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Quando os EUA pediram ajuda aos Navajos para derrotar o Homem Branco Maluco

Durante a 2ª Guerra os EUA usaram um código indecifrável que deixou os inimigos de cabelo em pé, mas não era via computar, e sim via... Navajos

21/11/2019 às 16:50

"Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas..."

Sun-Tzu

navajos code talkers

Munição ajuda, mas a maior arma em uma guerra é e sempre será a Informação. Não é exagero dizer que um jogador de Age of Empires bem assessorado e com um drone desses da DJI venceria qualquer batalha contra qualquer general da antiguidade, tipo César ou Alexandre. Conhecer as intenções do Inimigo é essencial.

Nenhum exército existe sem batalhões de reconhecimento avançado, isso vale pras tropas modernas, e vale para o Brasil na Guerra do Paraguay, quando fomos pioneiros no uso de balões de observação, para azar do Solano Lopez.

A informação precisa ser repassada de forma rápida e eficiente. Antes da invenção do rádio isso era feito com mensageiros, o que era complicado, havia o risco da mensagem ser interceptada pelo inimigo. A solução? Criptografia, mas isso criava um problema: Tempo.

Encriptar uma mensagem demanda conhecimento e tempo, algo nem sempre disponível na frente de batalha, e quando o inimigo está despejando chumbo na sua cabeça, cada minuto é importante.

Isso ficou evidente na Segunda Guerra Mundial, quando ação imediata era necessária, e as linhas de frente eram fluídas demais para uso de telefones de campanha.

Tropas precisavam requisitar ataques de artilharia, reforços e munição com agilidade, mas se fizessem isso por rádio o inimigo imediatamente interceptaria a transmissão e saberia que a tropa estava com problemas, ou o local do próximo ataque, dando tempo para as unidades se moverem ou se prepararem pro fogo inimigo.

Nesse caso havia duas alternativas: enviar as mensagens via portador até um posto de comando regional, e de lá transmiti-las para o Quartel-General, ou então usar cifras para encriptar as mensagens e então transmiti-las por rádio. As duas formas consumiam bastante tempo, pois nos Anos 40 não havia equipamentos de criptografia portáteis, e de qualquer forma as máquinas criptográficas dos americanos, conhecidas como SIGABA eram valiosas demais pra serem usadas na frente de batalha.

Uma alternativa que já havia sido ensaiada algumas vezes acabou caindo nas graças do Comando, e trazia o potencial de ser extremamente ágil E extremamente segura, usando um método que em tecnologia da informação a ente chama de Segurança por Obscuridade. Ao invés de máquinas complicadas ou cifras, seriam utilizados nativos americanos, com idiomas que fazem parte de grupos linguísticos próprios, sem conexões com outras línguas.

São idiomas notoriamente difíceis, sem uma linguagem escrita, repletos de dialetos que soam completamente diferentes para quem não tem profundo conhecimento do idioma-base. As chances de haver um japonês sequer fluente em Navajo, Choctaw, Cherokee, Assiniboine, Comanche ou Cree eram virtualmente zero, e haver um em cada teatro de batalha local? Menores ainda.

Esse tipo de codificação foi usado em projetos-piloto ainda na Primeira Guerra Mundial, mas se tornou realmente ambicioso na Guerra do Pacífico, que exigia respostas bem mais ágeis.

veteranos navajos

Índios de dezenas de tribos se alistaram como voluntários, tornaram-se aviadores, soldados e fuzileiros, arriscando-se na frente de batalha, e sua contribuição foi essencial. O Major Howard Connor, da 5ª Divisão de Fuzileiros Navais foi taxativo:

"Se não fosse pelos Navajos, os fuzileiros nunca teriam conseguido tomar Iwo Jima"

A Batalha de Iwo Jima

Situada a 1100Km do Japão, Iwo Jima é uma ilhota vulcânica com 21Km2 de área, desabitada e que só entrou para história por estar no meio do caminho, e ser um excelente ponto de apoio para bombardeiros atacando o Japão.

O resultado foi uma das maiores batalhas da Segunda Guerra, que envolveu do lado americano 110 mil tropas e mais de 500 navios. Os japoneses por sua vez fortificaram a ilha com 21 mil homens, canhões de grosso calibre, tanques e minas, além de uma decisão de lutar até o último homem. Qualquer outro exército se renderia depois de 6 horas de bombardeio naval que literalmente cobriu a ilha inteira.

No final foram 28 dias de combate, onde os EUA perderam 6.821 combatentes, ficaram com 19.217 feridos e um porta-aviões foi afundado, mas a batalha foi vencida, pois os pelotões conseguiam pedir reforços e coordenar ataques aéreos com extrema agilidade, graças ao trabalho dos Code Talkers.

Os japoneses ficavam malucos sem entender nada do que estava sendo dito abertamente no rádio. As mensagens eram codificadas em menos de 20 segundos e levavam até 10 minutos para chegar a seu destino (dado o alcance dos rádios da época era preciso que a mensagem fosse retransmitida entre vários postos). No método antigo, o tempo entre envio e recebimento podia chegar a uma hora, se fosse necessário codificar o texto.

O Código

Havia dois códigos principais: Um era de substituição simples, semelhante ao alfabeto fonético (Alfa, Bravo, Charlie...) Uma letra, W por exemplo era substituída por uma palavra em Navajo, Asdzání, que significa... Woman.

O outro método era simplesmente falar no canal aberto, com a confiança que os japas não entenderiam o idioma. E claro, havia codinomes para termos que não existiam diretamente nos idiomas indígenas:

  • Submarino - Peixe de Ferro
  • Bomba - Ovo
  • Encouraçado - Baleia
  • Bombardeiro - Pássaro Grávido
  • Metralhadora - Máquina de costura
  • Adolf Hitler - Homem branco maluco

Os Code Talkers eram valiosíssimos e os fuzileiros os protegiam com suas vidas, tanto que dos 100 que fizeram parte da invasão de Iwo Jima, somente três morreram durante o combate. Já entre os fuzileiros em geral a média era de uma baixa a cada três que participaram da ação. Em toda a guerra dos 400 índios usados nos mais variados teatros de operação, somente 10 morreram em ação.

Eles foram usados também na Europa, mas em menor escala. 14 comanches participaram do Desembarque da Normandia, mas havia o medo que os alemães conhecessem os idiomas, pois após a Primeira Guerra Mundial Berlim mandou 30 antropólogos para os Estados Unidos, com objetivo de estudar o idioma Navajo.

O que Washington não sabia é que os alemães não conseguiram se entender com os dialetos, e desistiram dizendo que o idioma dos índios era difícil demais.

Acabada a guerra, como já é tradicional acontecer, os índios foram prontamente esquecidos, voltaram para suas reservas, sem direito a nenhum dos benefícios dos veteranos, como linhas de crédito para educação, assistência médica ou mesmo um obrigado, esparro.

A coisa só começou a mudar em 1982, quando Ronald Reagan criou o Dia Nacional do Code Talker, mas só em 2001 George W Bush outorgou aos veteranos Navajos a Medalha de Ouro do Congresso. Mesmo assim somente cinco dos 29 Navajos condecorados estavam vivos.

Em 2017 só restavam 13 sobreviventes, cinco dos quais foram homenageados na Casa Branca, infelizmente Trump aproveitou para espetar uma inimiga política e deixou claro que não fazia ideia do que os Code Talkers haviam feito. Um último gesto de ingratidão a um povo que deu o sangue por seu país e, com sua língua e cultura, criaram o único código da Segunda Guerra Mundial que nunca foi quebrado.

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