Museu sério de país de verdade restaura a USS Enterprise

Jornada nas Estrelas é muito mais que uma série de TV, é um fenômeno de mídia que levou para a sala do americano médio discussões sociais e filosóficas que estavam restritas a aulas e revistas chatas que ninguém lia. Ao mostrar seu ideal de futuro em vez de pagar lições de moral Gene Roddenberry apresentou a toda uma geração não os tempos difíceis que viviam, mas o que poderiam se tornar.

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Enquanto pessoas ainda eram linchadas no Sul por terem a cor errada, Jornada nas Estrelas mostrava um futuro onde pessoas eram julgadas pelo conteúdo de seu caráter, não pela cor de sua pele, e isso era realidade, não um sonho. Jornada nas Estrelas valorizava inteligência, ciência, um senso ético e moral que colocava o bem geral acima de tudo e respeitava a autonomia das minorias.

Whoopy Goldberg sempre conta como viu a Tenente Uhura em Jornada nas Estrelas e correu para avisar a mãe que havia uma negra na televisão que não era a empregada. Nichelle Nichols por sua vez conta como queria sair da série por se achar mal-aproveitada, mas mudou de idéia depois de receber um telefonema de um fã agradecendo por sua presença na série, inspirando incontáveis pessoas mostrando que havia um futuro glorioso para os negros. O fã? Martin Luther King Jr.

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Jornada nas Estrelas inspirou gente de todas as raças cores e credos a acreditar em um futuro melhor, William Shatner conta que durante uma visita promocional à NASA ele achou que seriam ridicularizados, afinal eram um bando de atores brincando de astronautas, quando chegaram os cientistas cercaram o elenco gritando como garotinhas, e até os presentearam com uma miniatura da USS Enterprise.

A série inspirou um monte de astronautas de verdade, inclusive a Dra Mae Carol Jemison, primeira astronauta negra, fã a ponto de topar na hora quando foi convidada para uma ponta em um episódio da Nova Geração, quando foi visitada por Nichelle Nichols:

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Um dos ícones da série é a nave em si. Em 1966 o padrão de nave espacial de ficção científica ainda era ou disco voador como a Jupiter 2 ou estilo foguetinho Flash Gordon:

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A Enterprise era… prática. Talvez por sua experiência militar, Roddenberry visualizou um cenário que fazia sentido, com postos e funções bem estabelecidos, departamentos específicos espalhados pela nave e muita gente ocupada andando de um lado para o outro. A nave era futurista para padrões futuristas da época, a ponto de nem saberem o quê movia a Enterprise, nos primeiros episódios.

A Marinha dos EUA chegou inclusive a visitar os estúdios para estudar a ponte de comando, e tentar adaptar o design para um porta-aviões.

O desenho da nave foi criado por Matt Jefferies, seguindo instruções de Roddenberry, eles terminaram com um formato inédito e ousado. Quando o desenho foi aprovado fizeram uma primeira miniatura, de 80 cm que custou US$ 4.800,00 (corrigidos). Roddenberry levou a miniatura para o estúdio, que aprovou a construção de um modelo de 3,4 m para ser usado nas filmagens.

Esse modelo custou quase US$ 50 mil, e era feito de metal, madeira, acetato, com iluminação, luzes em movimento, pacote completo. Pesava 125 kg e era um inferno para trabalhar, as filmagens eram em stop motion e como economia de custos só o lado direito da nave era detalhado.

Hoje temos várias Enterprises, algumas de verdade, como o primeiro ônibus espacial ou a infelizmente acidentada VSS Enterprise da Virgin Galactic, no cinema e na TV, uma penca:

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Nós trekkers amamos todas mas sabemos que só existe UMA Enterprise acima de todas, como disse Scotty no episódio Relíquias, da Nova Geração, a NCC 1701. Sem nenhum maldito A, B, C ou D.

Jornada nas Estrelas foi ao ar de 1966 a 1968. Em 1974 o modelo foi doado, desmontado em várias caixas para o Instituto Smithsoniano, que o remontou e o expôs de 1976 a 1990. Durante esse tempo ele passou por diversas reformas, mas a maior de todas só acabou agora.

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A restauração levou anos e custou uma fortuna, felizmente o Smithsonian tinha ambos. Eles contrataram Kim Smith, Bill George e John Goodson, todos com passagem pela Industrial Light and Magic para dar consultoria.

O modelo foi todo fotografado com raios-x para identificar as estruturas internas.

As luzes foram substituídas por LEDs, incluindo o mecanismo giratório das naceles, que há muito não funcionava mais. Agora LEDs podem ser programados para simular o movimento, sem os problemas de superaquecimento que atrapalhavam a vida de todo mundo desde o tempo da série original.

Espectrometria de fluorescência de raios x foi usada para determinar quais ligas metálicas foram usadas no modelo original, para que a restauração fosse precisa.

Amostras microscópicas da tinta foram enviadas para uma especialista que achou 5 camadas diferentes, feitas durante as alterações nas filmagens e nas restaurações subsequentes. O modelo foi repintado com as cores originais onde possível, e em outros lugares a tinta foi estabilizada para impedir futura degradação.

Usaram espectroscopia μ‐FTIR, Fourier Transform Infrared, algo que eu nem sabia que existia, só pra determinar a composição química dos adesivos usados para prender as partes do modelo. Amostras dos plásticos foram enviadas para análise no Departamento de Conservação de arte da Buffalo State University, em Buffalo, New York.

O modelo restaurado agora será exposto no pavilhão da Boeing no Museu Nacional de Aeronáutica e Espaço, parte do grupo do Smithsonian, uma instituição que engloba 19 museus, fundada em 1846 quando Henry James Hungerford doou ao morrer toda a fortuna herdada de seu tio, o cientista inglês t James Smithson. A doação para o Governo Federal condicionava os 11 milhões de dólares para serem usados no aumento e difusão do conhecimento.

O Smithsonian é uma instituição governamental com participação privada, em 2018 o orçamento pretendido é de US$ 947 milhões, ou 8.885 vezes a verba do Museu Nacional em 2017.

Três vezes ao dia as luzes do modelo serão acesas, para dar aos fãs a chance de filmar o momento.

Aqui algumas imagens da Enterprise restaurada:

Fonte: Smithsonian.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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