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Dambusters e a bomba que quica da Segunda Guerra Mundial

Porque um dos ataques mais curiosos contra a Alemanda, na Segunda Guerra Mundial, custou para acontecer

20 semanas atrás

Muitas operações de guerra funcionam muito bem na teoria, mas a estratégia (do grego Strategos...) tem que se submeter à realidade. Ataques decisivos, às vezes, não são possíveis por falta de tecnologia para tanto. Por isso, um dos ataques estratégicos contra a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial, demorou tanto para acontecer.

Não era segredo nenhum que nazistas precisavam de eletricidade. A mais fascista das fábricas não é nada sem um bom suprimento de KVAs. A região do Vale do Ruhr era excelente para a construção de hidroelétricas, tanto que se tornou a principal região industrial da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, com centenas de fábricas, minas, linhas férreas, etc.

Os nazistas podiam ser tudo, menos burros, e protegiam a região muito bem. As fábricas eram bem espalhadas, havia artilharia antiaérea a rodo e um ataque conseguiria poucos resultados a um custo em vidas aliadas muito alto. Por causa disso, o Vale do Ruhr sempre ficou de fora dos planos, até um sujeito chamado Barnes Wallis, que na vida civil trabalhava na fábrica de aviões Vickers, teve uma ideia que não deu certo.

Sir Barnes Neville Wallis

Ele criou o conceito de "bomba-terremoto", calculando que uma bomba poderosa o suficiente, lançada de grande altitude poderia penetrar (ui!) o solo por vários metros, detonar e criar uma onda de pressão suficiente para destruir estruturas próximas, como represas.

Excelente, mas alguns problemas. Primeiro, a bomba não existia. Aviões capazes de levá-la, também não. E a precisão para acertar o ponto exato próximo da represa era coisa de ficção científica. Na década de 1940, bombardeiros de grande altitude tinham sorte se acertavam o país certo, o carpet bombing foi criado essencialmente para resolver a deficiência da mira, como as chances de um único avião acertar um prédio específicos. A solução era mandar 500 aviões e esperar que por pura estatística algum acertasse o alvo.

Um belo dia, Barnes Wallis estava na beira de um laguinho, jogando pedras na água, quando uma daquelas maravilhosas e incompreensíveis associações mentais aconteceu: ele percebeu que conseguia fazer pedras chatas quicarem na água com razoável precisão.

Não assim.

Se as bombas fossem lançadas de forma precisa, isso resolveria um monte de problemas de uma vez, pois os alemães (eu falei que eles não eram burros?) haviam protegido as represas, com redes anti-torpedos, para evitar justamente que alguém voasse baixo e torpedeasse a represa.

Lançar as bombas de avião pura e simples também não adiantaria, se a bomba explodisse na parede, bem, é uma estrutura de milhões de quilos de concreto armado, só iria sujar de fuligem. Idealmente, para explodir a represa, a bomba deveria estar próxima da parede, mas não muito. E deveria explodir dentro d'água, para criar uma onda de pressão atingindo a represa por inteiro.

A ideia da bomba foi vendida para o Almirantado britânico, que achou que seria uma ótima solução contra navios (não era) e Wallis começou a trabalhar. Havia uma série de problemas a resolver, cada um foi resolvido (spoilers) com uma solução genial. Vamos a eles:

1 - A Bomba

Depois de muito bater cabeça, ele e seus engenheiros construíram uma bomba esférica com depressões semelhantes às de uma bola de golfe. Depois de vários testes concluíram que era uma péssima ideia, pois a bomba quicava para todas as direções; era incontrolável. Tudo foi jogado fora e voltaram para as pranchetas.

A pedra mantinha sua estabilidade por causa da velocidade inicial. O avião não teria como acelerar proporcionalmente para dar a mesma velocidade linear na bomba, mas Wallis teve uma ideia. Ele achou uma forma de usar a conservação de momento para manter a bomba na trajetória correta. Como? Fácil, fazendo a bichinha girar.

É o mesmo princípio da Física (viram, crianças? Querem ganhar guerras, aprendam Ciências) que torna foguetes pequenos estáveis. Também faz com que você não caia da bicicleta e torna bailarinas mais rápidas. A bomba, para ser estável, teria que girar e girar muito rápido. 500RPM para ser exato. E não poderia mais ser uma esfera. O melhor formato era um cilindro. Com 4.5 toneladas, 152cm de comprimento, 127cm de comprimento.

A bomba era ligada a um motor, que girava a bomba. Quando ela era lançada caía na água, quicava por cima das redes de submarinos, chegava quase na parede da represa e afundava. Aí, outra surpresa: a bomba era, na verdade, uma carga de profundidade, programada para afundar 10 metros antes de detonar.

A bomba quicadora era um segredo tecnológico tão estratégico que quando fizeram um filme sobre a história, em 1955, as cenas mostrando a bomba foram censuradas.

O grande público só descobriu a verdadeira forma e funcionamento da bomba quando o segredo de guerra foi cancelado, em 1973.

2 - A Distância

Se você lançasse a bomba cedo demais ela iria quicar e afundar longe da parede da represa. Se lançasse muito perto, ela quicaria por cima da borda e explodiria do outro lado, sem destruir nada além de alguns salmões. Como medir exatamente a distância?

Lasers estavam fora de questão, os cientistas explicaram, para irritação dos oficiais, que o laser só seria inventado em 1960. Não havia nenhuma marcação geográfica para servir de guia, eles estariam voando sobre a água. A solução acabou vindo com ajuda dos nazistas e da boa e velha geometria.

