos contatar a respeito."
Resumindo, o Lenovo G02 é um produto oficial licenciado, que não foi desenvolvido internamente; trata-se de um console portátil fabricado por uma terceira e distribuído com autorização da gigante para usar seu nome, o que muito provavelmente ilustra um desejo da empresa de abocanhar uma fatia do bolo do mercado retrogaming interno, que tem rendido muita grana às companhias locais já estabelecidas.
Falando do console em si, o G02 é voltado a games mais antigos, no máximo da 5.ª geração (PSOne e Nintendo 64), o Dreamcast (com algumas limitações) e portáteis como o PSP e o Game Boy Advance, além de emular títulos do Arcade, do Neo Geo e antigos do PC; ele é equipado com um processador Rockchip RK3326, um quad-core com clock de até 1,5 GHz, 1 GB de RAM e 4 GB de espaço interno para o sistema operacional, no caso Linux. A interface usada é a versão desktop do EmulationStation, que é gratuito, mas teve o nome removido mesmo assim.
A tela é talvez seu trunfo: ao invés de um LCD comum como a maioria dos concorrentes, o Lenovo G02 traz uma IPS de 4,5 polegadas com resolução de 1.024 x 768 pixels (proporção 4:3, ideal para games antigos); a alimentação é feita via cabo USB-C (há duas portas, uma delas com OTG), há suporte a Wi-Fi e os controles incluem um analógico com RGB, sendo assim bastante similar ao Anbernic RG 40XXV.
O portátil pode ser adquirido com cartões microSD de 64 ou 128 GB cheios de ROMs, mas suporta até 1 TB; custando aproximadamente US$ 63 (~R$ 630 via Remessa Conforme), o G02 é um pouco mais avançado que o baratinho R36S, embora este tenha dois analógicos.
A grande pergunta é: "Por que a Lenovo se exporia assim?" Por mais que a empresa alegue que o G02 seja voltado exclusivamente ao mercado chinês, as chances de que ela não tenha antecipado que o produto acabaria no AliExpress, ao alcance de consumidores ao redor do globo, são nulas. Todo o rolo pode escalar para reações de companhias afetadas pela comercialização de ROMs piratas, no que a Nintendo dificilmente ficaria quieta.
Diferente de Anbernic e cia., que atuam exclusivamente na China e vendem seus produtos para fora por meio de lojas de e-commerce, a Lenovo é uma multinacional gigantesca, que atua em diversos países e, dessa forma, é um alvo enorme e suculento demais para a casa do Mario ignorar.
É possível que tenhamos desdobramentos futuros quanto a essa curiosa manobra da Lenovo, mas enquanto isso, você pode adquirir o G02 com apenas alguns cliques, se estiver minimamente curioso e interessado.
Fonte: Retro Dodo