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Review — Vidro (sem spoilers)

Confira nossa resenha de Vidro, a conclusão da trilogia de M. Night Shyamalan que brinca com a hipótese dos heróis de quadrinhos serem mitos reais

44 semanas atrás

Vidro é talvez o filme mais ambicioso de M. Night Shyamalan. O diretor, aclamado pelos seus suspenses no início de carreira, mas que perdeu a mão no meio do caminho se recuperou com o aterrorizante Fragmentado (2016), a continuação secreta do excelente Corpo Fechado (2000), considerado por muitos críticos a sua obra-prima.

Aqui, Shyamalan volta com tudo ao tema heróis e vilões de quadrinhos, trazendo sua própria visão um tanto inesperada, embora corajosa.

Buena Vista International / Universal Pictures / Vidro (pôster)

Afinal, Vidro é um cristal de primeira ou acabou estilhaçado? Descubra em nossa resenha sem spoilers a seguir.

Previously...

A trama de Vidro segue as narrativas tanto de Corpo Fechado quanto de Fragmentado, mesclando ambos para dar sequência em um novo conto. Passaram-se 18 anos desde que David Dunn (Bruce Willis) foi "descoberto" como um homem que não quebra, com força sobre-humana, quase total invulnerabilidade e um dom de "ver" os pecados das pessoas ao toca-las, além de uma fraqueza mortal à água. Ele agora possui uma empresa de segurança, e vem atuando como o "Vigilante" desde então, combatendo o crime às escondidas, enquanto é caçado pelas autoridades.

Seu novo alvo é o assassino serial Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), chamado pela mídia de o "Horda", que meses antes começou uma onda de ataques brutais contra mulheres jovens (os eventos mostrados em Fragmentado). O que David não sabe, é que ele está caçando algumas das 24 personalidades diferentes de Kevin, incluindo um selvagem tão forte e resistente quanto ele próprio, conhecido como a "Fera".

David Dunn (Bruce Willis), o "Vigilante" / Vidro

Uma parte interessante é que Shyamalan brinca com clichês das HQs o tempo todo, e é interessante ver seu filho Joseph (interpretado novamente por Spencer Treat Clark, agora adulto) atuando como o "homem da cadeira", que fornece apoio logístico ao pai enquanto ele sai em suas rondas. Sem dar muitas dicas, David e Kevin acabam se encontrando, mas são ambos capturados pela polícia e mandados para um hospital psiquiátrico.

Ambos são colocados aos cuidados da dra. Ellie Staple (Sarah Paulson, de American Horror Story, e vista recentemente em Bird Box), uma psiquiatra especializada em delírios de grandeza, e acredita que seres supostamente superhumanos nada mais são do que indivíduos que acreditam, ou foram levados a acreditar que possuem habilidades especiais.

O trabalho dela é convencer David e Kevin de que eles não são nada do que crêem ser, e todas as suas características incomuns possuem respaldo científico. Ao mesmo tempo, o hospital abriga outro hóspede, ninguém menos que Elijah Price (Samuel L. Jackson), que se refere a si mesmo como "Sr. Vidro".

Tendo sofrido a vida toda com osteogênese imperfeita tipo 1 (doença conhecida popularmente como "ossos de vidro"), Price acredita que existem seres com habilidades sobre-humanas, ou no caso dele, com um intelecto superior para compensar seu corpo decrépito, e que heróis e vilões de HQs são inspirados em mitos reais. Foi sua hipótese que o levou a descobrir David, e ele matou muita gente apenas para encontrar "o homem que não quebra".

Isso faz dele o terceiro espécime da dra. Staple, mas o que ela não sabe é que o "Sr. Vidro" tem um plano que envolve a "Fera" e o "Vigilante".

