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Coronavírus já afeta 57% da indústria brasileira de eletrônicos

Produção do setor de eletrônicos no Brasil deve cair cerca de 22% no 1º trimestre; coronavírus prejudica metas e cadeia de suprimentos

24/02/2020 às 9:30

Os efeitos do coronavírus na China continuam se intensificando no Brasil: em um novo estudo, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) afirma que o surto prejudica a cadeia de suprimentos de 57% das indústrias do setor, cinco pontos percentuais a mais do que o constatado na última pesquisa, realizada duas semanas antes.

Linha de montagem de notebooks da Positivo / coronavírus

A Abinee ouviu representantes de 50 empresas do setor de elétricos e eletrônicos; segundo a pesquisa, as mais afetadas são sem muita surpresa as manufaturas de produtos de Tecnologia da Informação, como celulares e computadores em geral, entre outros, mas os efeitos do coronavírus já se alastraram para todas as companhias que dependem da cadeia de suprimentos chinesa.

Sem componentes para produzir novos produtos, 4% das empresas ouvidas já operam com paralisação parcial de suas linhas de montagem, enquanto 15% programam fazer o mesmo já nos próximos dias; nenhuma cogita interromper totalmente os trabalhos, embora haja a possibilidade disso acontecer. Ao mesmo tempo, 54% das companhias ainda não cogitam parar a produção, mas tal decisão depende de por quanto tempo a crise continuar.

Das empresas, 17% não serão capazes de atingir a produção prevista para o primeiro trimestre de 2020, e projetam uma queda de 22% nos números dentro do período. 50% acham que a meta deverá ser alcançada mesmo com a redução no suprimento, e 33% acreditam que ainda não é possível fazer tal projeção.

Linha de montagem de desktops / coronavírus

A pesquisa aponta que, caso a cadeia de suprimentos chinesa seja restabelecida, levará cerca de 2 meses para a produção nas fábricas brasileiras ser normalizada; a grosso modo, haverá um desabastecimento principalmente de celulares Android, desktops, notebooks e em menor grau, TVs e outros eletrônicos.

Com uma menor oferta, mais custos em busca de suprimentos por vias alternativas, a alta desenfreada do dólar e uma demanda mesmo que estável, a tendência é que os preços ao consumidor subam. Aliás, vários leitores do Meio Bit relataram no último texto (sobre a interrupção na produção da Samsung e Motorola) que já é possível notar uma alta generalizada em produtos do setor, provavelmente uma reação preventiva do mercado varejista.

Coronavírus expôs dependência da China

Segundo Humberto Barbato, presidente executivo da Abinee, o surto de coronavírus expôs o calcanhar de Aquiles do mercado global de eletrônicos: uma dependência total das linhas de montagem e rede de suprimentos da China, estabelecida graças aos pesados incentivos de Pequim a montadoras (como Foxconn e Pegatron) e suas inúmeras parceiras.

Com o custo homem-hora do trabalhador chinês sendo um dos mais baixos do mundo (sem mencionar que a mão-de-obra local é bastante explorada, com aval do governo), todas as grandes e médias companhias fecharam com o País do Meio, de modo a reduzir ao máximo os custos de produção e maximizar os ganhos.

Hoje, 42,2% de todos os componentes usados por empresas de eletrônicos brasileiras vêm da China, com outros países da Ásia (exceto Oriente Médio) respondendo por 38,3%; na sequência temos União Europeia (9%), Estados Unidos (5%), países da ALADI (4,2%, com Argentina respondendo por 0,2%) e outros países (1,3%).

Fábrica da Foxconn em Shenzhen

Nas palavras de Barbato, o coronavírus "acendeu um sinal de alerta" para toda a indústria brasileira que depende de materiais chineses, por expor "um alto índice de vulnerabilidade". De fato, bastou um problema no principal fornecedor e todo o sistema ficou em frangalhos, no Brasil e no resto do mundo.

Barbato acredita que o caso faça as empresas voltarem a pensar na produção local de componentes, algo que sendo bastante realista, não vai rolar. O Brasil carece de qualificação e sequer possui uma cadeia específica para isso, logo, este é um investimento para vários anos, mas que precisa começar de algum lugar (não vai).

O mais realista para o Brasil seria contar com fornecedores alternativos, como Taiwan e Índia, mas qualquer medida tomada se refletirá num maior custo de produção, e como consequência, na elevação dos preços, que podem não voltar ao patamar anterior. Vide o que aconteceu com os HDs e SSDs, que levaram anos para voltarem a valores civilizados.

Com informações: Abinee.

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