A ajuda dos nazistas? A represa Mohne era (ok, ainda é) assim:

A distância entre as duas torres era conhecida. Usando geometria de colégio era trivial calcular a ponta de um triângulo usando as torres como base, que ficasse a precisamente 388.62 metros de distância, o ponto ideal de lançamento. Agora, a parte divertida: como identificar esse ponto?

O piloto deveria voar entre as duas torres, até aí tudo bem. O artilheiro então usaria um instrumento projetado exatamente para aquela situação, uma mira com dois pinos que deveriam ser alinhados com as torres. Quando os dois estivessem alinhados, era hora de soltar a bomba.

3 - A Altitude

A bomba deveria ser lançada a precisos 354Km/h, o que estava bem dentro das capacidades dos Lancasters, mas a altitude era igualmente importante: 18.28 metros, o que era muito, muito baixo.  354Km/h equivale a 98 metros por segundo, ou seja: você percorre esses 18.28 metros de distância vertical em 0.18s.

Também havia o problema dos altímetros da época, não eram precisos o suficiente para garantir esses exatos 18.28 metros. Radar ainda estava em sua infância, mas de novo a boa e velha geometria salvou o dia. Veja esta imagem:

Está vendo aquelas duas luzes saindo do avião? Não, não são lasers, são licença poética de algo bem mais prosaico: holofotes.

Foram montadas duas luzes: uma projetando um holofote diretamente para baixo, na frente dos aviões, e outra alguns metros atrás, inclinada 7.5 graus. As duas luzes tinham inclinação lateral de 30 e 40 graus respectivamente.

Quando o avião estava a exatamente 18.28 metros de altitude, os dois holofotes formavam dois círculos no solo (ou na água) que se tocavam levemente. Mais alto ou mais baixo e os círculos ficariam separados ou sobrepostos.

O co-piloto podia observar os círculos de sua janela e controlar a altitude, enquanto o piloto controlava a direção do voo.

4 - O Ataque

Como você já deve ter percebido, desgraça pouca é bobagem e a missão aconteceria de noite. A mais de 300Km da costa da Holanda, com os aviões voando baixo, muito baixo o tempo todo para não alertar as defesas alemães. Quão baixo? Digamos que um dos aviões atravessando o Mar do Norte teve a bomba arrancada por uma onda, a cabine foi engolfada por outra e graças a muita, muita sorte e habilidades jedi do piloto conseguiram voltar para casa. Outros não tiveram tanta sorte.

Alguns foram derrubados por defesa antiaérea alemã ainda na Holanda. Um Lancaster atingiu linhas elétricas, outros foram atingidos durante e depois dos ataques, e um deles lançou sua bomba, mas na curva para fugir passou por cima do local da explosão no momento errado e uma asa foi desintegrada.

No final de 19 Lancasters, oito foram destruídos, 53 tripulantes mortos, 3 feitos prisioneiros. O custo foi brutal por todos os parâmetros possíveis.

Foram atacadas as represas Möhne, Eder, Sorpe e Ennepe, com variados graus de sucesso. Algumas estavam fortemente defendidas, em um dos casos um avião teve que tentar 6 vezes a passagem até ficar em condições ideais de lançar as bombas.

Em uma das represas o ataque foi paralelo, com as bombas sem girar, e se isso tudo está te lembrando Guerra nas Estrelas, é isso mesmo. O ataque, em sua versão cinematográfica de 1955 foi uma das fontes de onde George Lucas bebeu para criar seu clássico:

5 - O Resultado

Duas represas foram destruídas, uma outra danificada. O plano que era apenas um memorando em 1940 havia funcionado e, entre 16 e 17 de Maio de 1943, o fértil e agitado vale do Ruhr havia sido totalmente inundado, um tsunami de 10 metros varreu do mapa 11 fábricas, danificou 114 outras, destruiu 25 estradas, ferrovias, pontes e tudo mais num raio de 50Km.

Minas foram inundadas, a eletricidade parou de ser gerada. A produção de carvão da Alemanha - na época da Segunda Guerra Mundial - caiu 400 mil toneladas por causa dos ataques. 1600 pessoas morreram, muitas delas trabalhadoras forçadas soviéticas.

Alguns dizem que o ataque não surtiu o efeito esperado, que algumas semanas ou no máximo meses depois a Alemanha havia recuperado o estrago, mas ele colocou em alerta toda a estrutura de defesa nazista.

Aviões e soldados foram trazidos de outras frentes de batalha para proteger represas em todo o país. Internamente, a população já não se sentia protegida, sabendo que o inimigo podia causar danos naquela escala.

Principalmente foi um ataque que fez maravilhas para a moral inglesa.

Hoje, um ataque desse seria impensável, as baixas seriam inaceitáveis, bem como as perdas civis do inimigo. Para os padrões modernos, matar 1600 civis de uma vez é caminho certo para um impeachment em qualquer país minimamente civilizado e, de qualquer jeito, a Convenção de Genebra proíbe ataques a represas e similares.

A Operação Chastise, o codinome do ataque, foi uma ação desesperada de tempos desesperados durante a Segunda Guerra Mundial, um brilhante exemplo de como ciência, inteligência e determinação conseguem o impossível. Recriando, mais uma vez, a máxima de que a melhor forma de prever o futuro é o inventando, e nenhum inimigo está preparado para enfrentar ameaças que ainda não existem.

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