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Grosseria define: Russos usam bomba atômica pra apagar incêndio

Em 1966 os soviéticos usaram uma explosão nuclear para apagar um incêndio. Parece exagero, mas funcionou. O que não quer dizer que foi uma boa idéia.

19/01/2020 às 18:41

A engenharia sempre achou grande utilidade pra coisas que explodem, e poucas coisas explodem melhor do que armas nucleares. Nos EUA o Projeto Plowshare (que detalhei neste artigo aqui) estou a possibilidade de colocar dispositivos nucleares a serviço do Bem, já os russos partiram direto pra prática.

O projeto Plowshare (Arado) tem seu nome derivado de uma citação bíblica:

Eles transformarão as espadas em arados e as suas lanças em foices. Nunca mais as nações farão guerra. (Isaías 2: 2-4)

Toda tecnologia militar eventualmente reverte para a sociedade civil, mesmo as mais secretas, como radar. Seu Waze de cada dia só existe por causa de um bando de generais nos Anos 70, que exigiram um sistema de navegação insanamente preciso usando uma caríssima constelação de satélites.

Mesmo a energia nuclear reverteu para a sociedade (não como em Chernobyl, não faça essa piada), de projetos de reatores civis usando a experiência de décadas de projetos de reatores navais a exames de tomografia, tratamentos específicos radioterápicos e um equipamento médico que parece ter saído direto da mente de Tony Stark e Bruce Banner, a Faca Gama:

Nos Estados Unidos foram detonados 31 artefatos nucleares entre 1961 e 1977, todas em áreas de testes, os objetivos foram de testar produção de vapor para aquecimento e geração de energia à criação de radioisótopos para uso em medicina. Havia projetos de usar explosões nucleares para criar um porto no Alaska e um segundo canal entre o Atlântico e o Pacífico, na Nicarágua.

Na prática a opinião pública não gostou nada da idéia, e as detonações mostraram que a contaminação radioativa era inaceitável, gás natural é bom mas não quando faz sua comida brilhar no escuro.

Já na União Soviética...

Bem, uma das vantagens de ser um regime comunista baseada na ditadura do proletariado é que você pode se lixar pra opinião pública e fazer o que quiser, e os russos entraram com tudo no programa #7, ou "Explosões Nucleares para a Economia Nacional", e como eles não acreditavam em desperdiçar uma boa ogiva nuclear em um teste, usaram as detonações com fins práticos, sem se preocupar em mantê-las em "áreas de testes".

O programa usou explosões nucleares para um monte de aplicações. Cinco delas envolveram o uso de explosões para apagar incêndios em poços de gás ou petróleo. A técnica em si não é nova, mas costuma-se usar explosivos convencionais para criar um vácuo, privando o fogo do oxigênio.

No caso a técnica era diferente. Uma ogiva nuclear é baixada em um fosso escavado paralelo ao poço em chamas. A explosão subterrânea esmaga as tubulações, ao invés de privar o fogo de oxigênio, ele é privado de combustível.

O primeiro teste ocorreu em 1966, quando os engenheiros soviéticos desistiram de tentar apagar um fogo no campo de Urta-Bulak, no Uzbequistão, que estava em chamas desde 1963. Isso mesmo, a eficiência estatal soviética deixou um campo de gás pegar fogo por TRÊS ANOS.

O experimento envolveu projetar uma bomba que funcionasse em temperaturas bem acima de 100 graus Celsius, e tivesse três metros de comprimento e um máximo de 24cm de diâmetro, para caber o buraco que os engenheiros eram capazes de furar.

Um artefato de 30 Kilotons, o equivalente a duas Hiroshimas foi detonado a 1,5Km de profundidade, e em 23 segundos, o fogo apagou.

No total foram cinco explosões para apagar incêndios em campos de gás, nem todas bem-sucedidas, mas o programa soviético era bem mais ambicioso, eles detonara 115 artefatos nucleares, para prospectar campos petrolíferos, criar espaços subterrâneos para armazenar gás, triturar carvão e minerais e identificar padrões de contaminação radioativa.

A falta de preopcupação com consequências ambientais gerou vários desastres, inclusive na região de Vilyuv, na Yakutia, quando Moscou decidiu diversificar a economia local, e além de criar lactobacilos passariam a explorar diamantes, que seriam trazidos à superfície com uma explosão nuclear.

A explosão explodiu, trouxe pra superfície pouquíssimos diamantes mas contaminou tudo com um monte de Plutônio.

Na região de Galkino uma detonação de testes de 2,5 Kilotons vazou gases altamente radioativos, que ameaçaram contaminar o rio Volga.

O ápice do programa soviético de detonações nucleares para fins "pacíficos" envolve este lugar:

É o Lago Chagan, no Casaquistão. Ele nasceu em Janeiro de 1965, como um teste para a criação de reservatórios usando armas nucleares. Uma detonação de 140 Kilotons a 178 metros de profundidade criou uma cratera com 400 metros de diâmetro, 100 metros de profundidade e volume de 10 milhões de metros cúbicos.

Assim como todos os outros testes, os russos disseram que não havia problema com radiação, que tudo estava perfeito e seguro. Na prática a maioria dos projetos foram abandonados discretamente por contaminação, e até hoje nada consegue viver no Lago Chagan, um lago que nasceu morto e radioativo.

Lagos assim eram a especialidade dos russos, que o diga o Lago Tiaga, na Rússia Central, que deveria ser parte do Canal Pechora–Kama. O experimento testou se era viável construir um canal usando explosões termonucleares. Foram instalados três artefatos de 15 Kilotons, detonando em sequência. A explosão resultou em uma cratera de 600 metros de comprimento.

Fazendo as contas os soviéticos viram que não era economicamente viável construir canais de dezenas de quilômetros dessa forma, então fizeram o que era padrão: Disseram que não havia nada a temer, colocaram uma cerca de metal em volta do lago e abandonaram o lugar. Em 2009 uma expedição científica ainda identificou contaminação radioativa na região.

Assim como todo império a União Soviética deixou sua marca no planeta, infelizmente essa marca é uma cicatriz muito feia, que levará gerações para ser apagada, e se algo de bom pode ser tirado disso tudo, é a lição de que ambição desenfreada é danosa pra todo mundo, e pro mundo.

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