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GRIS — Review

Com uma história aberta a interpretação e um design inspirado nos quadrinhos europeus, GRIS é um dos jogos independentes mais belos dos últimos tempos

43 semanas atrás

GRIS vem causando burburinho na indústria de games desde seu anúncio. O título de estreia da desenvolvedora espanhola Nomada Studio é um jogo de plataforma inteligente e acessível, que conta a história de uma jovem reunindo os cacos de sua psique despedaçada, em um cenário bucólico e desolado.

Pôster de GRIS (detalhe)

Afinal, GRIS é ou não tudo aquilo que o público esperava? Descubra em nossa análise a seguir.

O palácio de uma mente "gris"

A trama de GRIS é totalmente aberta a interpretações, mas revela ideias claras sobre seu tema: a protagonista, que dá nome ao game (que significa "cinza" em francês) está passando por um momento conturbado de sua vida, tendo que lidar com um trauma e a depressão. No início do jogo Gris, que é uma cantora perde sua voz, e é forçada a fazer uma escolha: mergulhar nas trevas ou seguir em frente e lidar com o problema.

O início do jogo deixa claro o quão fraturada está sua mente: a paisagem é vazia, melancólica, sem vida ou cor. Aos poucos, conforme o jogador avança o mundo, que é uma representação da psique de Gris vai tomando forma, se reconstruindo à medida que a personagem ultrapassa vários testes, adquire novas habilidades e vai recuperando sua confiança e auto-estima.

Cenário de GRIS

Uma das partes mais interessantes de GRIS é o fato dele não possuir nenhum tipo de HUD. A ajuda é dada em momentos muito específicos, com o game apenas informando qual botão você deve pressionar para acionar um novo poder. E só. Tudo o mais depende da sua capacidade de entender o cenário e seus elementos, para fazer uso dele da melhor maneira. Tal decisão foi tomada até para permitir que o jogador aprecie a arte do jogo em toda a sua plenitude.

As mecânicas são bem simples. No começo Gris só pula, mas vai ganhando poderes que se conectam diretamente a seu vestido. A medida que você segue em frente, a personagem será capaz de transforma-lo em um bloco sólido para resistir a ventos fortes ou abrir passagens, usa-lo como uma capa para atingir novas alturas e para nadar, atingindo águas profundas com facilidade.

O jogo te impele a sempre seguir em frente, e esse é seu maior defeito: GRIS é absolutamente linear, com quase zero fator de exploração. Você terá que resolver quebra-cabeças para adquirir pequenos orbes, que são as chaves para abrir algumas passagens e desbloquear novos poderes, e tirando alguns poucos itens mais escondidos (mas não muito), há pouco o que explorar.

Cenário de GRIS

No geral GRIS é um jogo de plataforma bastante inteligente, que pode ser curtido por jogadores veteranos e novatos, principalmente pelos quebra-cabeças muito bem desenvolvidos, mas não intransponíveis. Basta que o jogador se permita pensar um pouco, que a solução logo aparece.

Journey encontra Belladonna of Sadness, por Moebius

A comparação com o título de 2012 da thatgamecompany, hoje um clássico é inevitável. Assim como em Journey, o mundo de GRIS é vasto e solitário, com pouquíssimos habitantes. Em um momento, você fará amizade com uma criaturinha, que te ajudará a resolver alguns quebra-cabeças e a abrir passagens, e o modo como você o "recruta" é bastante inteligente.

Ele é um dos poucos seres que interagem diretamente com Gris, além na entidade sombria capaz de assumir diversas formas. No entanto, mesmo ele fornece meios para que a personagem siga em frente, e é importante salientar que de modo a contar sua história, a Nomada Studio decidiu que ela não pode morrer. Isso foi feito para permitir que o máximo de pessoas possam jogar GRIS, mesmo os menos experientes.

Cena de GRIS

Gris e seu novo amiguinho

Já a arte bebe direto da fonte do ilustrador francês Jean Giraud (1938-2012), mais conhecido como Moebius. Adrian Cuevas e Roger Mendoza, fundadores da Nomada Studio admitem que o artista, responsável por obras seminais como O Incal e Surfista Prateado: Parábola (um dos melhores roteiros de Stan Lee) foi desde o início, uma de suas maiores inspirações para GRIS. Ele também possui toques de Valerian et Laureline, de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières em alguns aspectos.

