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O assustador e ousado último recurso para salvar o Ônibus Espacial

Acidentes no espaço são raros mas acontecem, e a NASA planeja mesmo pros mais improváveis, como o não-travamento das portas do ônibus espacial

25/09/2019 às 18:04

Assim como o Batman, os engenheiros da NASA sempre tinham um plano, mas alguns deles eram mais ousados que a média, se o objetivo fosse salvar o ônibus espacial de um perigo improvável mas possível.

Ônibus espacial Discovery levando um módulo da Estação Espacial Internacional

Ônibus espacial Discovery levando um módulo da Estação Espacial Internacional

O problema começa com o calor. Se você reparar, quase todas as imagens dos Ônibus Espaciais em órbita mostram os bichos com as portas do compartimento de carga aberto. Isso tem um motivo: Como sua garrafa térmica sabe, no vácuo é danado de difícil se livrar de excesso de calor, e com o Sol atingindo a nave sem dó, máquinas, circuitos e pessoas gerando calor, em pouco tempo estaria tudo fervendo.

Por isso as portas servem como radiadores, jogando o excesso de calor para o espaço.

Detalhe da porta do compartimento de carga do ônibus espacial, com os radiadores de calor

Detalhe da porta do compartimento de carga, com os radiadores de calor

Claro, essas portas são um problema quando você reentrar a atmosfera a 28 mil quilômetros por hora, elas precisam ser muito, muito bem fechadas e travadas, e aqui começa a história contada por Wayne Hale, ex-diretor de missão da NASA.

As portas eram fechadas e abertas por motores elétricos, pinos e travas e dobradiças garantiam um fechamento seguro, mas como nada é perfeito, poderia acontecer alguma alteração, mas não tema com a NASA não há problema. Um kit de ferramentas projetado especialmente pra isso era embarcado em cada missão e os astronautas sabiam exatamente o que fazer.

Ele sairia da cabine pela câmara de descompressão, entraria no compartimento de carga e usando travas manuais prenderia firmemente as portas fechadas, voltaria para a cabine e o ônibus espacial poderia reentrar normalmente.

"Ah mas e se houver uma carga grande no compartimento de carga, e não der pro astronauta passar por ela?"

Isso realmente é um problema, mas a NASA pensou nessa situação. Caso algum satélite ou módulo de carga estiver atrapalhando, ele seria ejetado no espaço, e o resto do procedimento é igual.

Entra em cena o Spacelab, uma contribuição da Agência Espacial Européia, um módulo altamente versátil, existindo em um monte de configurações, levando todo tipo de carga científica. Ele era preso à escotilha interna do ônibus espacial, e tinha uma escotilha externa própria, no alto:

Primeira versão do Spacelab sendo instalada

Primeira versão do Spacelab sendo instalada

Nesta imagem dá pra ver bem a configuração, usando o Space Hab, uma versão do Space Lab:

Ônibus Espacial Endeavor com o Space hab

Ônibus Espacial Endeavor com o Space hab

Temos um túnel da cabine até o Space Hab, quase no centro do compartimento de carga; uma segunda escotilha na parte de cima, próxima à cabine. Em caso de problemas o astronauta sairia, travaria as portas manualmente e... não voltaria.

Com as portas fechadas não há espaço para ele se esgueirar pela escotilha vertical e se o problema fosse nas travas na traseira da espaçonave...

Space Hab no meio do caminho

Note que a circunferência do Space Hab não deixa espaço nenhum pro astronauta passar com as portas fechadas. E pra piorar, tanto ele quanto o Spacelab original eram firmemente ancorados à estrutura do ônibus espacial, não dava pra ejetar no espaço.

Qual a solução? Bem, a NASA pensou nisso também.

Em caso de problema sério com as portas em uma missão com o Spacelab, o procedimento seria o astronauta responsável fazer uma caminhada espacial, travar as portas manualmente, se dirigir a um ponto de ancoragem e se prender firmemente ao compartimento de carga.

Com as portas fechadas o ônibus espacial precisa retornar em no máximo uma hora e meia, ou começaria a sofrer com o excesso de calor. O traje espacial dá suporte a muito mais tempo do que isso, mas seu sistema de resfriamento não funciona em ambiente com gravidade.

O astronauta teria que acionar a refrigeração no máximo e aguentar quando ela parasse de funcionar.

Depois de uma montanha russa bem interessante, ele conseguiria tirar seu capacete, provavelmente removeria o resto do traje, mas teria um último problema: As portas do compartimento de carga são pesadas demais pros motores as abrirem em terra. Ele ficaria preso por algumas horas enquanto os engenheiros decidem a melhor forma de tirar o cara de lá.

Felizmente isso nunca foi necessário, e nenhum astronauta teve que se sentir rejeitado a esse ponto.

 

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