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Days Gone — Review

Apesar de não conseguir suprir as expectativas, Days Gone é um bom exclusivo para o PlayStation 4 e que poderá entreter por muitas horas.

14/05/2019 às 10:56

Você já parou pra pensar no motivo para os jogos de zumbis serem tão populares? A minha teoria é que ao nos colocar no meio de um apocalipse causado por mortos-vivos, o jogador (consciente ou inconscientemente) se sente mais a vontade ao aniquilar outros seres humanos, afinal o inimigo não passa de meros alvos avançando em sua direção como um bando de animais irracionais famintos.

Mas seja qual for a explicação, o fato é que existe algo fascinante por trás de títulos assim e por mais que a história de sobrevivência em um mundo em ruínas já tenha sido contada inúmeras vezes e diversos jogos já tenham nos colocado para encarar enormes grupos de mortos-vivos, a Bend Studio optou por tentar fazer isso mais uma vez com o seu Days Gone.

It's the end of the world as we know it

O mundo como conhecíamos acabou. A sociedade entrou em colapso quando um vírus transformou as pessoas em seres extremamente violentos e cujo objetivo passou a ser apenas se alimentar — de outras pessoas. Com isso vimos o fim da polícia, o dinheiro perdeu o sentido de existir e aqueles que não foram infectados se dividiram em dois grupos: os que fariam de tudo para durar mais um dia e aqueles que se beneficiaram do desespero alheio.

Encarar um mundo como este obviamente não é tarefa para qualquer um e no caso de Deacon St. John, não demorou muito para ele entender a situação. No dia em que tudo desmoronou, o ex-soldado e então membro de um grupo de motocicletas estava tentando fugir com seu amigo Boozer e sua esposa Sarah, quando esta foi esfaqueada. Seria preciso arrumar uma maneira de tirá-la das ruas e quando ele finalmente encontra uma equipe de evacuação, se vê no meio de um enorme dilema: seguir com a amada para um acampamento ou ficar e ajudar o seu parceiro de longa data?

Assim como vemos em muitas outras obras do gênero, Days Gone está a todo momento tentando nos mostrar o quão caótica seria a vida de uma pessoa num mundo como este. Além dos infectados, que aqui não são tratados como mortos-vivos, mas como Frenéticos, quase todo mundo que encontrarmos pelo caminho tentará nos matar e por mais que isso faça sentido, afinal numa terra sem sem leis cada um agirá da maneira que achar correta, não há como não ficar com a sensação de que já vimos isso muitas vezes anteriormente.

Some a isso uma força misteriosa do governo que está pesquisando o lugar; a promessa da existência de um paraíso que não foi atingido pelo vírus; chefes de grupos de resistência que se consideram semi-deuses; toda uma rede de teorias da conspiração que estaria por trás da epidemia; uma coleção de missões paralelas pouco interessantes; e pronto, temos em Days Gone uma enorme sopa de clichés.

With the furies breathing down your neck

Mas se o jogo não convence por nos contar sua história em doses homeopáticas, ele brilha ao nos apresentar às hordas de Frenéticos. Quer dizer, ao menos em parte. Com os grupos de inimigos podendo contar com dezenas, centenas de indivíduos, a primeira vez que nos deparamos com esse mar de inftados é uma experiência e tanto.

Por se tratar de um título onde as munições são extremamente escassas e enfrentar quatro ou cinco Frenéticos ao mesmo tempo é quase assinar o seu próprio atestado de óbito, não há ameaça maior do que se ver diante de uma horda, sendo justamente nestes momentos em que o Day Gone se destaca.

Ver aquele gigantesco grupo de humanos se movendo como se fosse um enxame consciente é algo muito legal e ao mesmo tempo assustador. Porém, após alguns desses encontros começamos a perceber que basicamente existem dois caminhos para nos livrarmos deles: evitar o confronto fugindo, o que com a moto será bem fácil, ou então nos vermos encurralados e simplesmente esperar a morte.

Para ilustrar essa situação, posso contar algo que aconteceu comigo. Em determinado momento fui incumbido de invadir um acampamento de um grupo que aterrorizava a região. Ao chegar lá fiz a verificação de costume, marcando com o meu binóculo todos que habitavam o local. Sorrateiramente fui invadindo a base que ficava no alto de um morro, matando silenciosamente todos que encontrava pelo caminho.

Tudo correu bem até faltar quatro ou cinco inimigos, quando um deles me viu e começou a disparar. Com todos alertados, passei a usar minha melhor (e barulhenta) arma, quando de repente ouvi os gritos de Frenéticos. Ao olhar para trás, na base do morro (e única entrada para o acampamento) havia uma horda enfurecida correndo na minha direção e sem poder voltar por onde entrei, fiz a única coisa possível: ignorei os humanos armados que moravam ali e corri para o topo do lugar.

Com os infectados e a gangue se enfrentando, eu sabia que não havia chance para aqueles que estavam em muito menor quantidade e só me preocupei em não morrer enquanto eles fossem aniquilados. Logo surgiu na tela a informação de que o acampamento havia sido tomado e sem ter como enfrentar alguma dezenas de Frenéticos, só pude esperar a minha morte.

O “problema” é que depois de renascer apareci no mesmo lugar, com os infectados tendo desaparecido e a tomada tendo sido concluída. Ou seja, aquilo que era para ter sido algo assustador, que poderia me levar a bolar estratégias e procurar uma solução acabou servindo a meu favor, numa demonstração que as hordas acabam sendo subutilizadas na campanha.

