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Apple pressionada por acusar governo da Índia de hackear jornalistas

Anistia Internacional confirma presença de spyware em iPhones de jornalistas; governo da Índia tentou forçar Apple a amenizar críticas

28/12/2023 às 10:26

A Apple e a Índia não estão se dando muito bem recentemente. Em outubro de 2023, a companhia alertou jornalistas e membros-chave da oposição ao primeiro-ministro Narendra Modi, de que seus iPhones estariam sendo alvos de ataques com spywares orquestrados por grupos ligados ao gabinete. O governo nega.

Agora o caso ganha novos nuances: não só a Anistia Internacional confirmou as acusações da Apple, ao ter identificado o spyware Pegasus em aparelhos de jornalistas, como o governo teria pressionado a companhia a "pegar leve", o que está sendo entendido como admissão de culpa.

Apple e Índia estariam se desentendendo pelo governo hackear iPhones de jornalistas e opositores (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Apple e Índia estariam se desentendendo pelo governo hackear iPhones de jornalistas e opositores (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Apple vs. Índia

As acusações de que o governo da Índia invade e espiona dispositivos de desafetos não é nova. Por anos, denúncias de que o gabinete de Modi (que como bom líder populista, usa a máquina pública a seu favor e vem sistematicamente minando expressões críticas e de oposição, na imprensa e no meio acadêmico) vem usando o Pegasus, um spyware desenvolvido pela companhia israelense NSO Group, para ficar de olho em juristas, jornalistas, e políticos da oposição.

A NSO nunca admitiu ter feito negócios com a Índia, oficialmente o Pegasus foi criado para coletar dados de iPhones e dispositivos Android de criminosos (ele faz parte das ferramentas anti-crime da polícia israelense e alemã), mas, na prática, ele foi identificado em uso por governos de países como Azerbaidjão, Hungria, Armênia, Egito e El Salvador, entre outros, contra jornalistas e a oposição. Ele também já foi usado por hackers marroquinos contra o presidente da França, Emmanuel Macron, no que o governo local nega envolvimento.

Membro do BRICS, a Índia é o maior país dentre os identificados com o governo empregando o Pegasus contra sua própria população. As primeiras denúncias datam de 2021, por um processo do Meta por espionagem dentro do WhatsApp. Dados de jornalistas, ministros, jornalistas e opositores foram inclusive encontrados no banco de dados do NSO; outros casos incluem o monitoramento de uma ex-funcionária da Suprema Corte, que acusou o jurista Ranjan Gogoi, então Chefe de Justiça da Índia, de assédio sexual.

O gabinete de Narendra Modi nunca admitiu o uso do Pegasus, mas a Apple não só tinha evidências de que usuários de seus aparelhos vinham sendo hackeados no país, como decidiu que não ficaria quieta quanto a isso, e começou a enviar alertas via e-mail a potenciais alvos, como o parlamentar e líder da oposição Rahul Gandhi e membros de sua equipe, os jornalistas Siddharth Varadarajan e Sriram Karri, e Samir Saran, presidente da Observer Reaserch Foundation (ORF), entre outros.

Só que segundo reportagem do The Washington Post, com base em depoimentos de fontes próximas, um dia após a Apple disparar a mala direta com os avisos, autoridades ligadas a Modi questionaram a companhia sobre a veracidade das acusações, e abriram uma investigação contra a maçã, com algumas características curiosas.

Oficialmente, o processo do governo contra a maçã pelo gabinete do primeiro-ministro por questões de segurança de seus dispositivos; aos olhos do público, a gigante de Cupertino teria caído na malha fina das autoridades por não zelar pela proteção dos dados de seus cidadãos. Porém, o processo possui um lado oculto, a real motivação para a empreitada.

Tim Cook durante inauguração da primeira Apple Store indiana em Mumbai, em abril de 2023 (Crédito: Indranil Aditya/Bloomberg/Getty Images)

Tim Cook durante inauguração da primeira Apple Store indiana em Mumbai, em abril de 2023 (Crédito: Indranil Aditya/Bloomberg/Getty Images)

Conforme as fontes, oficiais pressionaram a Apple a "encontrar uma maneira" de suavizar as críticas e denúncias feitas contra o governo da Índia, no que eles estariam "furiosos" com a situação, e muito provavelmente, Narendra Modi também. A empresa teria sido "aconselhada" a encontrar uma desculpa qualquer para "diminuir o impacto político" causado pelo envio dos alertas a opositores e jornalistas, e a dar um motivo alternativo para que os mesmos tivessem sido emitidos, sem culpar o governo.

O recado dos oficiais indianos teria irritado a cúpula da Apple em Cupertino, mas a empresa não se alinhou totalmente às exigências do gabinete de Modi. Embora a maçã tenha inicialmente emitido uma declaração pública, dizendo que parte dos alertas enviados "poderiam ser alarmes falsos", foi só isso mesmo que ela fez.

Agora a Anistia Internacional, ONG de defesa dos direitos humanos, afirma ter analisado iPhones de jornalistas proeminentes da Índia, todos críticos de Modi, e encontrado o spyware Pegasus neles, conferindo credibilidade às denúncias anteriores. Donncha Ó Cearbhaill, chefe de Laboratório de Segurança da organização, afirma que a estratégia é "mais uma ferramenta de opressão" do governo contra dissidentes e opositores, aliada a "prisões sob leis draconianas, campanhas de difamação, assédio, e intimidação".

A maçã tem duas Apple Stores na Índia, uma em Mumbai e outra em Nova Déli, e a intenção de mover 25% da linha de produção do iPhone para o país, mas ao que parece, Tim Cook e sua equipe não têm a intenção de sacrificar a confiança de seus usuários em seus produtos, se sujeitando a determinações do governo para espiar seus dispositivos e afetar membros da oposição e jornalistas, apenas para crescer. Claro que há casos e casos, é provável que a Índia não tenha um acordo tão bom a companhia.

De qualquer forma, o caso ilustra até onde o governo indiano está disposto não só para ficar no pé de opositores e críticos de Narendra Modi, como para maquiar tudo em volta de suas ações e apagar seus rastros. Infelizmente para os envolvidos, a Apple não quis jogar junto desta vez.

Fonte: The Washington Post, Amnesty International

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