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Valve derruba Portal 64, mas “culpa” é da Nintendo

Portal 64 era um impressionante demake do jogo da Valve para o Nintendo 64 e que teve seu desenvolvimento interrompido. Motivo? A ferramenta Libultra

15/01/2024 às 8:28

Por mais que boa parte do público esteja sempre sedento por gráficos de ponta ou a última tecnologia que promete revolucionar os videogames, existe algo que me fascina nos demakes. Ver um jogo mais moderno rodando num console antigo é algo que considero muito legal e quando soube que um sujeito estava criando uma versão do Portal para o Nintendo 64, passei a prestar atenção no projeto.

Portal 64

Crédito: Reprodução/LucasDash-dA/DeviantArt

Idealizado por James Lambert, Portal 64 nasceu da tentativa de levar o adorado jogo da Valve para o Nintendo 64, uma façanha que muitos poderiam considerar impossível, mas que o fã estava fazendo virar realidade.

O que poderia tornar essa recriação tão complicada é a maneira como os portais mostram pedaços da fase, nos permitindo assim ver o que está do outro lado dos círculos laranjas e azuis. E para fazer com que tudo funcionasse como no jogo original, Lambert recorreu a uma saída simples, mas nem por isso menos engenhosa.

Em Portal 64, o efeito foi obtido aproveitando a técnica da renderização de tela dividida em jogos multiplayer. Porém, enquanto nesses títulos vemos duas telas posicionadas uma em cima da outra ou lado a lado, na criação de Lambert as telas são sobrepostas.

Desta forma, o sujeito conseguiu entregar algo muito parecido com o que temos no título lançado 11 anos após o Nintendo 64 chegar ao mercado. Apesar de alguns bugs nas versões preliminares, o autor conseguiu resolvê-los e exceto pela qualidade dos gráficos, tínhamos basicamente a mesma experiência do jogo para PC. Confira:

Aos poucos ele foi implementando recursos como a possibilidade de salvar o progresso ou mudar o esquema de controles e percebendo que tinha uma joia nas mãos, Lambert começou a documentar o desenvolvimento do Portal 64 em sua conta no Youtube, além de criar uma campanha de financiamento coletivo.

Como a Valve não costuma se opor à criação de modificações ou utilização de suas propriedades intelectuais, parecia que o projeto seguiria sem maiores problemas e isso realmente aconteceu por alguns meses. Porém, nos últimos dias ficamos sabendo que o cenário mudou.

Com 13 das 19 fases do jogo já recriadas, em 11 de janeiro James Lambert publicou uma atualização no seu Patreon informando que o projeto tinha chegado ao fim, mas não da maneira como queria. Após ser contactado pelos advogados da Valve, ele não teve outra opção que não fosse parar o desenvolvimento do Portal 64.

“Como o projeto depende de bibliotecas proprietárias da Nintendo, eles [advogados da Valve] me pediram para derrubar o projeto,” afirmou o autor. “Estou avisando todos antes para que possam optar por retirar seu apoio antes do próximo ciclo de pagamento [do Patreaon].”

Segundo Lambert, ele ainda planeja continuar com seu canal, onde espera criar algo para realidade virtual usando o Nintendo 64, assim como demonstrar outras ideias que levem o antigo console ao limite. Porém, o sujeito disse entender aqueles que não quiserem mais continuar pagando a contribuição mensal, afinal, muitos faziam isso porque queriam ver aquela versão do Portal ser terminada.

E já tinha gente vendendo o cartucho (Crédito: Reprodução/Etsy)

A notícia caiu como um balde de água fria naqueles que não viam a hora de poder jogar a criação de Lambert em seus Nintendo 64. E com tamanha frustração, era de se esperar que a Valve virasse alvo de reclamações, mas de acordo com o game designer, a empresa norte-americana não teria tanta culpa quanto podemos imaginar.

“Eu não os culpo de forma alguma e acho que vocês deveriam fazer o mesmo,” disse. “Não fiquem bravos com a Valve. O projeto provavelmente estava condenado a ser derrubado desde o início.”

O grande empecilho aqui estaria mesmo na utilização do Libultra, kit de desenvolvimento utilizado para a criação de jogos para Nintendo 64. Assim, temendo problemas futuros com a Nintendo, o pessoal da Valve achou melhor intervir e pedir que o Portal 64 deixasse de ser produzido.

Vale lembrar que em maio de 2023 os criadores do Half-Life barraram no Steam o lançamento do Dolphin, famoso emulador do GameCube. Como a Nintendo considera que o programa viola o Digital Millennium Copyright Act (DMCA), a Valve preferiu não arriscar distribuí-lo no Steam. Dois meses depois, os criadores do emulador anunciaram que estavam desistindo de levá-lo para a loja.

Portal 64

Crédito: Reprodução/Youtube

Já para Lambert, uma opção seria recriar o Portal 64 usando a Libdragon, um kit de desenvolvimento de código aberto para o videogame de quinta geração da Nintendo. Porém, no momento ele não se sente confortável em prometer que fará todas as mudanças necessárias. Além disso, precisaria haver a autorização por parte da Valve de que a marca pode ser usada nesse demake, o que ainda não ocorreu.

Por enquanto, o talentoso desenvolvedor diz estar feliz com o que alcançou e reforçou o desejo de continuar explorando o Nintendo 64. “Estou pensando que quero criar um jogo original e desenvolvê-lo simultaneamente para o Nintendo 64 e PC,” declarou. “Desta forma, será um projeto interessante que roda no N64, mas que eu também poderei monetizá-lo facilmente e tenho uma ampla audiência que poderá comprá-lo.”

Seguir por este caminho parece mesmo ser a melhor opção para James Lambert. Como já conseguiu chamar a atenção de muita gente, algumas dessas pessoas deverão querer acompanhar sua documentação sobre a criação de um título inédito e como esse projeto não ficará preso a um aparelho que saiu de circulação há mais de duas décadas, o game designer ainda poderá ter um maior retorno vendendo-o em alguma loja virtual.

Eu só espero que Lambert tenha aprendido a lição e dessa vez não recorra a Libultra para dar vida ao seu projeto.

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