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[clickbait] Pokemon está causando alterações no cérebro das crianças!

13/05/2019 às 16:50

A princípio esse tipo de pesquisa parece digna de ganhar um Prêmio IgNobel ou de justificar cortes de verba do Ornitomito, mas há ciência aqui, ciência de verdade, e também há Pokemon, que ajudou muito na pesquisa.

Hoje há muita coisa legal sendo feita na área de Big Data, quando você tem toneladas de informações e capacidade de interpolar dados, mesclar e interpretar essa massa monstruosa, consegue descobrir coisas interessantes. Analisando redes sociais é possível determinar o começo de epidemias de gripe, insatisfação política e muito mais.

Sem falar dos gênios que determinam que você comprou uma geladeira aí passam a semana seguinte te soterrando de anúncios de geladeira.

Estatísticas são importantes também na área de saúde, graças a elas Florence Nightingale descobriu que os soldados estavam morrendo na Guerra da Crimeia muito mais nos hospitais, por falta de higiene, do que no campo de batalha.

Ter uma grande massa de dados é essencial, mas às vezes é complicado. Quando testes genéticos custavam dezenas de milhares de dólares era impossível ter uma grande coleção de espécimes, em outros casos os dados não existiam pois a tecnologia para criá-los não existia também, é o caso da Ressonância Magnética Funcional, que mede a taxa metabólica de regiões específicas do cérebro:

A técnica se baseia em uma descoberta: A molécula de Hemoglobina quando carrega um átomo de Oxigênio apresenta propriedades magnéticas diferentes de quando está de mãos vazias. Calibrando corretamente o aparelho de ressonância, é possível detectar essas variações, e identificar quais partes do cérebro estão recebendo o fluxo de sangue (e portanto Oxigênio e nutrientes) acima do normal.

Se você imaginar como uma versão biológica da câmera térmica que identifica áreas mais quentes e portanto mais ativas, mas ao invés de calor, é consumo de Oxigênio.

A resolução espacial da Ressonância Magnética Funcional fMRI não é grande, mas ela compensa isso com resolução temporal, permitindo fazer imagens em movimento. Assim dá pra identificar áreas do cérebro ativadas em determinadas atividades, há inclusive um famoso estudo onde uma voluntária teve um orgasmo dentro de uma máquina de fMRI, e seu cérebro acendeu feito uma árvore de natal.

Ou seja, com alguns poucos milhões de dólares de equipamento e uns 10 ou 15 anos de treinamento você finalmente vai poder comprovar se sua namorada está fingindo ou não. (spoiler: está)

E o Pokemon?

Calma que estou quase lá, como disse a moça do experimento acima.

Uma das características do cérebro é sua plasticidade, ele se molda fisicamente a novas experiências e aprendizados. Áreas específicas se desenvolvem mais ou menos de acordo com sua experiência, e quanto mais novo o cérebro, melhor ele se molda, por isso é muito mais fácil aprender coisas novas quando somos crianças.

Um grupo de cientistas de Stanford e Berkeley teve a idéia de estudar a formação de novas áreas cerebrais no caso de alguma atividade aprendida na infância, mas teria que ser algo muito utilizado, mas específico o bastante para que um grupo de controle, de gente que não exerceu a tal atividade pudesse ser encontrado.

Reza a lenda que tentaram fazer um estudo desses comparando cérebro de gente que consumia safadeza online e quem não consumia mas não conseguiram achar estudantes que se encaixassem no segundo caso.

Vários estudos já acharam áreas específicas até para conceitos abstratos. Uma paciente ficou famosa por ter um Neurônio da Jennifer Aniston.

Imagem gratuita da Jennifer Aniston

Apresentada a 80 fotos de objetos, animais e celebridades, o ponto específico no cérebro se iluminou somente nas 7 fotos que eram da Jennifer Aniston. Outra paciente tinha um neurônio da Halle Berry, que se acendia quando ela via fotos da atriz, mesmo quando eram fotos dela como Mulher-Gato. Ou seja: O Cérebro não estava fazendo uma simples comparação visual, ele estava reagindo ao conceito de Halle Berry.

A questão era entender melhor como essas regiões do cérebro existiam, comparadas a casos onde elas não se formavam.

No nosso estudo os cientistas tiveram uma brilhante idéia: Pokemon.

O joguinho, lançado originalmente no Gameboy tem ótimas características para o estudo; envolve reconhecimento facial, o jogador acaba decorando os 457823 pokemons e cada uma de suas 34822 digivoluções (ou algo assim nunca joguei esse troço) e tudo ocorre em uma área bem pequena de tela, no foco da visão.

O grupo de controle era formado por gente que nunca jogou Pokemon na vida, e no máximo conhecia de nome. Os dois grupos foram apresentados a diversas imagens, de Pokemons, rostos, casas, corredores, etc.

As imagens foram apresentadas numa frequência de duas por segundo, aleatoriamente, cartoons e animais foram selecionados para produzir estímulos teoricamente semelhantes aos pokemons.

O resultado foi o grupo que jogou pokemon a vida toda sendo muito melhor reconhecendo os pokemons, o que é até lógico, mas essa nem é a parte mais interessante:

Em ambos os grupos a maioria dos estímulos apareceu no fMRI nas regiões esperadas, mas no caso dos Pokemons, nos participantes experientes eles não ativaram áreas relacionadas com rostos ou animais, mas duas áreas específicas, o Gyrus Lateral Fusiforme e o sulco occipitotemporal, que não vou mostrar aqui afinal todo mundo sabe onde ficam.

Visualizar o Pokemon não causava qualquer efeito no grupo de controle, já nos experientes toda uma área específica para reconhecimento de Pokemons era ativada.

Esse tipo de estudo demonstra a importância de uma infância repleta de estímulos visuais, e de foco em aprendizado, pois o que você aprender nessa época vai te acompanhar por toda a vida, menos os afluentes da margem esquerda do Amazonas.

E, claro, isso não está restrito a Pokemon. Caçar, pescar, soltar pipa, identificar frutinhas venenosas, todas essas atividades aprendidas desde cedo são fisicamente gravadas no cérebro, por isso adultos barbados gostam tanto de jogar o tal Pokemon Go.

A pesquisa vai ajudar a identificar deficiências de aprendizado, aumentar o conhecimento sobre como o cérebro se adapta com novos conhecimentos e qual a eficiência do cérebro novo comparado com um mais usado, quando este aprende uma tarefa nova.

Principalmente, fica a resposta: Não, o videogame não estraga o cérebro de ninguém, ser bom em Pokemon não gera uma deficiência em outras áreas, no máximo em sua vida social, se você tiver mais de 30 anos.

Para saber mais: Link do Paper: Novel childhood experience suggests eccentricity drives
organization of human visual cortex

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