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Apple: Reino Unido quer acesso total ao iCloud

"Pedido" do Reino Unido à Apple não se restringe a criptografia; acesso se estende a tudo que todo mundo armazena no iCloud

39 semanas atrás

Recentemente, o governo dos Estados Unidos divulgou que o Reino Unido havia desistido de exigir uma "porta dos fundos" nos dados criptografados de usuários do iCloud no país, uma medida que autoridades locais queriam que fosse estendida a todos os usuários da Apple, não importa em que lugar do planeta estejam.

No entanto, segundo documentos acessados pelo Financial Times, os "homens do rei" não só fizeram os americanos de idiotas, ao não terem alterado seus planos em nada, como a ordem de acesso é mais abrangente, e se refere a tudo que todo mundo armazena no serviço da maçã, de conversas a arquivos de mídia, e até senhas.

Os "homens do Rei" querem acesso a tudo que você guarda no iCloud, não importa de que lugar do mundo você seja (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Os "homens do Rei" querem acesso a tudo que você guarda no iCloud, não importa de que lugar do mundo você seja (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Apple vs. Reino Unido, Round 2

Vamos recapitular: a Lei de Segurança Online do Reino Unido, que entrou recentemente em vigor, exige que plataformas digitais operando no país implementem uma série de medidas para combater o abuso infantil (a justificativa oficial), como sistemas de verificação de idade em serviços, redes sociais, games, e qualquer outra plataforma com conteúdo adulto.

A lei britânica é bem similar ao ECA Digital brasileiro, às diretivas da Lei de Serviços Digitais da União Europeia (UE), e a iniciativas de alguns estados dos EUA, logo, uma tendência global.

Outra medida obrigatória, e uma das mais controversas, é a exigência de uma backdoor em sistemas de comunicação, incluindo mensageiros instantâneos com criptografia de ponta a ponta, como Telegram, WhatsApp e afins, algo tido como impossível, pois os usuários detêm as chaves, mas os legisladores não querem saber, e mandaram as empresas se virarem.

Estas devem permitir o acesso, por oficiais do governo, a conteúdos e mensagens em qualquer plataforma, protegida ou não, e a porta de acesso deve ser protegida a todo custo, o que por si só é contraditório, se há uma vulnerabilidade ela será explorada por hackers, mais cedo ou mais tarde.

Profissionais de segurança e grupos de defesa dos direitos humanos são contra medidas do tipo, ao verem a Lei de Segurança Online britânica como a implementação de um estado global de vigilância por padrão, pois ela não se restringe a acessar dados apenas de cidadãos do país; ao invés disso, sob a desculpa de combater a pedofilia e o terrorismo, agentes do governo devem ser permitidos acessarem todos os dados de qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, a qualquer momento.

Confia (Crédito: Nate Beeler/The Columbus Dispatch)

Confia (Crédito: Nate Beeler/The Columbus Dispatch)

Tão logo a lei entrou em vigor, o Reino Unido mirou na Apple, a empresa mais valiosa do mundo, como um óbvio alvo primário: a companhia deve permitir acesso total aos dados criptografados pela Proteção Avançada de Dados (ADP) dos usuários globais de serviços como iMessage, FaceTime e iCloud, e dentro do prazo especificado, mesmo recorrendo da decisão.

Em fevereiro de 2025, a maçã removeu o serviço completamente do Reino Unido em resposta, mas isso não satisfaz a lei, que também a proíbe de informar os usuários, ou outros governos, de que os dados foram acessados por oficiais locais; a Apple também questiona formalmente a medida desde março.

Aconteceu o óbvio, o governo do presidente Donald Trump, no que tange aos cidadãos norte-americanos, entendeu a medida como espionagem, até porque membros dos Três Poderes poderiam também ser monitorados, dada a abrangência da Lei de Segurança Online.

Tulsi Gabbard, a diretora de Inteligência Nacional (órgão que supervisiona a CIA, a NSA, o NRO, e vários outros órgãos similares), ficou responsável de conduzir negociações com o parlamento britânico, que também envolveram Trump, e o vice-presidente J. D. Vance. Em pauta, a revogação de espiar os ianques, sob qualquer circunstância, e deixar a Apple e outras companhias americanas fazerem seus negócios em paz.

Em agosto de 2025, Gabbard comemorou no X o sucesso da negociação:

Porém, um documento submetido pelo Tribunal de Poderes Investigativos (IPT), uma corte independente que lida com queixas direcionadas às agências britânicas de segurança, revela que Gabbard, Trump e Vance foram basicamente feitos de otários: segundo o Financial Times, os procedimentos seguem normalmente seu curso, com o Ministério do Interior ainda buscando acesso irrestrito aos dados do ADP, que a Apple se recusa veementemente a liberar.

Só que a denúncia vai além: conforme o site, a backdoor não se limita ao ADP, mas deve também "fornecer e manter a capacidade de divulgar categorias de dados armazenados em um serviço de backup em nuvem", basicamente tudo dentro do serviço padrão do iCloud, de todos os usuários em todo o mundo.

Muito provavelmente os alvos prioritários são mensagens e senhas, mas a exigência não se limita aos dois casos, e pode incluir arquivos de mídia diversos, sejam de texto, áudio, ou vídeo, e não custa nada lembrar, a Apple foi pega para Cristo primeiro para servir de exemplo às demais.

A Lei se aplica a todas as companhias tech, do Google a Microsoft e Amazon, do Meta ao X, do TikTok ao Telegram, da Valve e Epic Games a Sony e Nintendo.

Documentos mostram que Reino Unido quer acesso não apenas a dados criptografados das contas Apple dos usuários em todo o mundo (Crédito: Reprodução/Apple/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Documentos mostram que Reino Unido quer acesso não apenas a dados criptografados das contas Apple dos usuários em todo o mundo (Crédito: Reprodução/Apple/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Qaundo questionado pelo Financial Times, o governo do Reino Unido apenas declarou que não comenta sobre "assuntos operacionais", o que inclui "confirmar ou negar a existência" da notificação técnica submetida à Apple em primeiro lugar; a maçã, por sua vez, se recusou a comentar sobre o assunto, até porque é proibida legalmente de fazê-lo.

Até o momento da publicação deste post, Trump, Vance, e Tulsi Gabbarg não haviam comentado nada nas redes sociais sobre os mais recentes desdobramentos do caso.

Fonte: Financial Times

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