Ronaldo Gogoni 49 semanas atrás
O macOS 26 Tahoe é a última versão do SO da Apple para o Mac compatível com processadores Intel/x86; a partir de 2026, novos produtos da maçã voltarão a trabalhar exclusivamente com RISC, como era no tempo do PowerPC.
O Mac OS X teve um longo período de "vida dupla", rodando tanto em x86 quanto no PowerPC, e a história de que em 2001, Steve Jobs apresentou a Kunitake Andō, então presidente da Sony, um laptop da linha VAIO rodando o sistema, é bem conhecida. Porém, muita gente não sabe dos detalhes por trás.

Este é um Hackintosh; o que Jobs queria era suporte oficial (Crédito: rbr55/Reddit)
A história de como a Apple tentou convencer a gigante japonesa a vender PCs rodando seu sistema, um dos capítulos mais estranhos da "vida dupla" do Mac, envolve um engenheiro com um projetinho paralelo.
Quando Jobs voltou à Apple em 1997, ele promoveu uma completa reorganização na linha Mac, reduzindo o número de modelos e interrompendo o licenciamento do OS X para outras companhias, que lançavam clones diversos; nesse balaio entravam a linha StarMax da Motorola, e o Pippin, um console de videogame fabricado pela Bandai.
O que muita gente não lembra, é que a Apple tentou migrar para chips Intel muito antes da volta de Jobs à empresa. Em 1992 a Novell, uma companhia que ficou conhecida por soluções estáveis em redes locais (LAN) para empresas, propôs uma colaboração com Cupertino para estabelecer produtos que oferecessem uma concorrência sólida ao DOS e Windows, que enfrentavam na época o escrutínio do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, por práticas monopolistas.
O "Projeto Jornada nas Estrelas", chamado assim graças ao objetivo de "to boldly go where no Mac has gone before", consistia em migrar o System 7, o então SO padrão, da arquitetura Motorola 68000 para x86, enquanto a Novell promoveria o sistema como uma alternativa ao Windows; em 1993, o CEO John Sculley (aquele que veio da Pepsi), favorável ao projeto, saiu da Apple e deu lugar a Michael Spindler, que apoiava o PowerPC e a mudança de CISC para RISC, e o projeto foi abandonado.
Dali por diante, a Apple não voltaria a investir diretamente na plataforma x86 até 2000, graças a uma família de mudança.
John D. Kullmann "JK" Scheinberg, um engenheiro sênior que trabalhava na maçã desde 1987, se mudou da Califórnia rumo à costa leste dos EUA, para sua família ficar mais perto dos sogros, auxiliando na criação do primeiro filho, que na época tinha um apenas um ano. Ele recebeu autorização da Apple para operar em teletrabalho (como chamávamos o home office antigamente), mas por causa disso, não poderia participar de projetos grandes.

JK Scheinberg, o engenheiro da Apple que fez o OS X rodar nativamente em um Sony VAIO (Crédito: JK Scheinberg/X)
Scheinberg passou a investir em um projeto próprio, que era verificar a portabilidade do OS X para x86, devido a elementos em comum que o sistema possuía enquanto no PowerPC. Em junho de 2000, ele enviou um e-mail para seu então supervisor e contratador original, o engenheiro de software Joseph "Joe" Sokol, pedindo permissão para assumir o projeto de migração para Intel em caráter oficial. A resposta veio apenas em dezembro de 2001, com Sokol pedindo para ele mostrar no que estava trabalhando, de modo a justificar a alocação de recursos.
Scheinberg já havia migrado o Mac OS X para seis desktops customizados, três no escritório da Apple e três em casa, todos rodando o sistema de forma nativa. Sokol ficou incrédulo quando eles foram ligados e bootaram o sistema, e correu para mostrar o feito a Bertrand Serlet, então SVP de Engenharia de Software da Apple, que também não acreditou no que viu.
Serlet perguntou a Scheinberg quanto tempo levaria para ele fazer o mesmo em um laptop Sony VAIO, e se consumiria de duas a três semanas. Quando o engenheiro respondeu "duas horas, três no máximo", ele o ordenou a ir na Fry's mais próxima, e comprar "o mais caro e topo de linha que encontrasse".
Isso foi no meio da tarde, e por volta das 19:30, o VAIO estava rodando o OS X nativamente; no dia seguinte, Jobs voou para o Japão (o escritor freelancer Nobuyuki Hayashi diz que o encontro se deu no Havaí) já com o laptop, para a reunião com Andō que não deu em nada.
Scheinberg acabou "sequestrado" pela cúpula da Apple, seu escritório em casa teve que ser reconfigurado em uma "caixa-forte", para atender os requisitos de confidencialidade da companhia, e ele e sua família foram instruídos a não comentar sobre o assunto com absolutamente ninguém.
O engenheiro foi colocado para gerenciar uma equipe inicialmente pequena, mas que até dezembro de 2002 envolveria 18 engenheiros, no que ficou posteriormente conhecido como Projeto Marklar, a migração formal do Mac OS X para processadores Intel; foi nessa época em que os rumores começaram a circular na mídia.
Na época, a arquitetura RISC tinha problemas de desempenho que justificavam a mudança em direção ao CISC, abraçando os processadores da Intel; o anúncio oficial foi feito durante a WWDC 2005. Scheinberg, por sua vez, sairia da Apple em 2008.
Hoje, um processador CISC pode embarcar inúmeras instruções, se especializaram em desempenho acima da eficiência, e como resultado, são comilões extremos de energia; um RISC, embora tecnicamente mais lento, realiza a mesma tarefa com um consumo bem menor, fora a integração de componentes principais no SoC (System on a Chip), que dispensam GPUs e memórias RAM dedicadas.
O projeto com chips RISC/ARM fica mais barato e menor, e tão potente quanto um CISC/x86, o que justificou para a Apple realizar uma nova migração, abandonando de vez a Intel em prol de processadores Apple Silicon desenvolvidos internamente, e por tabela, vitimou também a longa parceria com a AMD, que fornecia placas de vídeo para os Macs mais potentes.
A parte mais irônica disso tudo, é saber que a Apple tem sérias dificuldades em reconhecer sua própria história.