Confirmado, Orville é melhor Star Trek do que Star Trek Discovery

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YES tem spoilers de Orville.

Não entenda mal: Discovery é excelente, mas é a Battlestar Galactica Reboot de Jornada nas Estrelas. É uma série cinza, nada é preto e branco. Não há aquela certeza moral de estar do “lado certo” das séries antigas, o Capitão Lorca seria considerado vilão em qualquer outra versão da franquia, a Federação é muito mais humana como conhecemos a Humanidade hoje, mesmo cheia de aliens.

Aparentemente estão todos satisfeitos, a série foi renovada, a Netflix está sorrindo, a CBS está sorrindo, até a militância lacradora estaria sorrindo se assistisse, mas como você sabe quem chilica não consome.

Sim, Discovery tem um fator de lacração bem forte, no melhor estilo in your face para uma geração de millennials que não entendem metáforas, mas isso é só um incômodo. O que deixa a galera da antiga desconfortável mesmo é a ausência de otimismo, a falta da utopia de Star Trek, de um futuro onde a Humanidade evoluiu para além de ganância, mesquinharia e aprendemos a trabalhar em busca de crescimento pessoal e da sociedade.

Esses conceitos fora de moda remontam a tempos mais simples, eram apresentados na Série Clássica de Jornada nas Estrelas, e Seth MacFarlane pelo visto sentia muita falta desse tipo de históriaThe Orville foi vendida como série de comédia descarada, paródia de Jornada nas Estrelas, mas passado o piloto ela virou uma homenagem, uma espécie de fan film feito com todo o carinho do mundo.

Logo no segundo episódio já pegaram um tema cabeludo. Bortus, o “Worf” da Orville é um alien mal-encarado grandalhão de uma espécie que não tem fêmeas. Ele mora com um companheiro, e Bortus acaba engravidando, ou melhor, botando um ovo. Quando choca, uma revelação chocante (dsclp): a criança tem um raro defeito genético, nasceu fêmea.

Tradicionalmente no planeta dele esses casos são tratados com cirurgia e acompanhamento psiquiátrico, e a história toda gira em torno da menina ser uma aberração pra eles mas normal pra espécies com dois gêneros.

Em outro episódio eles encontram uma nave-colônia gigantesca com uma população que esqueceu suas origens, acham que estão em um mundo que é o centro do Universo, e criam toda uma teologia em cima disso.

No último episódio a tripulação da Orville vai à procura de dois cientistas que sumiram ao investigar um daqueles planetas misteriosamente semelhantes à Terra, explicados pelo baixo orçamento. No tal planeta todo mundo anda com um broche listando seus… pontos de internet.

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O planeta vive mais ou menos como a Terra do Século XXI, onde tudo é compartilhado nas redes sociais, as pessoas são avaliadas o tempo todo, seja por tratar mal um cliente, seja por derrubar café em alguém na rua. Um dos tripulantes da Orville sem saber fez uma graça com uma estátua, alguém filmou e subiu pra internet deles.

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Obviamente a Brigada dos Ofendidos achou um absurdo e começaram uma campanha de downvotes, logo o pobre tripulante foi preso pelo crime de ser impopular na internet. Com ajuda de um Assessor de Imprensa, fez o circuito de talk shows e programas matutinos, tentando se desculpar, mostrando seu sincero arrependimento e então tentar escapar da votação final, onde se levasse mais de 10 milhões de negativadas, passaria por uma espécie de lobotomia para extirpar “seu lado ruim” e se tornar um membro feliz da sociedade.

Os paralelos com a nossa realidade são descarados, em certo momento uma das tripulantes, usando um chapéu esquisito escolhido aleatoriamente é abordada por um sujeito OFENDIDÍSSMO pois aquele chapéu representava a cultura dele, ela não era do mesmo grupo, assim não dá, assim não pode…

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No final eles livram o tripulante hackeando a internet do planeta e postando um monte de informações falsas sobre o sujeito.

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Criaram vídeos falsos dizendo que o sujeito era veterano de guerra e tinha um cachorro, que foi um garoto gordo, que sustenta a avó… as pessoas começaram a repassar os tweets e a votação negativa começou a diminuir.

Em um determinado momento a médica da Orville pergunta pra alienígena que estava ajudando eles “Mas e se alguém resolver conferir se essas informações são verdadeiras?” a alien responde “Não se preocupe, não vão”.

Esse episódio foi, apesar da zoeira de sempre, um exemplo didático da boa ficção científica: pegaram um problema real, o transportaram para uma sociedade alienígena e o exageraram, para que ficasse mais evidente ainda. Todo dia vemos reações histéricas nas redes sociais, caças às bruxas, gente pedindo cabeça dos outros sem direito a defesa ou julgamento.

Muita, MUITA gente acharia perfeitamente válida essa distopia de poder condenar “criminosos” com um clique do celular, afinal nunca se deve duvidar da vítima. Em verdade não estamos muito diferentes da sociedade mostrada no episódio. Diariamente temos gente montada em cavalos altos apontando as Injustiças e Vilões do Mundo, com uma escala de prioridades louca.

Denunciar o Genocídio Rohingya? Nah, não gera pontos de lacração, já mostrar a indignação por causa de um papel higiênico preto? ISSO SIM faz com que a pessoa se sinta poderosa, digo, empoderada. Veja só, ela fez uma empresa, uma atriz da Globo pedir desculpas, e isso que importa no mundo moderno: alguém aparecer em um programa de TV pedindo desculpas.

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The Orville ocupou o nicho deixado por Star Trek; ninguém esperava que uma comédia do criador de TED e Family Guy faria a gente pensar, mas ele também foi a principal força por trás do novo Cosmos, e antes e acima de tudo ele é um geek que adora Star Trek.

No final conseguimos o melhor de dois mundos: uma série de Star Trek dark, visceral, explorando os limites da ética e os Ideais da Federação diante de uma guerra sem tréguas, e também temos uma série otimista, alegre, capaz de discutir problemas atuais sem cair na lacração, sem pagar lição de moral nem esfregar “verdades” na cara da gente.

Sem Star Trek que Orville é, Discovery não existiria. Todo aquele pessimismo dark só funciona por estar baseado em um tempo mais simples, de James Kirk e sua diplomacia de canhoneira, do Magro curando falência renal com uma pílula, de Scotty contornando as Leis da Física.

A relevância da crítica social de Jornada nas Estrelas se perdeu em Discovery, mas achou porto seguro em Orville. É uma grata surpresa, principalmente para as pessoas que não conhecem o trabalho de Seth MacFarlane e não entendem que sim, é possível fazer crítica social com humor.

Minha única e grata surpresa é descobrir que é possível fazer isso com Star Trek.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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