Dummy serve your own needs

Os humanos não-infectados também são motivos tanto de elogios quanto de críticas. Ao mesmo tempo em que eles são capazes de criar armadilhas e nos servir como grande ameaça, muitas vezes são extremamente burros e permissivos. Assim como acontece em muitos jogos com elementos stealth, em Day Gones é relativamente fácil enganar a inteligência artificial dos inimigos, que parecem sofrer constantemente de amnésia e problemas de visão.

Muitas vezes estaremos a poucos metros de alguém e a pessoa simplesmente nos ignorará, ou em outras elas deixarão de nos seguir simplesmente por temos entrado num latão de lixo ou dobrado numa esquina. Eu entendo que isso acontece para tornar a experiência mais divertida, mas ainda assim é algo estranho e pouco imersivo.

Porém, o que realmente me irritou em relação aos humanos são os agentes do governo, cujos trajes anti-contaminação ridiculamente os tornam invencíveis. A desenvolvedora claramente incluiu essa limitação para manter a narrativa e nos obrigar a passar por certos trechos sem sermos detectados, mas ao fazer isso ela gerou alguns furos de roteiro e tornou a experiência muito menos realista.

Slash and burn, return

E por falar em realismo ou imersão, o Day Gone é mais um título a se valer do gerenciamento de recursos para entregar alguma variedade. Enquanto exploramos o Oregon teremos que coletar os mais variados tipos de materiais, indo desde gravetos para fabricarmos flechas até sucata e gasolina.

A gasolina por sinal é um dos recursos mais controversos, já que precisamos dela para manter nossa motocicleta funcionando. Alguns acharão muito chato ter que ficar buscando postos ou galões para ir de um lugar ao outro, já eu gostei da ideia e achei que ela traz alguma estratégia e tensão à aventura. Com o tempo até passamos a traçar nossos caminhos tendo os postos de combustíveis como foco e gostei quando em determinado momento fiquei no meio da estrada por o tanque ter secado.

Encontrar munição também será uma tarefa difícil, o que nos fará pensar muito antes de descarregar o pente em um grupo de Frenéticos. Tudo isso acaba fazendo com que o Days Gone flerte com a simulação, imersão esta que para uns será vista como uma qualidade, enquanto outros encararão como uma grande chatice.

Mesmo realizar uma viagem rápida para algum ponto o mapa exigirá que tenhamos combustível suficiente e se no meio do caminho houver ninhos de Frenéticos, você precisará queimá-los antes de "saltar" para o destino.

A tournament of lies

A parte técnica do Days Gone é outra em que podemos comemorar, mas também lamentar. Por um lado temos um jogo lindo, com efeitos de sombra e iluminação de ponta, além de cenários cheios de detalhes e uma boa variação. Por se passar numa zona rural, não espere encontrar grandes cidades, mas os povoados contam com construções bonitas e com seus interiores muito bem construídos.

A equipe responsável pelas animações também fez um bom trabalho, com os personagens sendo bem realistas e demonstrando emoções durante as conversas. Mesmo os Frenéticos possuem uma boa variedade visual, a lamentar apenas a pequena quantidade de infectados especiais.

Porém, tudo isso cobra um preço e ele terá que ser pago com notáveis quedas na taxa de atualização de frames. O bom é que só vi isso acontecer mais drasticamente enquanto pilotava a minha moto, quando em algumas vezes o jogo parecia estar funcionando em câmera lenta. Talvez isso não aconteça tanto num PlayStation 4 Pro, mas no normal é frequente e bastante irritante.

Speed it up a notch, speed, grunt, no strength

Contudo, de todos os problemas que o Days Gone possui, aquele que mais incomoda é o ritmo com que as coisas acontecem. Além das distâncias entre um lugar outro serem bem grandes, com as viagens costumando demorar bastante, a própria história se desenrola num velocidade muito baixa, falhando em nos deixar interessados no que aconteceu no passado e que acontecerá no futuro dos personagens.

Com as ações e missões que realizamos tendo pouca variedade, o jogo acaba se tornando muito repetitivo e não seria exagero afirmar que a sua campanha se estende demasiadamente. Realizar tarefas para os acampamentos, o que nos dará direito a desbloquear atualizações para as armas e para a moto, nunca parece ser recompensador o suficiente e o que deveria funcionar como uma forma de incentivo na verdade se mostra um pedágio alto demais a ser pago.

Ao menos os criadores tentaram fazer com que continuássemos avançando na história, com uma corda invisível sempre nos puxando de volta para as missões principais. Esse é um problema comum a jogos de mundo aberto, mas é interessante notar que ao mesmo tempo em que a Bend consegue ser bem sucedida neste sentido, faz com que a liberdade de realizarmos o que quisermos seja levemente sacrificada.

(And I Feel Fine)

Ainda assim, mesmo com todas as suas falhas estruturais e falta de ousadia, o Days Gone foi capaz de me prender. Com seus conflitos internos Deacon St. John consegue ser um personagem interessante e o mundo em que ele vive possui algumas histórias bacanas para serem descobertas.

Talvez o problema com o jogo esteja na expectativa muito grande que se formou em em relação a ele quando foi anunciado.  Talvez ele sofra por alguns dos títulos mais recentes exclusivos do PlayStation 4 — Marvel's Spider-Man, Gof of War e Horizon Zero Dawn — terem elevado muito o sarrafo, mas a verdade é que a criação da Bend Studio provavelmente lhe deixará com uma sensação de que ela poderia ter sido melhor.

Pode ser que o Days Gone sirva como base para uma continuação, com algumas das suas boas ideias sendo aproveitadas e aperfeiçoadas. Até lá, dar uma chance à história de Deacon poderá lhe render alguns momentos bem interessantes, só não espere algo revolucionário, nem que poderá ser concluído num final de semana.

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