Home » Entretenimento » Resenha (sem spoilers): Dumbo, você já viu um elefante voar?

Resenha (sem spoilers): Dumbo, você já viu um elefante voar?

Confira na nossa resenha (sem spoilers) o que achamos de Dumbo de Tim Burton, a primeira das versões live-action da Disney que serão lançadas este ano

17 semanas atrás

Assisti Dumbo de Tim Burton na semana passada na cabine, e estava sob embargo até hoje de tarde. O filme funciona muito bem como a diversão que se propõe, e emociona em alguns momentos, talvez não tanto quanto o seu diretor queria, mas no final das contas, cumpre bem o seu papel e tem o potencial de apresentar a linda e triste história de Dumbo e sua mãe para as novas gerações, com alguns truques na manga, é claro.

Cena de Dumbo mostra o elefante em pleno voo

Eu já tinha escrito um post bem longo sobre Dumbo só falando do trailer, e essa resenha está gigante, então pra quem estiver com preguiça de ler, segue aqui o resumo da ópera: gostei muito de Dumbo, ainda acho que poderia ser melhor (e mais mágico), mas de forma geral, vale o ingresso e acaba sendo uma bela homenagem ao filme clássico que salvou a Disney da falência em 1941 depois do fracasso de Fantasia, além de um filme que se sustenta por seus próprios méritos.

O novo filme é uma adaptação live-action do clássico Dumbo, a quarta animação de longa metragem lançada pela Disney, mas ao contrário do que deve acontecer com as outras versões que chegam esse ano (O Rei Leão e Aladdin), aqui a mudança em relação ao filme original é bem grande, muito por conta da decisão dos animais não falarem, já que na animação eles são todos parte essencial da trama.

Seria impossível também adaptar o filme original de apenas 64 minutos (uma dos menores animações da Disney) em um longa de quase duas horas sem incluir toda uma nova camada de personagens para contar a triste história de separação entre Dumbo e sua mãe, a poderosa elefanta Jumbo. Para o filme isso é uma boa oportunidade, pois é melhor assistir a uma história nova do que simplesmente rever uma versão realista de um clássico que está disponível pra quem quiser voltar a assistir.

Cena de Dumbo

Durante o filme, várias boas piadas ajudam a quebrar o clima tenso e dramático da infância de Dumbo e a falta que ele sente de sua mãe. O visual do filme é excelente, como sempre um dos pontos fortes de Tim Burton, mas apesar do personagem principal ter um carisma incrível para algo criado em CGI com alguns animatrônicos, ainda fica faltando algo na condução de Dumbo.

Infelizmente, preciso dizer que os dias de magia do diretor parecem ter ficado no passado, e ele simplesmente não consegue contar a história de Dumbo da forma mágica como contou a de outros personagens que também são bem fora da curva, como o eterno Edward Mãos de Tesoura ou Beetlejuice de Os Fantasmas Se Divertem. Seu lado macabro, tão bem explorado nestes dois filmes, também não aparece na nova produção, mas isso é até compreensível, afinal o filme foi feito para toda a família.

De uma forma geral, o trabalho de Tim Burton no filme é todo correto, afinal Dumbo é um bom filme, mas pelo menos pra mim, fica faltando aquela fagulha criativa que é a marca da sua carreira. A carreira de Burton é formada de altos e baixos, felizmente mais do primeiro tipo, mas acredito que seu último grande filme tenha sido Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de 12 anos atrás. Já faz algum tempo que sinto que ele ligou um modo automático e está simplesmente indo em frente.

Seu outro trabalho famoso para a Disney, foi a versão live-action de Alice no País das Maravilhas, que não chega a encher os meus olhos, mas fez bastante sucesso nas bilheterias, faturando mais de um bilhão no mundo, e acabou se tornando o filme de maior sucesso de bilheteria do diretor depois de Batman de 1989, mas este com os valores ajustados pela inflação.

