Como o Google conseguiu legalizar carros sem motorista?

johnnycab

Algumas vezes nossos nobres políticos demonstram agilidade e preocupação, propondo rapidamente Leis importantes para proteger o povo, mas o normal é que o processo de regulamentação envolvendo novas tecnologias seja longo, tedioso e restritivo. Nos EUA por exemplo foguetes lançados por amadores estão sujeitos a regras draconianas, que proíbem inclusive sistemas de navegação.

Em vários lugares os apps de táxi estão sendo simplesmente proibidos. Há casos onde cooperativas convencem políticos a banir as aplicações. Do outro lado, taxistas ingleses estão planejando uma greve contra o Uber, um aplicativo que conecta usuários a serviços de “motoristas de aluguel”, aqueles táxis que não são exaaatamente táxis.

Regulamentação de serviços envolvendo saúde leva anos. A Virgin Galactic só agora conseguiu autorização do FAA para realizar seus vôos turísticos espaciais. Já o Google, que nem tem um carro de verdade ainda vai botar aquelas pequenas abominações fofinhas rodando na Califórnia e em Nevada, amparados por toda uma legislação regulamentando carros autônomos. Como?

A conclusão lógica é de que a legislação já vinha sendo estudada, afinal carros autônomos não são novidade. Fora os modelos que funcionavam em comboio em estradas especiais, há vários outros experimentos. Em 2007 a BMW demonstrou no Top Gear um 330i com sistema de direção autônoma, como você pode ver no vídeo abaixo. P.S.: não repare no carro, é um protótipo então é horroroso. /s


KnightsBooking — Top Gear | New Self-Driving BMW 330i | 720p HD / HQ Sound

Qual o segredo do Google? A resposta é simples, mas em português soa sinistra e errada, coisa que não é: fazendo Lobby.

Nos EUA a figura do lobbista é legítima, todo mundo faz lobby, de taxistas a empresas de petróleo. Políticos fazem lobby. É comum prefeitos se unirem em campanhas para instalação de fábricas ou bases militares em seus distritos. Quando Hyman Rickover, o gênio por trás da frota nuclear de submarinos dos EUA anunciou que os novos barcos teriam nomes de Estados, ao invés dos tradicionais peixes, perguntaram o motivo. Ele explicou: “Peixes não votam”.

O que o Google fez foi digno de Frank Underwood. Em vez de esperar que os políticos propusessem uma legislação, eles mesmos correram atrás. Não na Califórnia, que é muito high profile, mas primeiro em Nevada, um Estado mais tranquilo.

A idéia foi de David Goldwater, lobbista em Nevada. Antes que algum acidente forçasse o Legislativo a agir, e para não correr o risco da imagem dos carros autônomos se tornar ruim como aconteceu com os drones, deveria convencer Nevada a regular uma indústria que ainda não existia.

O governador e vários outros políticos foram convidados a andar nos carros autônomos do Google, compraram a idéia e uma Lei autorizando seu uso passou tão rápido que a oposição não teve tempo de reagir.

Quando o DMV (o Detran deles) de Nevada foi escrever as normas para carros autônomos, usou o Google como consultoria. Isso mesmo, eles literalmente escreveram as regras que deveriam obedecer. Nas palavras de David Goldwater:

O bom sobre Leis é que se elas não existem você pode fazer uma — ou se existem e você não gosta delas, você pode mudá-las.”

Quando foi a vez da Califórnia, o Google foi atrás de Alex Padilla, senador estadual e engenheiro formado no MIT. O cara era entusiasta da tecnologia e comprou na hora o discurso de que carros autônomos salvam vidas e geram empregos. Com a legislação aprovada em Nevada na mão, ficava mais fácil convencer os políticos da Califórnia de que seria de interesse do Estado aprovar algo semelhante. Foi o que Padilla fez.

O lobby deu tão certo que em setembro de 2012 a legislação tornando legal carros autônomos na Califórnia foi assinada pelo governador. Na sede do Google.

Dessa vez a oposição estava de olho, e reclamou. Uma Associação de montadoras, alegando que da forma que estava a legislação tornaria os fabricantes legalmente responsáveis em caso de acidentes. Não adiantou, e até o final do ano as normas deverão estar no papel, e em 2015 os coalas atropelados do Google rodarão pelas ruas da Califórnia.

