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Descanse em paz, Paul Allen, e muito obrigado pelos peixes

O mundo da tecnologia está em luto com o falecimento de Paul Allen, fundador da Microsoft, que também era dono do Portland Trail Blazers e do Seattle Seahawks.

1 ano atrás

É com tristeza no coração que escrevo este post para informar que Paul Allen faleceu nesta segunda-feira dia 15 de outubro. O visionário e lendário co-fundador da Microsoft deixa marcas muito além do mundo da tecnologia, já que ele era dono do time Seattle Seahawks da NFL e também do Portland Trail Blazers, além de um guitarrista de mão cheia e um grande filantropo. Allen foi levado por um linfoma não-Hodgkins, que ele tinha enfrentado pela primeira vez em 2009.

Descanse em paz, Paul G. Allen.

No começo deste mês, Allen publicou uma nota em seu site dizendo que seus médicos tinham descoberto novamente o linfoma, mas infelizmente, desta vez o câncer foi fulminante. Na declaração, ele garantia que iria continuar envolvido na Vulcan, nos seus institutos e também com seus times Seahawks e Trail Blazers, mas que tinha total confiança nos times que colocou para tomarem conta de cada empreitada.

Assim como seu antigo sócio Bill Gates, Paul G. Allen tentava mudar o mundo da sua forma, investindo em iniciativas de arte e entretenimento como museus, exposições e festivais, além de investimentos no mercado imobiliário e as fundações de Allen, tudo através de uma empresa, a Vulcan Inc., fundada por Paul e sua irmã Jody Allen.

A Vulcan Productions era o braço cultural do grupo, e produziu documentários que foram inclusive vencedores do Emmy e indicados ao Oscar. Apesar do nome lembrar o Sr. Spock e Star Trek, o Vulcano homenageado pela empresa era outro, o deus do fogo de Roma, que era um ferreiro, uma bela imagem para as mudanças criativas que a empresa queria colocar em prática no mundo.

A Vulcan Inc. também financiava os Allen Institutes, um focado em ciência do cérebro e outro em ciência da célula, além de outro mais recente, criado para estudar inteligência artificial, o AI2, Allen Institute for AI.

A Vulcan tinha até mesmo uma empresa espacial, a Stratolaunch. Pois é, além de ter além de ter investido e criado o SpaceShipOne, o foguete cuja tecnologia foi licenciada por Richard Branson para a Virgin Galactic, Allen e a Vulcan estavam criando o maior avião do mundo por largura de asa. Ok, são praticamente dois aviões, mas o projeto parece bem interessante.

Bill Gates e Paul Allen em 2013 e 1981

“A computação pessoal não existiria sem ele”, diz Bill Gates

Quem ficou totalmente arrasado com a partida de Allen foi seu antigo sócio Bill Gates. Apesar de terem tido alguns problemas ao longo dos anos, incluindo uma tentativa frustrada de Gates comprar as ações de Allen quando este saiu da empresa, os dois co-fundadores da Microsoft mantiveram a amizade até o final, e chegaram a recriar em 2013 a foto clássica em 1981, tirada para comemorar o acordo do MS-DOS com a IBM.

“Estou de coração partido pela passagem de um dos meus mais antigos e mais queridos amigos, Paul Allen. Desde nossos primeiros dias juntos na escola Lakeside School, através de nossa parceria na criação da Microsoft, até nossos projetos filantrópicos em parceria ao longo dos anos, Paul foi um verdadeiro companheiro e um amigo querido. A computação pessoal não existiria sem ele.

Mas Paul não estava satisfeito em começar uma empresa. Ele canalizou seu intelecto e compaixão em um segundo ato focado em melhorar a vida das pessoas e fortalecer comunidades em Seattle e ao redor do mundo. Ele gostava de dizer: “Se isso tem potencial de fazer o bem, então nós deveríamos fazê-lo.” Esse era o tipo de pessoa que ele era.

Paul amava a vida e aqueles que o cercavam, e nós também o amávamos em troca. Ele merecia muito mais tempo, mas suas contribuições para o mundo da tecnologia e da filantropia irão viver por gerações. Eu vou sentir uma tremenda falta dele.”

Outras declarações de pesar

No site da Microsoft, o CEO Satya Nadella escreveu as seguintes palavras: “as contribuições de Paul Allen para nossa empresa, nossa indústria e nossa comunidade são indispensáveis. Como co-fundador da Microsoft, da sua própria maneira quieta e persistente, ele criou produtos, experiências e instituições mágicas, e ao fazer isto, mudou o mundo. Eu aprendi muito com ele – com sua inquietude, curiosidade e seu impulso por altos padrões são coisas que vão continuar inspirando a mim e a todos nós da Microsoft. Nossos corações estão com a família de Paul e suas pessoas amadas. Descanse em paz.”

O CEO da Vulcan Inc., Bill Hilf, assinou uma nota em nome da empresa e também dos Seahawks e dos Blazers: “Todos nós que tivemos a honra de trabalhar com Paul sentimos hoje uma perda impossível se ser expressada. Ele tinha um intelecto incrível e uma paixão para resolver alguns dos problemas mais difíceis do mundo, com a convicção de que o pensamento criativo e novas formas de lidar com os problemas poderiam causar um impacto profundo e duradouro. Milhões de pessoas foram tocadas por sua generosidade, sua persistência em buscar um mundo melhor, e seu impulso para concretizar o máximo que ele podia com o tempo e recursos ao seu dispor.”

Antes de concluir, o CEO garantiu que não existem planos para mudar nada na Vulcan, nem nos institutos de pesquisa e museus que ela mantém. “Hoje nós velamos nosso chefe, nosso mentor e nosso amigo para quem 65 anos foram muito curtos – e reconhecemos a honra que foi trabalhar ao lado de alguém cuja vida transformou o mundo.”

