Prova #7,8819822×10^googol de que Brasil Odeia Ciência: astrônomos da USP passam sacolinha para ir a congressos

Uma vez, muito tempo atrás eu reparei a ala militante na UFF animada. Descobri que estava chegando o 12º (ou 23º, não lembro) Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, e era importante: iriam votar… o estatuto da entidade. SIM, 12 (ou 23) anos de encontros e não tinham votado nem o estatuto. Eficiência quase Soviética. A viagem, claro, na faixa bancada pela Universidade.

Enquanto eu brigava com o único 286 do laboratório de informática, não podia imaginar que a situação fosse de penúria para outras áreas, mas descobri que quanto mais “tecnicista” mais a área era odiada. O curso eletivo de Astronomia raramente era dado, por falta de alunos.

Hoje percebo que não era algo específico da militância, o desprezo brasileiro por Ciência é geral, vide a comédia da Base de Alcântara, o mico do Brasil na Estação Espacial, a Olimpíada Brasileira de Astronomia que precisou fazer vaquinha, os óculos de papelão doados para estudantes observarem um eclipse e retidos pela Polícia Federal, a cientista que fez vaquinha pra conseguir pesquisar uma espécie invasora.… a lista é enorme e deprimente.

Agora vamos piorá-la mais um pouco. Sabe o país que tem R$ 400 mil para pagar em um cubesat (de US$ 8 mil) que não funciona? Que gasta R$ 600 milhões na Area da Amazônia, um estádio que hoje serve a um campeonato estadual com 7 times? O país que tem navios de pesquisa parados enferrujando por falta de dinheiro e excesso de burocracia?

Pois é. Esse país deixa na mão cientistas como os do SAMPA (Stellar Atmospheres, Planets and Abundances), um grupo de pesquisa do Departamento de Astronomia da USP liderado pelo Prof. Jorge Melendez e composto por um pós-doutorando, três doutorandos, dois mestrandos e um aluno de iniciação científica (sim, copiei o parágrafo na íntegra, me processe).

Mesmo com todas as dificuldades eles fazem pesquisas e publicam. Só que parte importante do trabalho de um astrônomo é participar de congressos, trocar experiências e aprender com seus pares, e pra isso nunca tem verba. O jeito é, como sempre, passar a sacolinha.

Não, eles não querem fretar jatinhos e contratar o Neil DeGrasse Tyson para fazer massagens nos pés. Eles abriram um Kickstarter pedindo a imensa e obscena só que não quantia de… R$ 8 mil.

Não são 8 milhões de reais, nem mesmo são dólares. São OITO MIL reais.

Agora a prova de que o Brasil odeia ciência: a campanha foi aberta em 6 de julho, encerra 15 de setembro. Até o momento arrecadaram 9,63% da meta; um total de R$ 770,00. Se tivessem dito que era grana pra protestar contra o governo (qualquer governo) teriam bem mais que isso.

Oito Mil Reais. O Brasil não tem R$ 8 mil para mandar cientistas para congressos de Astronomia mas tem R$ 20 mil pra um sujeito fazer fanfic erótica em Salvador. Depois não sabem por que eu bebo.

Fonte: Jornal da USP, via Tuinto da MJ, que é ruiva mas não anda com aquele loser do Parker.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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