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SpaceX escutou Sagan: vão mandar (provavelmente) um poeta

A SpaceX vai mandar artistas para o espaço. Não só é uma atitude excelente, como não é inédito.
Espaço e arte andam juntos tem muito tempo. Clique e aprenda um pouco sobre essa parceria…

18/09/2018 às 17:58

Por muito tempo nosso mundo foi muito pequeno. Vivíamos e morríamos em um raio de poucos quilômetros, fora disso era perigoso. Alertávamos as crianças para não saírem da proximidade, mas ansiávamos por notícias de terras distantes. Viajantes eram recebidos com desconfiança e depois curiosidade, ouvíamos suas histórias e aprendíamos sobre Ur, Babilônia, Hy-Brasil, lugares imaginários e reais, lendas e fatos, tudo misturado em histórias de viajantes.

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Imagine uma aldeia onde séculos depois seria construída a cidade de Bagdá. Crianças a 500 km do oceano mais próximo ouvindo relatos de visitantes contando de imensos oceanos sem fim de água salgada, florestas onde o verde vai até onde o olho alcança, exóticos e curiosos animais.

Era uma época em que o papel não havia sido inventado, a escrita ainda engatinhava. Aprendíamos sobre o mundo através das palavras dos viajantes, e quanto mais eloquentes e talentosos, mais suas viagens eram eternizadas. Todo viajante era um contador de histórias, um artista.

Quando a fotografia não era sequer um sonho na mente dos que sonhavam com o futuro, artistas acompanhavam expedições científicas e militares para documentar tudo que vissem. As obras produzidas por esses artistas cativaram a atenção de milhões de pessoas em suas terras natais. Jornais publicavam diariamente relatos de expedições a terras distantes como Egito e África (eu sei). Pinturas e ilustrações complementavam a imaginação dos leitores, como as magníficas pinturas de Samuel Daniell feitas na África em 1804:

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Relatos de escritores como Hemingway, Churchill, Jack London ajudaram a tornar reais terras distantes. Poetas traduziam a beleza de culturas e civilizações há muito mortas, ou a insensatez e inevitabilidade da morte iminente, como no poema A Carga da Brigada Ligeira, de Lord Tennyson, publicado em 9/12/1854 eternizando a inútil morte de 100 de 600 soldados britânicos durante a Guerra da Crimeia, quando por um erro de comunicação uma tropa de cavalaria leve foi ordenada a atacar uma posição fortificada de artilharia.

“Forward, the Light Brigade!”
Was there a man dismayed?
Not though the soldier knew
Someone had blundered.
Theirs not to make reply,
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die.
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

Artistas se tornavam fundamentais, na Expedição Langsdorff, bancada pelo Czar Alexandre 1 e proposta pelo cônsul russo no Brasil Georg von Langsdorff foram contratados nada menos do que três pintores, Hércules Florence, Johann Moritz Rugendas e Adrien Taunay.

A expedição saiu de São Paulo em 1826, levou três anos percorrendo o interior do Brasil e depois de 6.000 km voltou ao Rio de Janeiro, com boa parte dos membros mortos por doenças tropicais, e somente um dos pintores. Rugendas pediu as contas logo no começo e Taunay morreu afogado.

Eles trouxeram verdadeiros tesouros em relatos e pinturas.

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Com o tempo os pintores foram sendo substituídos por máquinas fotográficas, e os relatos das expedições se tornaram mais objetivos, feitos pelos próprios cientistas, mas jornalistas e escritores continuaram acompanhando as missões. Um dos casos mais bem-sucedidos dessa simbiose é a revista National Geographic, fundada em 1888 pela National Geographic Society.

A tiragem inicial foi de 165 exemplares, somente para os membros, hoje ela tem 40 milhões de leitores e um império de canais de TV, expedições e pesquisas.

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A pintura não foi superada pela fotografia, da mesma forma que o texto escrito não foi extinto pela gravação de voz. São apenas perspectivas diferentes, e como John Constantine já ensinou, palavras têm poder. As milhares de fotos da Lua feitas pelos astronautas da Apollo se tornam muito mais reais quando acompanhadas das palavras de Buzz Aldrin, que descreveu o que via como uma “Magnífica desolação”.

Por isso, crianças, estamos aplaudindo a decisão da SpaceX:

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Japas in Space

Ontem a SpaceX apresentou o primeiro contrato do Big Falcon Rocket, o bilionário japonês Yusaku Maezawa, dono da Zozotown, uma das maiores confecções do Japão, fundada em 2004. Antes disso ele tinha um negócio vendendo discos pelo correio e uma banda.

A carreira musical de Maezawa não é grande coisa, mas ele ama arte e investe boa parte de de seus 3,6 bilhões de dólares em uma fundação que promove jovens artistas. Ele também é famoso por ter comprado uma obra de Jean-Michel Basquiat por US$ 110,5 milhões:

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Não, eu não entendo arte moderna, mas em defesa de Maezawa, em seu Twitter ele aparece posando com um Picasso.