Simples, não? Surpreendentemente sim, mas há uma motivo. Do outro lado temos a Tesla, batendo cabeça em diversos Estados, onde por Lei é proibida de vender seus carros. Motivo? Uma Lei que servia para evitar monopólio e exigia que vendas fossem feitas através de concessionárias. No papel, lindo. Na prática se eu vendo 500 Chevys por dia não vou irritar meu fornecedor pra vender 1 Tesla por semana.

As montadoras querem matar a Tesla ainda na infância, os políticos estão felizes com as contribuições de campanha, e um carro decente sofre por causa disso. O problema não é o Tesla ser elétrico, ele não é odiado por isso. O problema é ele ser mais um fabricante.

No caso do Google, que não tem interesse em fabricar carros, não há oposição séria. Montadoras adorarão oferecer um Kit Google, por mais US$ 19 mil no preço do carro, e se “agora ele dirige sozinho” não é um pucta diferencial e convencimento para você trocar de carro, não sei o que é.

Na Europa a situação é mais complicada.


BMW highly automated driving mode.

Como você pode ver no vídeo acima, um horroroso (calma, é só um protótipo) BMW i3 roda numa Autobahn, e mesmo sendo só um experimento, coisa muito parecida está disponível AGORA pra quem entrar em uma concessionária e comprar um BMW. Por exemplo, um negócio chamado Traffic Jam Assistant, que é uma espécie de Jesus pro seu carro.

Esse co-piloto identifica que você está em um engarrafamento e, se você quiser, ele assume o controle, cuidando de todo aquele irritante anda-e-para. É um recurso disponível inclusive em outras marcas, como neste Audi:


Evans Electric — Audi’s autonomous cruise control – traffic jam assist

Espera-se que com tanta automação a Europa seja simpática aos carros automáticos, certo? Errado. A posição por lá é que primeiro vão esperar a tecnologia chegar, e são ferrenhos em que sob qualquer circunstância um humano deve poder assumir o controle do carro, a qualquer momento.

Isso mata, oblitera as pretensões do Google, cujo carro sequer tem volante e pedais. Os controles se resumem a um botão START e um botão “HELP hackearam meu carro e estão me mandando pro Acre”.

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BMW i3. Não repare, é só um protótipo.

Remover ao máximo o elemento humano da equação tende a dar certo quando todo mundo colabora, a quantidade de acidentes aeronáuticos hoje em dia é ínfima e quanto mais automatizado menos problema há, mas são condições controladas, onde todo mundo joga (ou voa) pelas mesmas regras. Um carro automático tem que lidar com um mundo analógico, que vai do policial mandando você encostar em uma blitz, a uma bola saltando no meio da rua. Será que o carro do Google foi programado com a regra de que atrás de uma bola sempre vem uma criança?

Pior ainda: se o sistema for realmente inteligente, como será programado para decisões morais? Se o carro sabe reconhecer uma pessoa no meio da pista, e sabe que ela é importante, saberá reconhecer 4 ou 5. Imagine que seu pneu furou, está em vias de perder o controle, indo em direção a um grupo de freiras e bebês órfãos albinos aleijados da Romênia.

O carro tem como Primeira Diretriz proteger a vida humana. Será que vai se jogar num muro, matando VOCÊ para salvar os bebês-freiras?

É uma questão filosófica sem uma resposta correta. Talvez no final das contas a Europa esteja certa e o Google errado. Decisões morais e éticas devem ficar a cargo de humanos, e carros 100% autônomos sejam um erro.

De resto, eu já tenho um carro 100% autônomo, se chama táxi.

Fonte: Wired.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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  • Edmilson_Junior

    A opção de ter um volante a disposição realmente me agrada mais do que ser totalmente dependente do carro, o volante seria mais para estacionar, parar na blitz, decidir que quero estacionar agora mesmo que ali não seja meu destino final e etc.

    • Mateus Azevedo

      Também acho que uma opção 100% automatizada como o do Google não é interessante. Eu sempre tomo decisões e altero minha rota/destino enquanto estou dirigindo, ter opção de tomar o controle é sempre bem vinda.

  • Carlos Magno GA

    Eu acho que carros autonômos serão muito úteis em estradas onde a presença humana não é esperada, como as highways americanas*. Na última milha em uma zona residencial, o motorista assume.

    * nunca entendi as estradas brasileiras. Você está a 110 km/h e tem que reduzir para 30 km/h (tops) por causa do quebra-molas, do pardal e do senhor que foi comprar pão do outro lado da rua. E as curvas daqui não tem inclinação, para permitir virar sem reduzir a velocidade.

