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James Stagg - o nerd que adiou -e salvou- o Dia D

14 semanas atrás

Em 1588 Inglaterra e Espanha estavam se pegando, entre outros motivos a adoção do protestantismo pelos ingleses não desceu na goela espanhola, e o Rei Felipe II decidiu dar uma lição nos roladores de queijo (sim, eles fazem isso). Foi montada a Grande Armada, com 130 navios, 7 mil marinheiros, 2.431 canhões e 17 mil soldados para invadir as ilhas britânicas.

A Armada saiu de Portugal, seguiu pelo Canal da Mancha e deu a volta nas ilhas britânicas, enfrentando forças inglesas no meio do caminho, sem grandes baixas até a Batalha de Gravelines, onde perderam 5 navios, mas tudo deu errado mesmo quando enfrentaram o Atlântico diretamente. O ano de 1588 ficou marcado por tempestades muito acima do normal e mais de 30 navios foram perdidos, afundados pelas ondas gigantescas e o vento.

No final da aventura os espanhóis perderam mais de 35 navios e 20 mil homens, entre os que morreram afogados e os que foram massacrados pelos camponeses na costa da Irlanda quando seus navios eram jogados na praia. Felipe II teria reclamado "Eu mandei uma Armada para enfrentar homens, não os ventos e ondas de Deus".

A história seria completamente diferente se a Inglaterra não tivesse sido salva pelo tempo, mas isso nem de longe foi acontecimento único. No século XIII, Kublai Khan montou uma frota de 800 navios para invadir o Japão, foi rechaçado duas vezes quando tufões destruíram a frota. Esses tufões ganharam até um nome, Vento Divino, ou em japonês, Kamikaze.

Pintando um Clima

A velha máxima de que Hitler foi burro por invadir a Rússia no inverno é injusta. A Operação Barbarossa, o plano de invasão alemã, começou em junho de 1941, no verão do hemisfério norte. O grande problema foi que a Rússia era grande pra caramba e Stalin não colaborou. Ao trocar espaço por tempo, os russos fizeram com que os alemães ficassem na ponta de um trem de suprimentos com milhares de quilômetros.

Quando chegou a hora da Batalha de Moscou, o inverno já estava no auge, os os alemães tinham que trazer seus suprimentos de avião, algo que é logisticamente inviável. MESMO sem a interferência da aviação soviética.

Os russos não eram imunes ao frio. Esse soldado soviético congelado foi posicionado assim por tropas finlandesas, como um aviso.

Todo planejamento militar leva em conta o clima, tanto macro, quanto micro. Falta de visibilidade pode inviabilizar ataques aéreos e voos de reconhecimento, chuva cria lama e pode atolar batalhões de tanques e blindados. E, convenhamos, quem quer lutar durante um furacão?

Quando os Aliados planejaram a Operação Neptune, a maior invasão anfíbia da história, o clima colaborar era essencial, mas estamos falando do clima no Canal da Mancha, que é notoriamente miserável. Eram, dependendo do ponto de partida, 150 quilômetros de mar, os últimos seriam enfrentados por barcos de desembarque minúsculos, transportes anfíbios e este brinquedo aqui, o tanque Sherman DD (Duplex Drive), também conhecido como Donald Duck, visto em seu ambiente natural:

A ideia era criar tanques flutuantes e se isso não soa como uma proposta inteligente, é porque não era. Patos, bruxas, pedrinhas pequenas flutuam, nada demais, mas um tanque de 40 toneladas tende a afundar. Para evitar isso o Sherman DD tinha seu fundo vedado, e uma saia de lona em torno, além de um par de hélices que permitiam que ele navegasse a 7 km/h. Ou seja, se pegasse uma corrente mínima já iria dar na Bahia.

O resultado variou. Em alguns casos os tanques foram lançados bem perto da costa e o mar ajudou. Em outros, como na praia de Omaha, foram lançados 112 tanques, mas a maioria a quase 5 km da costa. Eles haviam sido projetados para aguentar ondas de 30 cm, coisa que qualquer morador da região começaria a rir se ouvisse. As ondas de 1 metro e 80 centímetros mandaram quase todos pro fundo do Canal.

Só que poderia ter sido pior, muito pior

A invasão estava planejada para o dia 5 de junho de 1944. Era o momento ideal, a Lua Cheia forneceria a iluminação necessária, e a maré extremamente baixa deixaria expostos os obstáculos e minas instalados pelos alemães, mas o clima estava uma desgraça só.

Tempestades enormes se abatiam sobre a região, e o prognóstico era péssimo. Havia 3 grupos de meteorologia acompanhando o caso. Dois americanos e um inglês. Os dois grupos americanos previram que a tempestade só pioraria, então ou o ataque deveria ser lançado o quanto antes, ou que esperassem até novas condições favoráveis, entre 18 e 20 de junho. Eis que intervindo na história, apareceu este sujeito aqui:

Group Captain Sir James Martin Stagg era o meteorologista chefe da Operação Overlord, que englobava os desembarques e toda a invasão da Muralha do Atlântico. Ele coordenava as equipes, que muitas vezes discordavam entre si. Os métodos de previsão dos americanos eram diferentes dos ingleses, e a maioria concordava que a tempestade iria piorar.

Stagg aconselhou Dwight D. Eisenhower, Supremo Comandante das forças aliadas a adiar a invasão, mas aí que o bicho pegou. Os próprios alemães previam tempo ruim para as próximas duas semanas, por isso as forças não estavam em alerta e muitos comandantes locais haviam viajado. Mesmo Erwin Rommel foi passar o aniversário da esposa com ela, na Alemanha.

O conselho era adiar a invasão até a semana do dia 18, mas Stagg consultou sua equipe de meteorologistas britânicos, cobrou favores da Fundação Cacique Cobra Coral, pediu pra alguns Navajos pra fazerem a dança da chuva ao contrário e concluiu que no dia 6 o tempo iria acalmar o suficiente para uma invasão.

Deu trabalho convencer Eisenhower, que estava em um dilema. Adiar a invasão significaria tirar todo mundo dos barcos e levar pra terra, com o risco de espiões ou aviões de observação inimigos identificarem a frota. Era preciso tomar uma decisão e rápido, mas lançar uma invasão no meio de uma tempestade também não era inteligente.

No final o Supremo Comandante acreditou em seu cientista, ignorou os meteorologistas americanos e marcou a invasão para o dia 6 de junho de 1944, quando 6.939 embarcações encheram o horizonte, com 195.700 marinheiros transportando 156 mil soldados. Nunca antes na história algo dessa magnitude havia sido tentado.

Assim que o inimigo recuou, os aliados começaram a trazer mais equipamento pesado para a praia, ao mesmo tempo em que instalavam os Portos Mulberry, uma invenção genial que consistia em gigantescas estruturas flutuantes de concreto armado que eram rebocadas até a costa e afundadas, permitindo que navios de grande porte atracassem.

Foram construídos dois portos: um em Arromanches e outro em Omaha, em um total de 1,5 milhões de toneladas de concreto, mas somente o de Arromanches foi usado. Perto da finalização do de Omaha, uma das maiores tempestades do século destruiu o porto. Era o dia de 19 de junho, um dia depois da previsão de Stagg.

Se Eisenhower tivesse adiado a invasão as tropas teriam sido dizimadas pela tempestade, mas para a alegria de todo mundo, ele decidiu ouvir os conselhos de um nerd mais acostumado com cartas barométricas do que estratégias de batalha.

 

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