Burton acabou perdeu o posto de diretor na sua sequência, Alice Através do Espelho, mesmo sendo produtor do filme, mas a Disney deve ter se arrependido da decisão, já que a sequência não chegou nem perto do sucesso original, embora tenha se pago, não passou dos 299 milhões no mundo. Se ele conseguir repetir a dose do primeiro filme com o novo Dumbo, ou pelo menos chegar perto, o objetivo da Disney estará cumprido.

O filme é escrito por Ehren Kruger, que fez o roteiro de vários filmes dos Transformers, além da versão americana de O Chamado (e sua continuação), e pelo menos um grande filme, A Chave Mestra de 2005. Acredito que a culpa de Dumbo não alcançar voos mais altos seja tanto dele quanto de Tim Burton, afinal como roteirista, deve ter sido dele a decisão de colocar Dumbo voando com maestria desde praticamente o começo do filme, o que acaba diluindo em etapas a magia de ver o elefantinho voando, algo que na animação original só acontecia mais pro final do filme.

Na história imaginada pelo roteirista e levada para as telas pelo diretor, pro mal ou pro bem, todos os heróis e vilões da animação passaram a ser interpretados por humanos. Dumbo é um filme para toda a família, um filme perfeito para passar na sessão da tarde, e quem quiser se divertir não irá se arrepender.

Algumas sequências clássicas do filme original são citadas ou até mostradas, mas não exatamente da mesma forma, como a dos elefantes rosa, só pra citar uma que certamente era melhor (e mais divertida) na animação, e acaba deixando um gostinho de frustração na boca de quem adorava a loucura daquela cena.

Cena de Dumbo mostra o elefante com os personagens de Colin Farrell e seus filhos

A cegonha, o ratinho e os corvos só aparecem como pontas, não fazem mais parte do filme original. Muito do que seria o papel do ratinho foi dividido entre as crianças Milly e Joe Farrier, os irmãos interpretados por Nico Parker e por Finley Hobbins, ambos em seus primeiros trabalhos. Em seus melhores momentos, Dumbo consegue mostrar inocência e a esperança das crianças, e pelo menos neste quesito, o filme funciona muito bem.

Colin Farrell, está correto em seu papel de cowboy e veterano de guerra. Durante o filme, algumas frases são ditas para seu personagem, primeiro por Max Medici, dizendo que ele deve ouvir mais filhos, e depois por Colette Marchant, que diz que as crianças precisam que ele acredite nelas.

Se no filme original quem ensina Dumbo a voar são os corvos, aqui a tarefa cabe às crianças, especialmente Milly, que tenho um espírito inventivo que é a porta para que o filme faça uma homenagem às grandes mulheres cientistas da história, especialmente Marie Curie, a primeira mulher a ter recebido um prêmio Nobel (e depois a primeira pessoa a ter recebido dois). É algo bem sutil, mas se o filme servir como um incentivo para que mais meninas estudem na área, isso já terá sido uma grande coisa.

Sem contar com músicas para contar parte da história, como a animação original, o filme se vira com uma boa trilha sonora, e durante os créditos conta com a linda música Baby Mine, o clássico de Ned Washington e Frank Churchill que não poderia faltar, agora em versão repaginada pela dupla Arcade Fire, e não mais como a canção de ninar cantada por Jumbo para que seu filho não chore por conta das piadas que fazem com ele.

Cena de Dumbo com Michael Keaton e Danny DeVito

Os vilões e principais antagonistas estão ótimos no filme, e Michael Keaton está perfeito como o poderoso V.A. Vandevere, dono do circo Dreamland, que é praticamente um parque de diversões, e que também pode ser considerado um personagem do filme. O vilão propriamente dito é Neils Skellig, o capanga de Vandevere, vivido por Joseph Gatt. Alan Arkin faz uma ótima ponta como o banqueiro J. Griffin Remington.

