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SpaceX e T-Mobile vão acessar seu celular do espaço

A SpaceX e a T-Mobile apresentaram talvez uma revolução nas telecomunicações mundiais: Satélites Starlink falarão direto com celulares

26/08/2022 às 15:06

A SpaceX e a T-Mobile anunciaram uma revolução nas telecomunicações, em escala mundial. Não, não só telecomunicações, mas algo que poderá mudar fundamentalmente a forma com que viajamos, exploramos e passeamos. Algo que tem potencial de salvar milhares de vidas.

Falcon 9 levando satélites Starlink ao Infinito e Além! (ou a uns 500 km de altitude) (Crédito: SpaceX)

Em 13 de outubro de 1972, um Fairchild FH-227D da Força Aérea Uruguaia, levando 40 passageiros e 5 tripulantes, caiu na Cordilheira dos Andes. Os sobreviventes ficaram isolados por dois meses, durante os quais vários morreram de hipotermia ou fome, e os sobreviventes tiveram que apelar para canibalismo, comendo os mortos pra não morrerem eles também de fome.

Foi um dos acidentes mais traumáticos da história da aviação, e muita tecnologia foi desenvolvida para evitar que algo assim se repetisse. Hoje aviões contam com transponders via satélite para informar sua localização, mas isso também não é suficiente, como ficou demonstrado com o Vôo MH370 da Malaysia Airlines, em 2014.

Aparentemente o piloto deliberadamente desligou todos os transmissores de localização do avião, antes de rumar em direção ao Oceano.

Por toda a História da Humanidade pessoas morreram por se perderem, às vezes vagando a poucos quilômetros da salvação. Mapas exigem que você saiba sua localização, tecnologias como GPS mudaram radicalmente a forma como nos orientamos, hoje em dia não há mais motivo para visitar uma cidade desconhecida e se perder, mas e quando não há sinal de celular?

Fora dos grandes centros a área de cobertura das operadoras de celular é muito falha, ninguém instala torres de celular no meio de florestas, lagos ou desertos. Mesmo nos Estados Unidos, há 1,3 milhões de Km2 sem qualquer cobertura de celular.

Curiosidade: No Pico da Bandeira, na Serra do Caparaó, há sinal de celular (Crédito: Arquivo pessoal)

Em uma apresentação em conjunto com a SpaceX, a T-Mobile prometeu acabar com essas zonas mortas.

Com 110 milhões de assinantes e receita anual de US$68 bilhões, a T-Mobile é um monstro no setor, mas nem ela teria condições de cobrir todos os territórios sem conexão, isso exigiria um milagre.

No caso, o milagre veio do espaço. No evento apresentado na Starbase, em Boca Chica, Texas, 26/8/2022, Elon Musk e Mike Sievert, CEO da T-Mobile apresentaram o projeto “Coverage Above and Beyond”, e é algo disruptor.

O projeto envolve usar a segunda geração de satélites da constelação Starlink para criar o equivalente a torres de celular virtuais, os satélites se comunicarão diretamente com os celulares, mesmo se eles estiverem a centenas de quilômetros da torre mais próxima.

Isso exigirá muita tecnologia, um celular em teoria consegue receber um sinal a 500Km de distância, mas o satélite precisa receber a transmissão do celular, e com potência entre 1w e 3w, isso demandará uma antena com tecnologia phased-array e 25 metros quadrados de área.

Segundo Musk cada célula coberta pelos satélites terá banda total entre 2 e 4 Mbits, o que parece pouco, e é, mas o objetivo inicial não é que você assista Netflix no meio do Alaska, o objetivo é que você, caso tenha sofrido um acidente, peça socorro no meio do Alaska, via mensagem de texto ou uma ligação de voz, e cada célula suportará centenas de milhares de mensagens de texto simultâneas.

Isso é a diferença entre você ficar perdido no meio do nada com uma perna quebrada, e ter uma forma de avisar seus parentes, e chamar socorro. Viajantes podem atualizar sua localização constantemente, acidentes de avião ou naufrágios não dependerão mais de um rádio de emergência, mas de dezenas.

