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Cientistas quebram cabeça com corpo celeste que não se enquadra

Corpo celeste a 4 mil anos-luz da Terra não se parece com nada conhecido; objeto pode ser estrela da nêutrons, pulsar, magnetar, ou algo novo

27 semanas atrás

Uma equipe de pesquisadores do International Centre for Radio Astronomy Research (ICRAR), um centro de pesquisas da Austrália voltado a radioastronomia, identificou um estranho corpo celeste bem próximo da Terra, a meros 4.000 anos-luz de distância (na escala cósmica, é logo ali).

O tal objeto possui características que o classificariam como uma espécie de estrela de nêutrons, mas suas propriedades são tão únicas que ele não se enquadra na definição padrão, e nem mesmo da de um pulsar ou da variação mais rara, um magnetar.

O Astronauta quase se deu mal devido a um magnetar; o objeto encontrado pelo ICRAR se assemelha a um, mas também pode ser algo completamente novo (Crédito: Reprodução/Mauricio de Sousa Produções)

O Astronauta quase se deu mal devido a um magnetar; o objeto encontrado pelo ICRAR se assemelha a um, mas também pode ser algo completamente novo (Crédito: Reprodução/Mauricio de Sousa Produções)

O corpo celeste observado pelo ICRAR se enquadra do que se sabe sobre uma estrela de nêutrons, um subproduto de uma supernova de estrelas supergigantes vermelhas. Elas são o segundo objeto observável mais denso do Universo conhecido, só perdendo para o buraco negro, com uma massa de 10 a 25 vezes maior que a do Sol, comprimida em um diâmetro de apenas 10 km, em média.

Nós sabemos que existem pelo menos um bilhão de estrelas de nêutrons na Via-Láctea, a maioria delas muito, muito velhas, e são difíceis de serem detectadas através de suas emanações eletromagnéticas. Quando são jovens, entretanto, elas giram e emitem feixes de radiação potentíssimos através de seus polos magnéticos.

Quando o feixe está apontado em direção à Terra, ele pode ser observado em intervalos de tempo extremamente curtos e regulares, como se fosse um farol. Essa é a variação que conhecemos como pulsares. Normalmente, um pulsar emite feixes observáveis a cada 10 segundos, devido a sua altíssima velocidade de rotação, mas esse não é o caso da estranha estrela identificada pelo ICRAR.

Segundo a Dra. Natasha Hurley-Walker, radio astrônoma que lidera o estudo, o corpo celeste em questão possui um período de rotação MUITO lento, permitindo que o feixe seja observado em intervalos de 18,18 minutos, por períodos entre 30 e 60 segundos. Quando isso acontece, a estrela esquisitona se torna um dos objetos mais brilhantes do céu observável.

Por emitir ondas de rádio altamente polarizadas, e estar convertendo energia magnética em radiação eletromagnética de forma extremamente eficiente, a equipe da Dra. Hurley-Walker acredita que o objeto em questão é uma espécie de magnetar, mas mesmo essa classificação não preenche todas as caixinhas.

Representação artística de um magnetar; os feixes são emissões de radiação eletromagnética, e os círculos, linhas de seu forte campo magnético (Crédito: Reprodução/International Centre for Radio Astronomy Research - ICRAR) / corpo celeste

Representação artística de um magnetar; os feixes são emissões de radiação eletromagnética, e os círculos, linhas de seu forte campo magnético (Crédito: Reprodução/International Centre for Radio Astronomy Research — ICRAR)

É ou não é?

Basicamente, um magnetar é uma estrela de nêutrons dotada de um poderoso campo eletromagnético, muito mais forte que o da Terra, ao ponto de inviabilizar a manutenção da vida em suas cercanias. Fora isso, entretanto, ela possui características similares às de um pulsar.

O corpo celeste observado pelo ICRAR, como já dito, emite radiação na direção da Terra por muito tempo, um comportamento muito diferente quando comparado com o de outros astros transitórios (em constante mudança, como pulsares e supernovas). Exatamente por isso, há a possibilidade de que o objeto seja algo completamente novo, jamais identificado antes.

A Dra. Hurley-Walker acredita que o corpo celeste bizarro é um objeto teórico chamado magnetar de período ultralongo, um modelo previsto na radioastronomia, mas que nunca havia sido localizado. Segundo a proposta, astros do tipo são magnetares que girariam muito lentamente, mas a equipe se diz surpresa por não esperar que algo do tipo fosse tão brilhante.

Há a possibilidade, também não descartada, que o objeto seja uma estrela anã branca com comportamento incomum; de fato, o corpo celeste indefinido não se enquadra completamente em nenhuma categoria, tornando-o ainda mais estranho.

A equipe do ICRAR, que usa o observatório MWA (Murchison Widefield Array) para analisar o céu, continuará de olho no estranho objeto celeste para determinar se o seu ciclo de 3 pulsos por hora se manterá.

Com o tempo, novos equipamentos de melhor definição poderão permitir identificar se existem outros tipos do mesmo elemento no espaço, e se ele é ou não tão único quanto se acredita.

Referências bibliográficas

HURLEY-WALKER, N. et al. A radio transient with unusually slow periodic emission. Nature, Volume 601, Edição 7.894, 5 páginas, 26 de janeiro de 2022. Disponível em https://doi.org/10.1038/s41586-021-04272-x.

Fonte: ICRAR

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