Corpo de Vidro Fragmentado

Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), o "Horda" / Vidro

Quando M. Night Shyamalan lançou Corpo Fechado em 2000, o cinema de heróis era bem diferente. X-Men: O Filme havia estreado no ano anterior, logo não tínhamos a fartura de deuses, homens de armadura, amazonas e alienígenas voando, saltando e derrubando prédios como hoje. Os efeitos eram mais limitados, contidos. O gênero ainda não se justificava o bastante para produções de grandes orçamentos.

Isso permitiu que o filme estrelado por Bruce Willis e Samuel L. Jackson ressoasse fundo. Ao mostrar um mundo onde superseres eram reais, e inspiraram as histórias das HQs, o público foi levado a pensar "e se for verdade?" Boa parte da genialidade de Corpo Fechado se dá por ser plausível; David Dunn era forte, mas não um Superman, e Elijah Price era bastante inteligente e possuía uma mente analítica invejável, mas não no nível de um Reed Richards, ou mais adequado, de um Lex Luthor.

Talvez por isso mesmo, a decisão de não incluir o personagem de Kevin Wendell Crumb na trama, como era o plano original tenha sido acertada. Shyamalan só voltou a ele em 2016, quando resolveu tecer por baixo dos panos uma trilogia. O problema é que Fragmentado foi distribuído pela Universal, assim como Vidro é hoje, enquanto os personagens de Corpo Fechado pertencem à Buena Vista International, ou seja, à Disney.

Foi preciso fechar um acordo entre ambas produtoras para incluir Dunn na cena final de Fragmentado, e para Vidro, foi decidido que a Universal distribuiria o filme nos Estados Unidos, e a Walt Disney Studios Motion Pictures (a antiga Buena Vista), no resto do mundo.

Elijah Price (Samuel L. Jackson), o "Sr. Vidro" / Vidro

Picuinhas de direitos à parte, Vidro é mais um palco armado para James McAvoy brilhar. O ator dá um show de interpretação cada vez que surge na tela, alternando entre cada uma das suas personalidades com uma velocidade e desenvoltura impressionantes. As feições, linguagem corporal e maneirismos mudam rapidamente, enquanto o ator alterna entre as personas: o metódico Dennis, a apavorante Patricia, o garoto Hedwig, que embora tenha uma idade mental de apenas nove anos, é bem malvado, e o frágil e dependente Kevin.

No entanto, quem perde força é justamente a "Fera". Em Fragmentado, é criada toda uma tensão em torno da chegada da 24ª personalidade, e quando isso acontece, a incredulidade a respeito do supostamente maluco Kevin cai por terra (a clássica reviravolta dos filmes de Shyamalan), e o que se segue é puro terror. Aqui, não há todo o suspense em torno dele, e a "Fera" fica indo e voltando o tempo todo. Talvez, por puxar mais para uma narrativa próxima de Corpo Fechado, o personagem tenha perdido grandeza.

Já o "Sr. Vidro" continua o gênio do crime que sempre foi. Price compensa sua condição física com uma capacidade mental invejável, traçando e executando planos aparentemente impossíveis, e está ao menos sempre dois ou três passos à frente de todo mundo. Aqui ele está ainda mais competente do que vimos em Corpo Fechado, embora vá enfrentar obstáculos à altura de seu intelecto desta vez.

E é curioso dizer isso, mas David Dunn, mesmo sendo supostamente o herói, é o personagem mais apagado do filme, quase apático o tempo todo. É compreensível, ele teve uma vida difícil, não se julga um bom pai (ainda que Joseph o admire), mas Com Grandes Poderes, Grandes Responsabilidades; o "Vigilante" atua como um benfeitor contra a vontade, um homem feito herói pela força das circunstâncias, ainda mais às custas de centenas de vidas.

É importante falar também que o filme é lento, quase moroso. O segundo ato, com a dra. Staple tratando os três supostos superseres é cadenciada de propósito, com o intuito de desfazer todas as crenças da cabeça de quem assistiu aos filmes anteriores. David, Kevin e Elijah estão sendo lentamente convencidos de que não são nada mais do que malucos que acreditam em suas próprias histórias, e não são capazes de escalar paredes por conta própria, ou entortar barras de ferro facilmente. E assim como eles, o público também fica na dúvida.

