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Resenha: Marco Polo

Acompanhe nossa análise de Marco Polo, série épica que é a aposta mais audaciosa da Netflix

5 anos atrás

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Que a Netflix amadureceu a gente já sabe. Ela evoluiu de serviço que apenas distribuía filmes, séries e documentários via streaming para uma plataforma que produz seu próprio conteúdo (e vem muito mais por aí), fórmula de sucesso que foi copiada por seus rivais, desde a Amazon até a Sony.

Porém em dezembro a Netflix chutou o balde e lançou aquela que é sua obra mais ambiciosa: Marco Polo é um desbunde, um épico no nível de Game of Thrones — e quase tão cara quanto. Monte seu ger, acenda uma fogueira e acompanhe o que achamos da primeira temporada.

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Como fica evidente, a série narra as desventuras do explorador veneziano nos anos que serviu na corte de Kublai Khan, conquistador mongol neto do grande Gengis Khan, que havia estendido seus domínios sobre o norte da China e fundado a Dinastia Yuan. A série é inspirada nas histórias em que Polo descreveu em suas Viagens, tendo vivido na corte por 17 anos e percorrido boa parte do império.

Mas esse é apenas o pano de fundo. A série trata muito mais das particularidades de cada personagem e sua relação com o elemento mais perene da série: poder. Seja político ou militar, todos o almejam, o perseguem, farão tudo por ele, até conspirar contra seus entes mais próximos. Interessante notar também que pela primeira vez uma grande produção do tipo não conta com absolutamente nenhum ator ou atriz norte-americano; a Netflix se preocupou em escolher o elenco a dedo e não colocar pessoas de etnias divergentes em papéis grandes.

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Um ponto forte da série — e nisso a Netflix não poupou — é a riqueza de detalhes com que os costumes, figurinos e locações são exibidos, num esforço tremendo em reproduzir a China do século XIII. A atenção com os detalhes excepcional, há coisas como o trono de Kublai, que é ornamentado com tigres — um símbolo mongol — mas é de estilo chinês, que mostra a pluralidade de seu império. É sabido que o imperador abraçou muitas religiões e culturas, emulando o estilo de Alexandre, o Grande. Mas isso não era benevolência, mas uma forma de ser aceito caso conseguisse pôr em prática seu plano de conquistar o mundo inteiro. Correspondências que sobreviveram aos dias de hoje mostram que Kublai não via outros soberanos — como o rei da França e o papa — como iguais, mas desejava que eles fossem seus vassalos.

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Intriga é o que não falta. Polo é pego num jogo de interesses que envolve a corte de Kublai e o império Song ao sul, que o mongol deseja conquistar para unificar a China. Só que há uma bela pedra no caminho chamada Jia Sidao, o chanceler que faz de tudo para manter o poder que mantém em mãos, ao mesmo tempo que deseja pôr um fim aos bárbaros que invadiram sua Terra. Embora ele seja desenhado como o vilão, a série deixa claro que ninguém é santo ali — nem Kublai, nem seus entes mais próximos. Sexo e violência também permeiam a série, mas nenhuma cena foi colocada de forma gratuita.

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Uma coisa que é preciso destacar em Marco Polo são as atuações das mulheres na trama, em especial de duas: a primeira é Mei Lin, a concubina favorita do imperador Song e irmã de Sidao — foi através dela que o chanceler ascendeu do nada até os mais altos cargos do império. Ela não é só versada na arte do sexo, como é uma artista marcial esplêndida: a cena em que ela dá cabo de três soldados completamente nua para se safar de um estupro, com permissão do próprio irmão — é espetacular. E não tem nada de erótico nessa cena, é uma mulher lutando pela sua sobrevivência.

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Mas se Mei Lin é forte com os punhos, a imperatriz mongol Chabi é audaz com a língua. Dona de uma retórica impecável, ela exerce seu domínio sobre tudo e todos com uma sutileza e graça impressionantes (o mérito é todo da atriz Joan Chen, a Josie Packard de Twin Peaks. Sim, sou velho), mesmo sobre o próprio Kublai. Sim, enquanto o imperador é senhor dos homens em seu trono, ele se curva à sabedoria de sua esposa. Uma das melhores frases dela é a resposta a uma pergunta de seu marido, sobre o que a excitaria. Só digo isso.

Falamos da trama, de alguns personagens, agora falemos de ao menos um ponto fraco: a overpowerização de Marco Polo. Tudo bem que é um recurso para manter a série minimamente interessante, mas o veneziano se tornou em pouco tempo um artista marcial, arqueiro, cavaleiro, engenheiro e demonstrou outras diversas habilidades. É sabido que em suas viagens ele descreve já saber ao menos quatro línguas na época, mas daí a aprender kung-fu em pouco tempo, só se ele fosse o Neo.

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Aliás esse é outro ponto que pode ser negativo para alguns (a mim não incomodou): Marco Polo toma diversas liberdades artísticas em prol da narrativa. Há uma grande quantidade de wire-fu na trama, protagonizada principalmente pelo monge Cem Olhos (aqui outra curiosidade: o personagem original era um general, enquanto na série ele se tornou um monge taoísta cego). Como eu disse não é algo que incomoda a mim, mas outras pessoas podem achar isso algo desnecessário. Por fim, com exceção do último capítulo você não verá muitas batalhas: embora a temporada tenha custado incríveis US$ 90 milhões, há um certo limite do que pode ou não ser feito com a grana disponível.

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No fim, Marco Polo é a aposta mais ousada da Netflix em em sua empreitada para se tornar uma plataforma popular e acessível para todos, além de ser uma bela resposta à HBO: “não precisamos de Game of Thrones, faremos o nosso”.

Marco Polo - Trailer - “Verdade” - Netflix [legendado]

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