Cena de Dumbo mostra o elefante e a personagem de Eva Green

Eva Green, faz Colette Marchant, que primeiro aparece como coadjuvante de Vandevere, mas aos poucos vai ganhando mais espaço na tela. A atriz faz bem o sotaque francês, e encanta em alguns momentos, na medida em que vai se mostrando cada vez mais simpática enquanto o filme avança. O dono do circo, Max Medici, interpretado com perfeição por Danny DeVito, serve como alívio cômico em sua relação com seu macaquinho, e mostra que por trás de toda a bravata, existe um grande coração.

Apesar de não aparecerem tanto, os outros membros da trupe do circo na verdade são como se fossem a família das crianças, que estão órfãs de mãe e começam o filme separados de seu pai, o cowboy Holt Farrier de Colin Farrell, que perde seu braço na guerra. Todos os coadjuvantes estão bem em seus papéis, com destaque para Roshan Seth, Deobia Oparei e Sharon Rooney, que poderiam ser mais bem explorados na trama.

A fotografia do filme é uma beleza, e ajuda a criar o clima lúdico e em certos momentos até mágico necessário para a produção, mas nada em Dumbo funcionaria se a animação do elefante orelhudo não fosse extremamente bem realizada, e como estamos falando da Disney, eles não brincam em serviço, e o resultado é que o pequeno Dumbo é realista em um nível que impressiona. Por trás dos movimentos e expressões do elefantinho está o trabalho do ator Edd Osmond.

Voltando ao filme original, Dumbo foi feito em um momento decisivo para a Disney, que tinha tido um grande fracasso com o mega ambicioso e fantástico Fantasia, um filme literalmente décadas a frente de seu tempo. A história tinha sido lançada dois anos antes em um livro infantil escrito por Helen Aberson e ilustrado por Harold Pearl, e que teve seus direitos rapidamente comprados por Walt Disney, que precisava de um grande sucesso e rápido.

Dá pra ver que muita coisa estava em jogo nas grandes orelhas do elefantinho mais simpático do mundo, que ao mesmo tempo foi feito da maneira mais econômica possível, já que o dinheiro andava bem curto naqueles tempos. O pequeno e despretensioso filme deu muito certo, e voou alto nas bilheterias, chegando a faturar mais ou menos a mesma coisa do que a obra-prima Cidadão Kane de Orson Welles, que foi lançado lançado no mesmo ano.

Dessa vez, o novo Dumbo chega com banca (e as expectativas) de um autêntico blockbuster. Tudo bem que não sou adivinho e o filme pode até não dar certo nas bilheterias, mas sinceramente duvido muito. A animação original faz parte da memória afetiva de muitos adultos já mais velhos, que provavelmente passaram "um mês sem falar depois que viram elefante voar" como diz a música do primeiro filme, e as novas gerações devem apreciar a mágica do pequeno elefante voador.

Vale lembrar que independente do seu muito provável sucesso nas bilheterias, Dumbo não foi feito apenas pensando no seu desempenho nos cinemas, já que ele será um dos carros-chefe do Disney+ ao lado dos outros filmes live-action da Disney a serem lançados este ano, e que serão exclusividade do canal em streaming.

O PETA fez um pedido especial ao diretor Tim Burton para que o filme não terminasse com Dumbo e sua mãe em cativeiro como acontece na animação original, mas pelo próprio tom do filme, totalmente contrário a exploração de animais para fins de entretenimento, acho que eles nem precisavam ter se incomodado com isso.

Não sei qual será o próximo trabalho de Tim Burton, mas talvez seja bom ele tentar voltar a fazer algo original, mesmo que seja dentro da Disney, pois apesar de Dumbo funcionar bem para o que se propõe, você sai do cinema com a sensação de que o filme poderia ser mais impactante, falta um pouco de emoção, e quem sabe alguns animais falantes.

Cena de Dumbo

Dumbo estreia no dia 28, na próxima quinta-feira, e eu recomendo que você assista. Depois não deixe de comentar aqui dizendo o que achou, e também se você já tinha visto um elefante voar.

relacionados


Comentários