O mérito vai todo para o artista catalão Conrad Roset, que não só assina a arte como é o responsável direto pela existência tanto de GRIS, quanto da própria Nomada Studio. Cuevas e Mendoza, que até 2016 eram programadores da Ubisoft, deixaram seus empregos e formaram a desenvolvedora sediada em Barcelona, com o único propósito de dar vida à arte de Roset.

Cena de GRIS

Curiosamente, o game acertou também onde não mirou: o design de GRIS é bem similar ao de Belladonna of Sadness, longa animado de 1973 produzido pela Mushi Production, o estúdio de Osamu Tezuka que originalmente foi pensado como o terceiro filme da série Animerama, com temas mais adultos e centrada no erotismo e poder feminino.

Lançado na sequência de As Mil e Uma Noites (1969) e Cleópatra (1970, o primeiro anime pr0n da história) e quando o estúdio já estava falindo, sem o envolvimento de Tezuka (que se arrependeu de ter introduzido sexo e violência nos animes, segundo Mauricio de Sousa), a obra foi ignorada pelo grande circuito, se tornando ainda mais cult que os demais. Ele chegou aos Estados Unidos apenas em 2016, restaurado em 4K.

Caso o "Red Band" não tenha deixado claro, o trailer a seguir contém cenas pesadas, NSFW e tudo o mais.

Claro que a temática de GRIS não chega nem perto da de Belladonna of Sadness, ele tem zero erotismo e violência gráfica, mas seu estilo experimental, com paisagens aquareladas e as brincadeiras com tons e pinceladas de tinta, que mudam o ambiente conforme Gris avança lembram muito as decisões artísticas do filme.

O design é provido pela Unity Engine, que vem se mostrando uma ferramenta extremamente versátil nas mãos de desenvolvedoras pequenas, vide o estilo vintage apresentado pela Studio MDHR Entertainment em Cuphead. Ostros exemplos recentes são a série Ori, Subnautica, Fe e o belíssimo Hollow Knight.

Na parte do som, o destaque vai para a trilha sonora composta pela banda auto-descrita de "chamber pop" Berlinist, de Barcelona; a trilha foi composta tendo como base os designs de Roset e o desenrolar da trama, permitindo que as músicas se integrem de forma orgânica ao que acontece na tela.

Conclusão

Eis um fato interessante: o ano de 2018 começou e terminou com dois jogos independentes bastante curiosos, ambos protagonizados por mulheres. No entanto, Dandara e GRIS estão em pólos totalmente opostos. O game da desenvolvedora mineira Long Hat House é um Metroidvania com elementos inovadores, capitaneado por uma personagem forte e destemida.

Cena de GRIS

Já o título da Nomada Studio é um passeio pela mente em frangalhos da protagonista, que está em uma jornada de reavaliação e aceitação. Um não é melhor ou pior que o outro, ambos possuem seu apelo e satisfazem o jogador de maneiras diferentes.

No entanto, GRIS é único em sua forma. Seja na estética ou no tema, ele é diferente de tudo o que já se viu em games e proporcionou uma das duas melhores experiências que já tive, em todos esses anos nessa indústria vital, com um desafio adequado, músicas belíssimas e um visual estonteante. Acima dele, só Journey.

Ele tem seus defeitos, claro. As poucas opções de exploração tornam o game mais vazio e contemplativo do que precisava ser, e uma vez terminado, dificilmente você se sentirá impelido a retornar. Ainda assim, GRIS é uma experiência única, que merece a chance de ser degustado por todos os que apreciam games como uma forma de expressão artística.

Ficha Técnica

  • Título — GRIS;
  • Plataformas —Nintendo Switch e Windows e macOS via Steam;
  • Desenvolvedora — Nomada Studio;
  • Distribuidora — Devolver Digital;
  • Preço — US$ 16,99 para Nintendo Switch e R$ 32,99 para Windows e macOS via Steam;
  • Pontos Fortes — Design único, com estilo inspirado em quadrinhos europeus clássicos; linda trilha sonora, que se integra ao gameplay de forma orgânica; quebra-cabeças simples, mas inteligentes; totalmente acessível a jogadores menos experientes;
  • Pontos Fracos — Absolutamente linear; pouco fator replay.

Meio Bit analisou GRIS no Windows via Steam, com uma cópia digital adquirida pelo autor.

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