    • Guest

      Quando o piloto automático foi implantado nos aviões décadas atrás, tiveram que esperar 30 anos para a tecnologia avançar e se tornar confiável o bastante para ser capaz de pousar um avião “sozinho”. E olha que pousar um A320 é mais fácil que estacionar um sedan. Hoje já querem tudo rápido, pra ontem. Geração fraca que acredita que propagandas e músicas bonitas transformam vidas.

  • Alcy2k

    Eu sou favorável a implantação dessas novas tecnologias.
    Mesmo com esses lobbys contrários, eu diria, que retarda mas não impedirá.
    Pneu furado não leva carro para cima de pedestres (talvez se estourasse). Ele costuma esvaziar bem devagar e que às vezes eu demoro a notar.

  • Guest

    s

  • Bruno Rocha

    “A posição por lá é que primeiro vão esperar a tecnologia chegar, e são ferrenhos em que sob qualquer circunstância um humano deve poder assumir o controle do carro, a qualquer momento.”

    E eles estão certos.

    Assim como em aviões comerciais, é possível o comandante desativar o piloto automático de forma rápida apenas movimentando o manche em caso de emergência.

    Automação é sempre bem vinda. Desde que não substitua o humano em situações críticas.

    Sugiro a todos que assistam a série Mayday Desastres Aéreos do Natgeo e Catástrofes Aéreoas no Discovery. Vocês vão se surpreender com as cagadas. Uma em especial, a queda do avião Turkish Airlines, onde por confiarem de mais no controles autônomos nem perceberam o avião fazendo cagada e se jogar fora da pista.

    Catástrofes Aéreas – Discovery Channel – Falha no Piloto Automático
    www . youtube . com/watch?v=3t4dbMbjJiw

    • Lucas Timm

      Eu adoro o May Day, geralmente assisto em finais de semana chuvosos como esse.

      O Fly by Wire foi uma das maiores invenções do século, no meu ponto de vista. Mas acredito que sim, o piloto precisa ser capaz de ter o controle da aeronave a qualquer momento durante o vôo. Não que eu queira comecçar uma guerra santa, mas isso é justamente implementado de maneira errada nos aviões da marca A, ao contrário da marca B. A marca A nunca dá controle total, além do envelope de vôo, para o piloto.

      E computadores não sabem se existe um sequestrador a bordo e você precisa fazer um tonneau.

  • Mais uma tecnologia que não pode vir pra cá, com ruas esburacadas e um monte de malucos no trânsito.

    De resto, um cara muito legal escreveu um artigo sobre uma pesquisa sobre máquinas com decisões éticas (jabá tá liberado?)

  • lordtux

    Acho bem melhor o carro ser igual ao do Nick Fury, você fica no controle quando quer, redundância sabe. Agora quanto a identificar elementos na estrada tão banais para um ser humano acredito que cedo ou tarde isso será superado, o google não comprou um monte de empresas de IA a toa, com certeza veremos o carrinho deles evoluir e muito.

  • tenfelipe

    Tem que ter a possibilidade do humano retomar o controle rapidamente sim, principalmente aqui no Brasil. Quando eu comecei a dirigir no Rio de Janeiro, vi a morte de perto duas vezes ao confiar cegamente no caminho indicado pelo GPS.

    • Carlos Magno GA

      Isso porque o GPS não tem a opção “evitar favelas”.

      • Alexandre Norberto

        O Waze tem…. sob o titulo: recomedações dos usuários

  • Angelo Terroso

    Acredito que elaborar um software de condução de carros, em que todos carros são conduzidos por este software, é muito mais fácil que um que permita a intervenção humana. Nunca se sabe o que uma pessoa pode fazer. Então, tentar prever todas atitudes, que podem ser tomadas frente a uma determinada situação, é muito mais difícil do que se as reações fossem conhecidas.
    Imagino, posso estar errado, que a estratégia do Google seja criar áreas exclusivas de condução de carros por software, provavelmente no centro de grandes cidades, com carros de uso público e não particular. Seria uma alternativa a ônibus, trens, táxis e ao mesmo tempo uma solução para os congestionamentos que costumam acontecer.

  • Hollander

    O carro tem como Primeira Diretriz proteger a vida humana. Será que
    vai se jogar num muro, matando VOCÊ para salvar os bebês-freiras?
    É uma questão filosófica sem uma resposta correta.

    Proponho que ele googleie no G+, Facebook e Twitter, decidindo, de acordo com o padrão de postagem, quem sobrevive.

