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Moscou, nós temos um problema: nave falha durante lançamento levando dois tripulantes

Hoje um foguete levando dois tripulantes para a Estação Espacial Internacional apresentou uma anomalia e a missão foi abortada aos 2 min de vôo. Clique e descubra tudo que aconteceu!

11/10/2018 às 17:19

Essa é top 10 na lista de coisas que não acontecem todo dia. As Soyuz são o carro-de-boi chefe das missões tripuladas, atualmente. Em verdade são a ÚNICA nave que temos para mandar gente pro espaço, se descontar o foguete brasileiro. As próprias naves chinesas são basicamente um kibe da Soyuz. Por sorte (ok, design parrudo) elas são bem confiáveis, e o acidente de hoje é um tributo a essa robustez.

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Espaço nunca é rotina: espaço é complicado, difícil e tudo conspira pra te matar o tempo todo. As redundâncias não funcionam quando você tem motores bombeando combustível e oxidante a uma pressão de 54 atmosferas.

Isso ficou claro hoje, quando a Soyuz MS-10 decolou de Baykonur, no Cazaquistão levando o cosmonauta Aleksey Ovchinin e o astronauta americano Nick Hague. O lançamento foi nominal (nominal é bom) e tudo estava dentro dos parâmetros até aproximadamente dois minutos de vôo, quando os foguetes auxiliares foram ejetados.

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Aparentemente uma falha no sistema pirotécnico de separação fez com que um dos quatro foguetes auxiliares acertassem o primeiro ou o segundo estágio do foguete principal.

O termo “auxiliares” é até meio injusto. Cada um dos quatro é um foguete completo.

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Com 19 m de altura e massa de 178 toneladas, cada um dos foguetes gera 3.347 quilonewtons de empuxo. Só para fins de comparação, aquela piada que o Brasil chama de foguete, o VLS, tem 19,7 m de altura, 50 toneladas e precisa de quatro propulsores pra gerar 1.200 kN de empuxo.

Eles são separados por cargas pirotécnicas quando esgotam seu combustível, e não, ninguém acha que é uma boa idéia explodir basicamente uma bomba do lado de um foguete repleto de combustível, mas é o que temos.

Dessa vez não deu certo, e é ruim pra saúde quando coisas não dão certo a 1,8 km/s.

Não que tenha sido a primeira vez, mas o último acidente com uma Soyuz foi em 1983, 35 anos atrás. Foi um dos três únicos acidentes em decolagem envolvendo Soyuz tripuladas.

No dia 26 de setembro de 1983, durante o abastecimento final da Soyuz T-10a, uma bomba foi acionada por causa de uma válvula defeituosa e, como não havia combustível nela, superaqueceu pegando fogo. Faltavam 90 segundos pro lançamento. Os técnicos tentaram comandar o sistema de escape, mas o fogo havia derretido os cabos.

Graças à clássica burocracia soviética os cosmonautas não tinham como comandar de dentro da nave o sistema de escape, deve ter a ver com o discurso de que soviéticos não se acovardam. O controle backup era por rádio, mas precisava de dois operadores enviando o sinal em um espaço de 5 segundos. Até se coordenaram e acionar o sistema, o fogo continuou sem controle e o sistema de escape foi hollywoodianamente acionado 2 segundos antes da explosão:


Bruno Leal — Soyuz Launch Escape Tower System

Eles foram salvos graças a um sistema aprovado por Sergei Korolev em pessoa, projetado para não haver zonas negras durante o vôo, em qualquer momento os cosmonautas terão pelo menos uma chance de escapar. No caso a chance foi cortesia deste brinquedo aqui, a chamada Torre de Escape:

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Assim que acionada a nave é separada do segundo estágio, as aletas estabilizadoras são baixadas e os motores a foguete da torre são ligados, acelerando a nave a mais de 15 G, para longe do resto do foguete.

Os tripulantes do acidente de ontem não tiveram tanta sorte.

A torre já havia sido ejetada, era o pior momento possível pra algo de ruim acontecer. Só que os russos tinham um Plano B. Os russos nem vão ao banheiro sem um plano e, quando os sensores ficaram doidos com os dados confusos do estágio danificado, o sistema de escape automático foi acionado e a sofisticada rotina abaixo foi executada:

 

if  (!TorreDeEscapePresente) {

    DaTeuJeito();

}

A alternativa era (provavelmente) usar os motores de pouso para separar a cápsula do resto do foguete. Os astronautas foram expostas a acelerações entre 14 e 17 G, mas eles são astronautas, treinam pra isso e mantiveram a calma. Aqui o vídeo do evento:


Moment Soyuz MS-10 rocket carrying crew to ISS malfunctions during launch

Depois que a cápsula foi ejetada pra longe, os tripulantes acionaram o sistema de reentrada balístico, um modo de vôo onde a cápsula não tenta alterar a trajetória, ela apenas mantém a atitude enquanto voa, digo, cai com estilo usando apenas a gravidade.

Essa opção foi acionada através do controle remoto da Soyuz, essa peça de altíssima tecnologia aqui:

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A nave executou o pouso de emergência perfeitamente, tocando o solo perto de Dzhezkazgan, no Cazaquistão, o mesmo lugar onde as Soyuz pousam normalmente quando retornam do espaço. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, e os tripulantes foram resgatados e apesar do susto e dos Gs, não perderam o apetite.

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Os lançamentos tripulados foram suspensos e a Rússia abriu uma investigação criminal para descobrir as causas do acidente. As consequências são as piores possíveis. No momento temos três pessoas na Estação Espacial Internacional, o russo Sergey Prokopyev, o alemão Alexander Gerst e a americana Serena Auñón-Chancellor. Gerst inclusive fotografou do espaço o lançamento fracassado:

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Eles estavam agendados pra voltar pra Terra dia 13 de dezembro, com uma nova tripulação sendo lançada dia 20 do mesmo mês, nesse meio-tempo a ISS ficaria com apenas dois tripulantes, mas agora ninguém sabe.

Duas caminhadas espaciais planejadas já foram canceladas, a volta dos tripulantes não pode ser adiada muito tempo pois as Soyuz em órbita têm vida útil limitada. A rigor não há chance de ser um problema de projeto: o lançamento de ontem foi o 139º de uma Soyuz, o outro acidente em vôo foi em 1975, causado por três travas que não se separaram e o terceiro estágio foi acionado ainda preso ao anterior.

SE for um problema de fabricação, aí a coisa é realmente séria: não se acha na esquina firma pra construir foguetes auxiliares. A única opção para mandar astronautas pro espaço no momento são os chineses.

A NASA por sua vez está de mãos atadas. O primeiro vôo tripulado de testes da Dragon v2 da SpaceX foi adiado pra junho de 2019. O da Boeing, só em agosto. Caso a Soyuz não esteja liberada até dezembro de 2018, talvez seja necessário abandonar a Estação. A NASA diz que ela está pronta para isso, que a ISS pode ser operada remotamente por um longo período de tempo, mas isso não é, nem de longe, o ideal.

Disso tudo o que ninguém está aventando, e que ninguém em Washington tenha idéias, é apressar os lançamentos da SpaceX e da Boeing. Aí sim teremos potencial pra um desastre real. Mas não conte com isso. Russos sendo russos, vão dar de ombros, pegar a vassoura, varrer os cacos e reconstruir tudo, melhor e mais forte do que antes.

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