Consultando o Nperf, mesmo o mapa de cobertura da Vivo, operadora com mais antenas, mostra imensos vazios no território brasileiro. Isso significa que também não há sensoriamento remoto, exceto com estações caras usando satélites dedicados. Imagine uma unidade medindo dados climáticos, usando energia solar e um simples celular?

Mapa de cobertura da Vivo (Crédito: Nperf)

Exato, o impressionante desse projeto da SpaceX e da T-Mobile, é que ao contrário de Iridium e outros serviços, ninguém vai precisar comprar celulares especiais. Para o aparelho tudo funciona de forma transparente, se seu celular for 5G, ele vai identificar o sinal do satélite Starlink como uma torre.

Mike Sievert explicou que os usuários dos planos mais caros vão ter o serviço incorporado automaticamente, sem custos adicionais. O pessoal com planos baratinhos poderão contratar, a um custo baixo.

Clientes de outras operadoras poderão usar a rede da T-Mobile/SpaceX para ligações de emergência, o que aposto que irá gerar um monte de ligações bem curiosas para o 911.

Como todo serviço que depende de regulamentação, é complicado implementar essa tecnologia internacionalmente, cada país tem seus órgãos regulatórios e leis próprias, mas a idéia é, gradualmente, ir liberando, de país em país, como estão fazendo com a Starlink.

Áreas internacionais, como oceanos, terão o serviço liberado.

Uma grande vantagem da implantação inicial é que mesmo com apenas os primeiros satélites, que serão lançados em 2023, o sistema já tem condições de funcionar de forma assíncrona. Mensagens de texto não precisam ser em tempo real, os aparelhos e satélites irão armazenar as mensagens, aguardando áreas de conectividade, assim se o satélite está passando sobre a África e recebe um SMS pra você, ele guarda e espera até passar por cima, sei lá, de Caicó, onde você está, e só então a transmite para seu celular.

Soon... (Crédito:  Pete Linforth via Pixabay)

Com mais satélites teremos mais área de cobertura, e mais banda disponível. Futuramente a qualidade das ligações de voz melhorará, e conexões de dado reais serão disponibilizadas, mas para isso é preciso que a Starship seja finalizada, certificada e lançada, pois os satélites Starlink 2.0 são muito maiores que os 1.0, e não é economicamente viável lançá-los via Falcon 9.

Musk disse que os carros da Tesla também eventualmente terão acesso ao serviço. Os Teslas vêm com conectividade, conectando-se à rede de celular, mas fora da área de cobertura eles não conseguem pedir socorro em caso de acidentes. Com o sistema SpaceX/T-Mobile, isso deixará de ser um problema.

O projeto tem tudo para se tornar uma grande fonte de renda para a SpaceX, e demonstra uma excelente estratégia: Usar seus satélites como plataformas, vendendo serviços e espaço para empresas agregadas. Não é exatamente difícil imaginar um acordo com o Google, espetando câmeras nos satélites Starlink e criando um Google Earth em tempo real.

Puro simbolismo, eu sei. (Crédito: Reprodução Internet)

Isso tudo, claro, é péssimo para países como China, Rússia, Melhor Coréia e similares, que tentam manter seu povo sob mão de ferro, imagine o estrago que um simples chip da T-Mobile faria, contrabandeado para um país fechado, sedento por notícias e informação.

Em O Fim da Infância, Arthur Clarke, o eterno otimista previu para 31 de dezembro de 2000 a abolição das tarifas de longa distância, transformando todas as ligações em ligações locais. Ele não previu que o telefone se tornaria algo muito mais complexo que uma máquina de falar, mas agora é nossa vez:

Ninguém previu que após tanto tempo, o telefone se tornaria pela primeira vez verdadeiramente mundial e ubíquo, e que muito em breve nenhum ser humano estará mais perdido e longe do socorro.

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