  • Djalma Ribeiro

    Talvez no final das contas a Europa esteja certa e o Google errado? É claro que o Google ta errado! Estão lançando esse carro igual lançaram o Glass, sem ser a hora e por isso não vai pegar!

    Ta certo que esses produtos inovadores são bons pra despertar desenvolvimento de coisas melhores e estudar o mercado, mas por agora teria que ter muita inteligência pra conseguir andar sozinho por ai num ambiente “descontrolado”.

  • Marcelo Gr

    Com um carro totalmente autônomo não terei como andar sem rumo, explorando uma cidade que ainda não conheco direito. Também perderei minha liberdade de mudar de rumo a hora que quiser, diminuir a velocidade quando quiser pra poder dar ou pedir uma informação a outro motorista perdido, etc…

  • No fim acho que vão haver duas versões desses carros autonomos:

    – Uma sem volante e pedais, que será como o táxi (você entra, diz o destino e o carro faz o resto. Quando chegar você salta do carro e o carro vai embora para pegar o próximo passageiro).

    – Outra versão convencional, onde o motorista, se quiser, pode assumir o controle do carro e, quando quiser, pode deixar o carro guiar sozinho.

    Acho que todos vão conseguir conviver muito bem em ambos os casos… E em caso de acidentes, basta verificar o “log” do carro para ver exatamente o que aconteceu e apurar as responsabilidades. A culpa foi do pedestre? De outro carro? Foi do software do carro que não previu determinada situação? Foi uma falha mecânica?

    A resposta vai estar lá, em vídeo, de forma conclusiva… algo que não acontece hoje.

    • “- Outra versão convencional, onde o motorista, se quiser, pode assumir o controle do carro e, quando quiser, pode deixar o carro guiar sozinho.”

      Um dos carros da TESLA, é exatamente assim.

  • Glauber Silva

    Acho que se houver vias específicas para este tipo de veículo, não há problema. Em São Paulo o pessoal anda de metro na linha 4 sem condutor e ninguém reclama disso. A propósito, nos filmes, onde veículo assim são usados, são sempre vias onde só existe este tipo de veículo e feitas para que não exista a possibilidade de um pedestre entrar na frente.

    • Você quer reinventar o ônibus, mas pequeno?

      • Glauber Silva

        Não, só não acredito que todo mundo vai querer andar de ônibus no futuro. Privacidade é algo que as pessoas não irão abrir mão e pagarão pra ter , mesmo se esta for ilusória.

  • Cacio Frigerio

    Levantou questões que nem havia pensado.. interessante cardoso parabéns..

    agora a parte do ” grupo de freiras e bebês órfãos albinos aleijados da Romênia” foi épica uhaauhuh

  • Cacio Frigerio

    O Google só esta se adiantando.. quem viu o EU ROBO? O futuro é aquilo la.. carros autônomos mas sempre com a opção do modo manual… como os aviões…

    Acho que o lance de não oferecerem pedal e volante é uma forçação de barra para mostrar que eles tem tecnologia ATÉ para isso.. mas o que vai pegar mesmo é o sistema como um assistente….

    • Carlos Magno GA

      Sim e será muito bom. Muita gente que não gosta de dirigir por ser cansativo poderá aproveitar a viagem e só pegar os trechos mais importantes.

      Fico pensando se, com isso, os carros terão uma aparência interna mais próxima de uma sala de estar que de um cockpit.

  • Num acidente envolvendo mortos, a culpa é de quem ?

    Empresa responsável pelo software ?

    Empresa responsável pelo hardware ?

    “Motorista” que não retomou a tempo o volante ?

    Pode soar muto retrógrado, mas não vejo com bons olhos essa postura do Google estar presente na minha vida em tantos aspectos.

    • Franklin Weise

      Um dos pontos do Cardoso é justamente este: o Google se adiantou e criou uma legislação antes do produto ser comercializado. Não tem jeito: novas tecnologias exigem novas leis. E o Google se adiantou. Certíssimos eles.

  • Me estranha o Google tirar o volante do carro. Eu esperaria isso num carro da Apple.

  • Falando sério agora: “senador estadual e engenheiro formado no MIT. O cara era entusiasta da tecnologia”

    Eu gostaria de ver senadores e políticos em geral entusiastas em tecnologia. Não precisa nem ser engenheiro.

  • Firmo

    Quando um carro desses matar um cidadão, quem vai ser responsabilizado, fiquei curioso…

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  • Ruy Acquaviva

    Do jeito que eu vejo certas pessoas dirigindo por aí, um carro sem motorista seria um ganho de qualquer forma.

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