Kindle, dez anos depois: pouca coisa mudou

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Ontem, dia 19 de novembro o Kindle completou dez anos. O leitor de e-books que chegou como uma solução fechada para o consumo de e-books, oferecendo um hardware dedicado hoje é um sucesso comercial, possui várias variantes e um sem número de concorrentes, mas a verdade é que a revolução do livro digital nunca chegou.

Quando o Kindle chegou em 2007 a Amazon já era razoavelmente poderosa como uma grande loja de e-commerce, principalmente no que diz respeito a livros e muitos acreditaram que o e-reader, por facilitar o acesso às publicações representaria o início do fim dos livros impressos. A bem da verdade é lógico se pararmos para pensar: você poderia carregar toneladas de publicações em um só dispositivo, sincronizar novos livros era simples (para a época) e bastava clicar para adquirir novos junto à loja da própria Amazon, logo não havia motivos para pensar o contrário.

Todo mundo usou o mercado musical como referência: com a popularização do MP3 e o estabelecimento de lojas digitais legítimas como o iTunes, com Steve Jobs batendo o pé que era possível vencer a pirataria com bons serviços o mercado acreditou que o mesmo seria possível através do Kindle: os usuários aos poucos não só abririam mão de seus volumes físicos como a pirataria reduziria drasticamente graças a um sistema simples e prático integrado aos e-readers.

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O primeiro Kindle. Como as coisas mudaram…

Pode-se dizer hoje que o segundo caso teve um grau de sucesso até que aceitável (a pirataria nunca vai sumir, fato), mas todo mundo errou ao apostar no primeiro cenário. A diferença é que no caso da música o CD é um atravessador quando queremos só a música, mas no caso dos livros eles por si só são o meio. Temos uma relação emocional ao manusear, folhear, colocar na estante e mostrar nossas coleções às visitas. Mesmo a proposta da quantidade foi uma ilusão: nenhuma pessoa racional lê 2.578 livros ao mesmo tempo, nós os lemos um por vez e carrega-lo na bolsa ou na mochila não é um empecilho tão grande assim.

Claro, quando o assunto são livros acadêmicos há uma diferença bem grande mas literatura? Não é caso.

Há o problema também da forma: o digital não permite uma exploração menos ortodoxa da mídia, é uniforme e dependendo do caso pode até mesmo fazer com que informações se percam.

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S., de JJ Abrams e Doug Dorst: um quebra-cabeça na forma de livro que vem com várias cartas, anotações, cartões postais, recortes de jornal para serem manuseados, tateados. Tal experiência se perdeu no e-book.

O fator do preço é outro desestímulo: por pura ganância das editoras e revendedoras o e-book é fixado com o mesmo valor do livro físico (não raro eles chegam a ser até mais caros), o que causa no consumidor a sensação de que está sendo enganado. Ele sabe que está comprando as palavras, a história mas a edição impressa é um meio em si, enquanto você gastará a mesma coisa por uns e zeros. Não faz sentido, não conseguimos atribuir valor real a produtos essencialmente imateriais e por pura mesquinharia os e-books não deslancham, se fossem mais baratos talvez a adesão fosse maior.

Por outro lado e-books são mais acessíveis: com softwares de leitura de tela ou recursos como o Audible, da própria Amazon deficientes visuais não mais dependem de edições impressas em braile ou que outros ditem para eles as histórias. Isso por si só justifica a manutenção dos livros digitais embora eles nunca venham a ter a força necessária para suplantar os físicos, pelo menos enquanto tivermos como fazer papel.

Hoje o Kindle é uma excelente ferramenta, com versões para todos os gostos e tamanhos de bolso e vários concorrentes com mais ou menos funções no mercado, mas a verdade é que ainda continuaremos a folhear nossos livros físicos por muito e muito tempo enquanto os e-books continuarão sendo produtos de nicho, para quem prefere uma vida digital ou quem precisa de acessibilidade; os demais continuarão folheando seus volumes, por mais incoerente que isso pareça simplesmente porque somos sentimentais assim.


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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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