Joseph Dunn (Spencer Treat Clark), Casey Cooke (Anya Taylor-Joy) e Sra. Price (Charlayne Woodard) / Vidro

O resultado é que os 150 minutos do filme parecem mais extensos do que realmente são, mas não o suficiente para Vidro ser chato. Ele pode ter a narrativa mais difícil de se digerir da trilogia, mas quem chegou até aqui em busca de uma conclusão para a saga será atendido. Claro, como estamos falando de M. Night Shyamalan, espere por reviravoltas inesperadas no final.

No mais, Vidro traz todos os coadjuvantes dos filmes anteriores: além de Joseph, Casey Cooke (Anya Taylor-Joy, que viverá Illyanna Rasputin/Magia em Os Novos Mutantes), a jovem que foi poupada pela "Fera" possui um papel relevante na trama, especificamente em relação a Kevin (síndrome de Estocolmo FTW), e a sra. Price (Charlayne Woodard) volta para apoiar o filho, mesmo com o "Sr. Vidro" sendo essencialmente um vilão. Afinal, mãe é mãe.

Conclusão

Vidro é um filme complicado. O ritmo é mais cadenciado, e a narrativa não foi escrita para prendê-lo na cadeira, tenso a cada cena. Shyamalan escolheu lançar um monte de dúvidas sobre a percepção dos protagonistas sobre si e o mundo que vivem, e ao mesmo tempo enche a cabeça do espectador de minhocas, que passa a maior parte do tempo se questionando sobre que direção a história irá tomar.

Essa decisão de roteiro é proposital, mas cobra seu preço: Vidro é mais lento do que deveria ser, com passagens que poderiam ser resolvidas em menos tempo, em especial o segundo ato, que cria uma incômoda e entediante barriga. Além disso, há uma certa incompatibilidade entre Corpo Fechado e Fragmentado, principalmente porque aqui, Kevin acabou se tornando menos assustador.

Price, Crumb e Dunn em uma sessão da dra. Ellie Staple (Sarah Paulson) / Vidro

Mesmo com essas limitações de roteiro, James McAvoy está ainda mais fantástico como Kevin, mudando de personalidade com a mesma rapidez e facilidade com a que nós trocamos de canais na TV, e podemos ver alguns momentos curtos de outros indivíduos que não emergiram em Fragmentado. Claro, o foco ainda permanece nas cinco personalidades principais: Kevin, Dennis, Patricia, Hedwig e claro, a "Fera".

Dunn e Price estão, cada um  à sua maneira, mais conscientes sobre suas capacidades, e sabem o que, quando e principalmente, como fazer o que é preciso. O personagem de Jackson continua sendo o elo com o fã de quadrinhos, acreditando piamente em sua teoria e indo às últimas consequências para prova-la, o que lhe permite até cometer clichês do gênero.

No entanto, a visão de Shyamalan sobre um mundo de super-heróis e vilões chega a ser ousada para 2019. Em um tempo onde temos seres fantásticos saindo pelo ladrão, com os efeitos especiais permitindo a reprodução na tela até dos personagens mais impossíveis, o diretor mantém os pés no chão, para permitir que o espectador questione se os protagonistas são mesmo algo além dos humanos, ou apenas um trio de malucos.

O final (com a clássica reviravolta), embora se mostre indigesto para alguns é corajoso, e soube fechar bem uma trilogia que ninguém viu chegando. Embora Vidro seja o mais fraco dos três (Corpo Fechado ainda é o melhor, principalmente dado o contexto da época), ele mantém a qualidade das produções mais recentes de Shyamalan, que voltou ao básico, onde ele sempre acertou.

Nota:

Quatro de cinco Legiões.

Quatro de cinco Legiões / Vidro

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