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Star Trek: Picard - resenha (com spoilers)

Star Trek: Picard é uma série que pegou todo mundo de surpresa duas vezes: A primeira ao ser anunciada, e a segunda ao ser apenas magnífica.

25/01/2020 às 18:19

Quando saiu a notícia que Jean-Luc Picard ganharia uma série, muitos trekkers ficaram com medo. O personagem teve uma despedida perfeita na TV, e com o histórico complicado de Discovery, o medo era justificado, mas desnecessário. Deveríamos apenas ter confiado em Patrick Stewart, ninguém ama mais Picard do que ele, e o resultado é que Star Trek: Picard é um trabalho de puro amor a Picard e tudo que Jornada nas Estrelas representa.

Picard, ao contrário de Discovery, não tenta ser Star Trek para os novos tempos, super-dark, radical, com estética e edição frenéticas, mas ao focar no conteúdo ao invés da forma, Picard acaba se tornando a série mais atual do Universo Trek, completamente diferente da Nova Geração, mas sem aquele ranço de "veja como somos diferentes e radicais". Picard não critica nem debocha do passado, mas também não vive nele.

Star Trek sempre primou pelo otimismo, mesmo em Deep Space Nine, uma série bem mais dark, com uma visão cinza da Frota Estelar, aonde o protagonista fez muitas coisas questionáveis em nome do bem comum. Hoje em dia otimismo saiu de moda. As pessoas não querem ser otimistas. Mesmo que você demonstre com dados que o mundo vem melhorando incrivelmente nas últimas décadas, a resposta será um xingamento ou um "então tá" atravessado.

O otimismo da Nova Geração não funcionaria hoje em dia, e Picard é sobre o fim do otimismo, o fim da Utopia, mas não sobre o fim da esperança.

Star Trek: Picard - A Sinopse

Quando a estrela do sistema-natal dos Romulanos virou uma supernova, Picard organizou uma frota de 10 mil naves para resgatar 900 milhões de refugiados. Foi uma decisão controversa, a Federação estaria ajudando seu maior inimigo. Nesse meio-tempo um ataque de formas de vida sintéticas (androides) exterminou todos os habitantes de Marte, e destruiu a frota do Picard. O resgate foi cancelado, e em protesto Picard abandonou a Frota Estelar.

Uns 20 anos depois ele é confrontado por uma jovem que levava uma vida normal até assassinos treinados invadirem seu apartamento e matarem seu namorado. Ela entra em modo Full-Alita (never go Full-Alita), mata todos eles e enquanto foge, tem visões do Picard.

O nome do cachorro de Picard é Number One e isso já vale a série.

O nome do cachorro de Picard é Number One e isso já vale a série.

Ao se encontrarem Picard percebe que há uma ligação muito importante entre a jovem e um amigo há muito perdido. Confirmando em seus arquivos, Picard descobre que seu amigo havia criado uma pintura com a exata mesma jovem, anos antes dela sequer ter nascido. O nome da pintura: "Filha".

Em um segundo encontro Picard e a jovem são atacados por mais assassinos ninjas espaciais, a jovem chuta bundas de novo, mas morre. Picard continua investigando e se encontra com a diretora do Instituto Daystrom, último lugar da Federação que ainda pesquisa Sintéticos, mas sem autorização de criar um androide de verdade.

A cientista explica que é impossível a jovem ser um sintético, mas se for, ela foi criada usando parte da rede neural positrônica de Data. E mais: Sintéticos assim são necessariamente criados em dupla; a jovem tem uma irmã gêmea. E dados os neurônios quânticos usados, uma simples célula cerebral da jovem seria suficiente para recriar o Tenente-Comandante Data.

Aonde está a irmã? Ela é cientista em um assentamento romulano, construído em... um cubo Borg.

Star Trek: Picard - A Pior ou Melhor Linha Temporal?

Jean-Luc diz com suas próprias palavras que estava sentado esperando a morte chegar, depois de tanto lutar, ele viu os ideais da Federação ruírem, mas não é o Universo do Espelho, não estão vivendo sob fascismo ou chutando bebês-foca. Eles estão apenas ignorando o problema romulano, como o ocidente como um todo ignora o genocídio dos muçulmanos Rohingya em Burma. Se fossem vulcanos, ou budistas, a gente ligaria.

E essa, crianças, é só mais uma das vezes em que as alegorias de Star Trek representam problemas reais da atualidade.

Star Trek: Picard - É saudosismo?

A série é melhor do que Discovery por não querer tanto não ser Star Trek. Picard é totalmente firmada em tudo que a gente viu antes. Nomes, lugares, eventos, mas não é um "vamos fazer tudo de novo igualzinho". Todos ficamos mais velhos, mais sábios ou mais teimosos. Amamos o passado mas não vivemos nele. Picard não vai reunir a velha turma para uma última aventura.

7 de 9 está na série.

É ÓBVIO que para o fã das antigas, nós que acompanhamos as velhas histórias, é emocionante ver tantos detalhes queridos na tela, mas Picard em nenhum momento passa o sentimento de volta ao passado. Picard é a banda da sua adolescência que voltou com um álbum inteiramente novo e excelente.

Uma série para ser ouvida

Os efeitos visuais, como tudo de qualidade hoje em dia, são excelentes mas Picard se destaca pelo texto. Esse primeiro episódio foi escrito por Akiva Goldsman, James Duff, Michael Chabon e Alex Kurtzman, todos veteranos, e cada palavra foi moldada de forma artesanal, dando a Patrick Stewart o material para passar toda a emoção e intensidade que o momento exige.

Um dos melhores momentos é quando uma jornalista está entrevistando Picard sobre a Supernova de Romulus, e apesar do acordado, insiste em falar sobre o ataque dos sintéticos.

JORNALISTA: "O senhor deixou a Enterprise para comandar uma armada de resgate, 10 mil naves com capacidade de dobra, uma missão para realocar 900 milhões de cidadãos romulanos para mundos fora do alcance da supernova. Um feito logístico mais ambicioso que as pirâmides"

Visivelmente incomodado, Picard responde:

PICARD: "As pirâmides foram um símbolo de vaidade colossal. Se você quer procurar por uma analogia histórica... Dunkirk"

A analogia é perfeita, e se perde no desconhecimento e vaidade da jornalista. A retirada de Dunquerque aconteceu em 1940, quando mais de 300 mil soldados ingleses ficaram encurralados na França, e uma frota organizada às pressas conseguiu 800 barcos, a maioria da população civil, que enfrentando o fogo inimigo atravessaram o Canal da Mancha para trazer de volta os rapazes.

Patrick Stewart não é mais um menino, ele está com 79 anos, e isso fica claro na série. Não vamos ver Picard correndo, pulando, atirando de arco-e-flecha, veremos sim o melhor de Picard: Sua postura, seus ideais, e acima de tudo sua esperança de fazer a coisa certa.

Star Trek: Picard é um presente para os fãs, É Star Trek com calma, sem a pressa de contar uma história por semana, com o melhor ator de todas as séries, passando toda a maturidade de anos de aprendizado.

Patrick Stewart nasceu para ser Jean-Luc Picard, um personagem que teve momentos magníficos em episódios como The Inner Light, The Best of Both Worlds ou Chain of Command, recebê-lo de voltar em Star Trek: Picard é uma grata surpresa, e um imenso privilégio. Mr Stewart, citando seu próprio personagem, eu digo: "You are dear to me in ways that you can't understand."

Picard - Aonde Assistir

Na CBS All-Access se você mora na gringa, ou na Amazon Prime Video no resto do mundo.

Cotação:

10/5 latinhas de Earl Grey.

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