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A curiosa história do hacker sem fio

O Hacker, do bem ou do mal não é uma invenção do mundo dos computadores. Ele existe faz tempo, como este fanfarrão de 1903

29/06/2022 às 1:32

A percepção popular trata o hacker como vilão, em geral usando máscara de Guy Fawkes, digitando em computadores sem mouses enquanto encara telas a 20 cm de distância passando código da Matrix em caracteres verdes. Não é bem assim.

Hackers malvados são malvados1 (Crédito:  Max Bender via Unsplash)

Na realidade o espírito hacker não depende de computadores, o hacker é o fuçador, o sujeito que quer desmontar o brinquedo para ver como ele funciona, o sujeito que depois vai remontar o brinquedo de forma diferente, só para ver se consegue.

Muitos dos maiores gênios da Humanidade eram hackers, um dos mais famosos, Galileu Galilei.

Todo mundo celebra Galileu por defender a hipótese heliocentrista e ser perseguido pela Igreja Católica, ou pela invenção do telescópio refrator. Na realidade ele soube da invenção do telescópio por um holandês chamado Hans Lippershey, achou que podia fazer melhor, e fez.

Galileu Apresenta seu telescópio ao Senado de Veneza (Crédito: it's a me, Luigi Sabatelli, circa 1841)

O que não é tão conhecido é que o propósito astronômico do telescópio era secundário. Galileo percebeu que poderia faturar uma boa grana vendendo telescópios para mercadores em Veneza. Eles conseguiam ver os navios chegando com até duas horas de antecedência, e conhecendo seus itinerários e cargas, dava tempo de correr para o Mercado e fazer um monte de negócios lucrativos, especulando com os preços.

Eu disse que o Hacker é antes de tudo um curioso, mas isso não quer dizer que ele não possa ter intenção maligna, como demonstrado em um caso que poderia ser um bom episódio de Mr. Robot, se não tivesse acontecido em 1903.

O Telégrafo já estava estabelecido como meio de comunicação, e mesmo entre América do Norte e Europa, já havia cabos submarinos permitindo a troca de mensagens (caras) através do Atlântico. No final do Século XIX a tecnologia já estava avançada o bastante para um cabo instalado em 1886 ter funcionado até 1965.

Marconi e seu estranho gadget, o Rádio (Crédito: Domínio Público)

Eis que surge uma novidade, um tal de rádio, prometendo comunicações sem fio em distâncias incríveis. Seu maior proponente era Guglielmo Marconi, que fazia demonstrações de sua tecnologia, combinando rádio e código Morse.

Em junho de 1903 Marconi estava na Cornualha com seu transmissor. A 300 km dali, em Londres, Sir John Ambrose Fleming, o inventor da válvula de rádio operava um receptor no teatro da Real Instituição da Grã-Bretanha, “uma organização dedicada à educação e investigação científicas”. O objetivo era captar a transmissão de Marconi, diante de uma plateia de cientistas, empresários e jornalistas.

Bip bip biip bip, os sinais começam a chegar. O assistente de Sir Fleming faz uma cara estranha. Fleming olha a impressora Morse acoplada ao receptor, e confirma: Várias vezes repetida, a palavra “Ratos...”.

Uma antiga impressora Morse. Não se engane, naquela época ela já prendia papel, travava e imprimia sozinha a mensagem ".--. -.-. / .-.. --- .- -.. / .-.. . - - . .-." (crédito: Reprodução Internet)

Depois o misterioso invasor começou a transmitir um poema zoando Marconi e seu telégrafo sem fio, com um monte de profanidades e baixarias. Sir Fleming ficou possesso, ainda mais quando o caso foi parar nos jornais. Ele escreveu cartas furiosas exigindo providências, chamou o acontecido de “hooliganismo científico”.

Poucos dias depois, uma carta no The Times of London esclarecia o mistério. O hacker era um dos maiores desafetos de Marconi, Nevil Maskelyne (1863–1924).

Maskelyne, então com 39 anos era inventor, mágico de salão e cientista amador, interessado especialmente em comunicação por rádio. Ele aprendeu tudo que conseguiu por conta própria, inclusive código Morse, que ele usava para se comunicar secretamente com assistentes, durante seus shows.

Ele construiu transmissores e em 1900 conseguiu enviar um sinal de rádio a 16 km de distância, mas quando tentou comercializar suas invenções, descobriu que Marconi havia patenteado tudo antes.

Maskelyne treinou como relojoeiro, e construía robôs para alguns de seus truques (Crédito: Domínio Público)

Para piorar, Marconi se gabava de seu sistema de rádio ser extremamente seguro, que somente seus receptores perfeitamente sintonizados poderiam receber as mensagens. Maskelyne sabia que isso era mentira, e em 1902 construiu uma torre de 50 metros de altura, com a qual captava as mensagens “confidenciais” de Marconi. Ele publicou seus resultados no mesmo ano, na revista The Electrician, mas ninguém deu bola.

Sua sorte grande veio em 1903, quando ele foi contactado pela Eastern Telegraph Company, a mega-companhia que controlava o tráfego telegráfico entre o Reino Unido e seus interesses na Indonésia, Índia, África, América do Sul e Austrália. Seus cabos submarinos eram muito caros mas mesmo assim lucrativos. O rádio poderia afetar isso.

A solução? Pagar para um desafeto de Marconi para que ele demonstrasse que o rádio era inseguro e poderia sofrer interferências propositais.

Embora tenha sido contratado para estragar a festa de Marconi, Maskelyne agiu como um verdadeiro hacker White Hat contratado para investigar e testar a segurança de um sistema ou uma organização, e sua demonstração expôs limitações reais do rádio que existem até hoje. Em qualquer Mercado Livre da vida você compra um SDR (software defined radio) e capta transmissões abertas de polícia, bombeiros, aeroportos...

Dá até pra brincar online. Este site aqui é o frontend de um SDR que recebe sinais de uma antena nos Países Baixos. Inserindo a frequência de 8131,5833 ou 4372 KHz você consegue ouvir as comunicações da Força de Bombardeiros Estratégicos Russos, transmitindo sem criptografia. Sério. Putin não aprendeu nada com Maskelyne.

Já seu filho aprendeu. Jasper Maskelyne (1902-1973) seguiu a carreira do pai, sendo mágico e inventor. Durante a Segunda Guerra Mundial ele comandou uma unidade do Exército especializada em camuflagem e dissimulação. Ele usou seus conhecimentos de mágica para criar feitos como construir uma réplica da cidade de Alexandria, no meio do deserto, para que os alemães bombardeassem o lugar errado. Eu conto a história dele, no meu livro Calcinhas no Espaço.

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