Segundo Elon Musk ele era o passageiro do vôo lunar com uma Dragon V2 e um Falcon Heavy, cancelado quando surgiu uma oportunidade muito maior, visto que a Big Falcon Ship é uma espaçonave de verdade, não uma cápsula apertada.

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Elon Musk anunciou que Maezawa contratou um vôo da SpaceX com a BFS que o levará até a Lua, em um fly-by, a chamada “trajetória de retorno livre”, o modo mais seguro pois caso algo dê errado você não precisa fazer nada para voltar pra Terra.

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Foi emocionante quando Maezawa falou as palavras cuidadosamente escolhidas: “Eu escolhi ir para a Lua”, ecoando o discurso clássico de John Kennedy, mas a idéia de que mudar do plural para a 1a pessoal do singular era algo egoísta foi imediatamente dissipada.

Ele não comprou uma passagem,ele comprou o vôo inteiro, mas não vai sozinho com vários clones da Jane Fonda em auge, como seria meu plano. Maezawa criou um projeto chamado #DearMoon, onde serão escolhidos entre seis e oito artistas do mundo todo. Eles acompanharão Maezawa em sua viagem, passarão cinco dias e 23 horas em uma nave com 1.000 metros cúbicos de espaço pressurizado e uma janela panorâmica digna de ficção científica.


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Ele quer levar músicos, escritores, arquitetos, cineastas, artistas criativos, jovens, promissores, famosos, essencialmente artistas cuja arte Maezawa ame, e que esses artistas sejam tocados e inspirados pela incrível beleza do espaço. Que obras serão criadas?

Gustav Holst compôs sua magnífica sinfonia Os Planetas antes mesmo de Plutão ser descoberto e sem ter qualquer informação relevante. Imagine o quê ele faria se participasse dessa viagem.

Os Russos

Apesar de todo o ineditismo da missão, essa não será a primeira vez que um artista irá ao espaço, ou mesmo arte. Os astronautas da Apollo deixaram na superfície da Lua uma escultura homenageando astronautas que perderam a vida, e também uma pastilha com desenhos de vários artistas famosos incluindo Andy Warhol.

Quanto a artistas em si, o primeiro deles foi o cosmonauta Alexey Leonov, que em 1965 fez a primeira caminhada espacial.

Leonov era pintor amador e retratou o programa espacial russo em vários de seus trabalhos, mas em termos de pioneirismo sua missão na Voskhod 2, junto com Pavel Belyayev foi imbatível. Além de mostrar que homens podiam caminhar e trabalhar no espaço, Leonov teve tempo de criar o primeiro desenho feito no espaço:

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Claro que em casa sem risco iminente de morrer ele faz coisas mais complexas:

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Quando Como e Quanto?

Ninguém mencionou o custo da viagem, Musk só estimou por alto o custo do projeto. Ficará entre US$ 2 e US$ 10 bilhões. Parece muito dinheiro é é, mas relativamente falando é troco de pinga. O Programa Apollo custou o equivalente hoje a US$ 115 bilhões. Quer chorar mais?

Nas piores estimativas o projeto do Big Falcon Rocket e da Big Falcon Ship custará US$ 10 bilhões.

O custo das Olimpíadas no Rio foi de R$ 41 bilhões. US$ 9,91 bilhões na cotação atual. No dólar de junho de 2016, equivalem a US$ 13,2 bilhões.

Copa do mundo? Custou mais de R$ 38 bilhões. Na cotação do dólar de junho de 2014 isso dá US$ 17 bilhões.

O BFR tem um custo projetado de lançamento de US$ 7 milhões, quando tudo estiver devidamente azeitado, isso vai DIZIMAR a concorrência. Só com os passeios turísticos em órbita baixa a SpaceX já vai ter um lucro imenso.

O vôo do Mecenas Espacial está marcado para 2023 — se tudo der certo — já a Big Falcon Ship, a primeira parte a ficar pronta, começará a fazer testes de vôos sub-orbitais ano que vem. A construção  já está em andamento, e Maezawa foi conferir “sua” nave.

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Estamos vivendo o começo de uma era, e por favor não dê atenção ao pessoal que diz que isso é brinquedo de super-ricos. Quando eu era criança ninguém fazia DDD por ser muito caro e ligações para o exterior tinham que ser agendadas.

Ar-condicionado em carros só existia na Mercedes importada do pai de seu amigo rico. Antes disso mesmo nos EUA carro era símbolo de riqueza, e ninguém tinha mais de uma TV em casa. Toda tecnologia tende a se popularizar e baratear. Ou você acha que o chip de GPS no seu celular sempre foi tão barato que você nem se importa em pagar por ele?

A exploração espacial é muito cara, mas vive um efeito Tostines, é cara pois há pouca demanda e há pouca demanda por ser cara. Uma ação disruptiva como essa do Maezawa, de mandar artistas, gente comum para o espaço vai inspirar incontáveis pessoas na Terra.

E de forma alguma isso desprestigia os cientistas e engenheiros por trás do projeto. Afinal de contas o que seria do lançamento do Tesla sem Bowie, Adams e Asimov?


SpaceX — Falcon Heavy & Starman


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