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O difícil momento em que temos que dizer não a robôs sexuais

Robôs sexuais estão na moda, aí todo motivo é motivo para escrever sobre eles, mas no caso nós nos recusamos. Leia e entenda nossa motivação, e quais os limites usados para determinar a legitimidade de uma pauta.

31/08/2019 às 21:08

Spoiler: este texto não tem nada a ver com robôs sexuais.

Alguns leitores reclamam que o Meio Bit não cobre alguns assuntos, ignorando o que todo mundo está falando. Primeiro, isso não tem nada a ver com orientação editorial, sempre gozamos (epa!) de total liberdade, respeitando os preceitos de Ben Parker, claro. O principal motivo de não falarmos sobre temas muito populares é quando não há nada a acrescentar sobre eles. O outro motivo pelo qual evito cobrir um tema é ele ser uma polêmica artificial, criada apenas para ganhar cliques.

Não que haja algo errado nisso, eu adoro cliques e mesmo polêmicas artificiais podem render discussões legais, mais de uma vez peguei alguma besteira e enchi de informações interessantes. O que não é o caso do caso presente.

O caso começou com esta matéria do Daily Star, que alerta contra o perigo dos robôs sexuais, que por erros de programação podem se tornar perigosos, e até... MATAR!

É um tema suculento? Com certeza, renderia um artigo enorme, cheio de frases de duplo-sentido, especulação desenfreada e chegou até a ser pautado, mas assim que comecei a pesquisar, um monte de sinais vermelhos apareceram.

A fonte da matéria, a autoridade consultada é um sujeito chamado... Brick Dollbanger. Vendo a foto da figura, se parece exatamente com alguém que faz sexo com bonecas de plástico e anuncia isso para o mundo:

O sujeito faz todo um alerta dizendo que a inteligência artificial pode ser perigosa, pois as sexbots que logo chegarão ao mercado terão esqueletos e músculos muito mais fortes que um humano normal, fontes de energia que durarão por longo tempo e que "basta uma linha de código" para que uma dócil e carinhosa roboa se torne uma assassina.

Primeiro de tudo, não é assim que software funciona, como disse um comentarista, não existe um comando `freeWill = true` para transformar sua roboa na Glenn Close. A matéria não consulta nenhum especialista, nenhum roboticista (thanks, Asimov), ninguém. Se resume a um leigo cuja única expertise na área é pincelar um pedaço de silicone com seu patético bigorrilho.

Isso não impediu um monte de sites de replicar a história, atrás de um click barato ou uma cota de palavras por dia. O jornalismo online mais uma vez troca a qualidade e o discernimento. Levam a sério o ditado cínico de que jornalismo seria separar o joio do trigo - e imprimir o joio.

Não sou cínico de dizer que a gente nunca vai surfar numa polêmica, com toda certeza, se der pra extrair conteúdo legal de alguma bobagem, com certeza. O que você nunca vai ver aqui, ao menos assinado por mim (pode ser que eu use a conta do Ronaldo, de zoeira) é alguma história fundamentalmente errada, sem embasamento sendo replicada.

Nem toda história tem dois lados, nem toda história tem mérito e às vezes um "especialista" é só um idiota querendo aparecer, e é obrigação de quem gera conteúdo identificar a validade das histórias e dos autores, ao invés de sair replicando qualquer bobagem e se escondendo atrás da frase "minha função é informar, não opinar".

Informar é importante, é tão importante que devemos antes de tudo examinar a informação e determinar se ela merece ser compartilhada, ou se é uma bobagem que só vai desperdiçar o tempo do leitor. E se preocupar com o tempo de quem prestigia o site não é opinião. É respeito. Cardoso out.

 

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