No site do Allen Institute, o CEO Allan Jones também deixou seu lamento: “A visão e a intuição de Paul foram uma inspiração para mim e para muitos outros aqui no Instituto que leva o seu nome, e em uma miríade de outras áreas que fazem parte do seu fantástico universo de interesses. Sua falta será duramente sentida. Nós honramos seu legado hoje e a cada dia no longo futuro do Allen Institute, ao levar adiante nossa missão de enfrentar os problemas difíceis em biociência e fazer uma diferença significativa em seus campos respectivos.”

A família de Paul Allen, através de sua irmã Jody, também pronunciou todo o seu pesar: “Meu irmão era um indivíduo fantástico em todos os níveis. Enquanto muitos conheciam Paul Allen como filantropista e tecnólogo, ele para nós era um irmão e um tio muito amado, além de um amigo excepcional. A família e os amigos de Paul foram abençoados com sua inteligência, seu calor, sua generosidade e sua preocupação profunda. Com todas as demandas da sua agenda, ele sempre tinha tempo para sua família e amigos. Nessa hora de perda e tristeza para nós – e tantos outros – estamos profundamente gratos pelo cuidado e preocupação que ele demonstrava todo dia.”

Entre suas contribuições para o mundo da tecnologia, Allen deixou 74 patentes registradas em seu nome.

Portland Trail Blazers

Paul Allen comprou o Trail Blazers em 1988 por US$ 70 milhões, e se comprometeu a manter a franquia na cidade. Nos primeiros anos, sucesso total, com duas participações em finais, mas depois, o time caiu de produção. A arena que construiu para os Blazers acabou se mostrando deficitária, por contar com parceiros que cobravam juros muito altos. Ele chegou a pensar em vender o time, mas acabou desistindo, e passou a tratar os Blazers mais como um negócio e não como um hobby. Ele comprou a Arena Rose Garden dos seus credores e os Blazers entraram no rumo certo (ainda que não tenham tido o mesmo sucesso dos Seahawks).

Seattle Seahawks

9 anos depois de comprar um time na NBA, Allen resolveu investir no time da NFL da sua cidade natal Seattle, que estava em apuros. Em 1997, a franquia estava quase sendo vendida e tinha praticamente se mudado para Anaheim, Califórnia, quando foi salva do triste destino por Paul G. Allen, que comprou o time por US$ 194 milhões. No site dos Seahawks, o ex-jogador Walter Jones conta sobre sua experiência com Allen. A franquia retribuiu todo o investimento e carinho de Allen, e certamente deu uma das maiores alegrias de sua vida ao conquistar o Super Bowl de 2014.

Tributo da gravadora Hendrix Experience a Paul G. Allen.

Jimi Hendrix e a guitarra

Allen era fã de longa data de outro filho famoso de Seattle, o mago das guitarras Jimi Hendrix, e ajudou sua família a vencer uma feroz batalha judicial pelos seus direitos póstumos. Pois é, apesar de ser indiscutivelmente o maior guitarrista de todos os tempos, Hendrix era um péssimo homem de negócios, do tipo que assinava qualquer coisa sem ler direito, e assim, depois de sua morte, os direitos sobre sua obra ficaram com um produtor, e não com a sua família.

Foi Paul Allen que emprestou o dinheiro para que o pai de Hendrix, Al e sua irmã Janie entrassem na justiça para lutar pelos direitos das músicas e gravações, uma história que teve um final feliz em 1995. O mais legal é que caso esta disputa não fosse vitoriosa, a família de Hendrix não precisaria devolver os US$ 5 milhões que foram investidos por Allen na época.

Mas Allen era mais que um simples fã. Como Quincy Jones garantiu no começo deste ano, Allen tocava guitarra e cantava como Jimi Hendrix. Não sei se chegava a tanto, mas ele certamente não fazia feio com a guitarra nas mãos, e pra quem duvida dos talentos musicais do co-fundador da Microsoft, é só conferir um dos seus solos aqui, em um show em Seattle em 2012.

Uma curiosidade é que sempre que viajava, Allen levava com ele uma banda para o acompanhar, caso ele sentisse vontade de tocar e fazer uma jam session. Na festa de comemoração pela vitória do Seahawks no Super Bowl alguns anos atrás, Allen deu um show com sua banda e a participação de vários convidados.

Allen definitivamente vai fazer muita falta, e a cidade de Seattle certamente sentirá muito a partida de um dos seus cidadãos mais famosos, e também um dos seus maiores patronos. Allen gostava muito de apostar em sua cidade, e também era sócio do time de futebol Seattle Sounders FC da MLS. Ao saber que o antigo Cinerama iria fechar as portas, o comprou e reformou completamente, incluindo novos projetores 4K e um sistema de som de última geração.

Ainda não se sabe qual o destino das franquias esportivas de Paul Allen, mas especula-se que tanto o Seahawks quanto o Trail Blazers possam ser vendidos, pois possivelmente não interessam tanto aos únicos herdeiros de Allen, que são a sua irmã Jody e os filhos dela.

Paul G. Allen era alguém que sabia viver a vida, e que também tinha o grande mérito de apoiar e investir nas coisas que amava. Além de suas contribuições para a ciência e tecnologia, do seu ótimo gosto musical e do talento como guitarrista, Paul também tinha uma belíssima coleção de aviões, iates como o Octopus, de 416 pés, e uma extensa coleção de obras de arte de grandes artistas, avaliada em mais de US$ 750 milhões.

Quem dera todos os bilionários fossem assim como Paul Allen e seu velho sócio e amigo Bill.

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