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SpaceX DM-2 - Depois de 9 anos americanos voltarão ao espaço por conta própria

Depois de nove anos os EUA voltarão ao espaço por conta própria, graças à missão SpaceX DM-2, que se tudo der certo eliminará a dependência dos russos

25/05/2020 às 23:49

A gente vê na mídia o tempo todo a NASA sendo incrível fantástica extraordinária, americanos pousando em Marte, combatendo Goaul’ds e plantando batatas, temos a impressão de que os Estados Unidos são dominantes em tecnologia espacial, o que não é mentira, mas a verdade é mais inconveniente. Em algumas áreas os EUA ficaram para trás, e feio.

A NASA, como todo órgão governamental, está à mercê de vontades políticas, então planos de longo prazo nem sempre são seguidos. Já contei aqui como Kennedy queria cancelar o Projeto Apollo um ano depois de seu famoso discurso.

Como resultado, o Ônibus Espacial (cujo projeto começou em 1966) foi ficando sem sucessor. Primeiro a NASA foi ambiciosa (demais) com a Venture Star, que seria a primeira nave espacial como vemos nos filmes, capaz de decolar sem motores ou tanques auxiliares e pousar como um avião.

Quando botaram os custos no papel, baixaram a bola e resolveram fazer o X-33, uma versão menor, não-tripulada, basicamente um teste de conceito para descobrir se eram capazes de desenvolver aquela tecnologia ou não. Depois de US$1,5 bilhões, a resposta foi “ou não”, e ambos os projetos foram cancelados.

Com o cancelamento do X-33 em 2001, a NASA começou a bater cabeça até que em 2005 começaram a projetar o Programa Constellation, que envolvia dois novos foguetes, uma nova cápsula espacial e um módulo de pouso lunar, entre outros. O projeto logo saiu de controle, e em 2004 estimava-se que para cumprir os objetivos gastariam US$230 bilhões, até 2005.

Cada voo do foguete Ares I custaria US$1,6 bilhões, saindo mais caro que o Ônibus Espacial a US$500 milhões por lançamento.

Depois de muitas idas e vindas e vários bilhões gastos o Constellation fez um lançamento de um protótipo, para livrar a cara da NASA, e foi cancelado em 2010, thanks Obama.

Aí chega 2011, fica evidente que o Ônibus Espacial é caro e inseguro, e a NASA decide que não vai mais voar o Shuttle. Em andamento o recém-criado Commercial Crew Program, aonde parcerias com a iniciativa privada produziriam sistemas de lançamento E naves.

Por um curto período teriam que usar as naves russas para mandar e trazer astronautas da Estação Espacial Internacional, mas e de qualquer jeito o projeto da nave Orion estava adiantado e logo os EUA teriam um veículo próprio de novo.

Por enquanto o jeito era chegar para os russos com a tradicional oferta dos caroneiros, gas,  gass or grass, felizmente Sergey preferiu gas, e faturou um bom trocado. Como os EUA estavam sem alternativo, o valor foi subindo e hoje cada assento na Soyuz custa pra NASA mais de US$90 milhões.

Pois bem; a Orion, claro, não ficou pronta e foi fazer seu primeiro voo de testes, não-tripulado, em 2014. Em 2019 fez outro, também não-tripulado, para testar o sistema de escape. Os planos são para ela ser lançada com astronautas em 2024, mas absolutamente ninguém bota fé nisso.

As empresas do Programa Comercial também não se deram tão bem, inexperiência de alguns, burocracia natural da NASA e incapacidade de conciliar filosofias diferentes fez com que os projetos atrasassem diversas vezes.

Com o tempo os participantes foram sendo eliminados, até que restaram dois, a SpaceX com a Crew Dragon e a Boeing, com a Starliner. A NASA se viu pressionada, mas depois dos desastres da Challenger e da Columbia, a perspectiva de perder outro americano no espaço se tornou um pesadelo. Por isso as exigências de segurança, inspeções e especificações atingiram níveis nazistas, no bom sentido.

Os russos, por sua vez viram a falta de opções dos americanos e chegaram a ameaçar cancelar os voos, com Dmitry Rogozin, Diretor da ROSCOSMOS soltando a bravata:

“Depois de revisar as sanções contra nosso programa espacial, sugiro aos Estados Unidos que mandem seus astronautas para a Estação Espacial usando um trampolim.”

Felizmente não foi preciso chegar a tanto, e em 2 de março de 2019 a primeira Crew Dragon decolou rumo à ISS, levando apenas carga e uma manequim de testes chamada Ripley. Foi uma missão perfeita, ao contrário do primeiro voo da Starliner em 20 de dezembro do mesmo ano, quando vários bugs no software de controle impediram a nave de atingir uma órbita estável e voar até a ISS. A muito custo, incluindo software sendo reescrito on the fly, a nave foi salva e pousou em segurança.

Análises dos problemas com a CST-100 Starliner fizeram a Boeing propor um segundo voo de testes, antes de uma missão tripulada, deixando para a SpaceX a primazia de ser a responsável pelo primeiro voo de astronautas em uma nave norte-americana desde 2011. Se tudo der certo a Crew Dragon estará testada carimbada avaliada para quem quiser voar.

A missão DM-2 está planejada para dia 27 de maio de 2020, com dois astronautas escolhidos entre os mais experientes, são esses dois sujeitos aqui, Douglas G. Hurley e Robert L. Behnken.

Os dois fizeram dois voos no ônibus espacial, mas o mais legal é que Robert Behnken foi o piloto da missão STS-135, que em 21 de julho de 2011 pousou encerrando a era dos shuttles. Nada mais justo do que ele ser o piloto da Dragon no retorno dos Estados Unidos ao espaço.

 

Se tudo der certo, às 5:33 da tarde (Horário de Brasília) um Falcon 9 decolará da histórica plataforma 39A, de onde humanos partiram para conquistar a Lua, 51 anos atrás, pondo fim a uma dependência constrangedora dos russos e, principalmente, abrindo um leque de opções para a exploração pacífica do espaço, com investimentos comerciais, turísticos e científicos.

O momento é histórico, até hoje a NASA era responsável por boa parte das especificações e por toda a operação do hardware construído por empresas terceirizadas, agora temos todo o processo nas mãos delas. Os resultados imediatos são muito mais agilidade, custos no chão e Teslas pra levar os astronautas até a plataforma.

Assistir a um momento histórico desses é uma vitória, não só dos Estados Unidos, da SpaceX ou do Elon Musk. Estamos vivendo uma pandemia como não víamos nos últimos cem anos, mas nos recusamos a parar de sonhar. As nuvens sobre nossas cabeças são muito pequenas vistas do espaço, e milhares de homens e mulheres não aceitaram sumir silenciosamente na noite. Esqueceram suas diferenças e se uniram por um interesse em comum. Eles decidiram que não vão desaparecer sem lutar, como um todo vamos sobreviver.

Nenhuma bactéria dos infernos, nenhum micróbio maldito vai se colocar entre nós e as estrelas.

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