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Amazônia em chamas: como monitorar queimadas com satélites da NASA

O incêndio florestal na Amazônia não é o primeiro nem será o último, mas como são identificados, qual a tecnologia envolvida em sua detecção?

23/08/2019 às 14:09

As características da Floresta Amazônica a protegem a maior parte do ano, mas no período da seca ela fica suscetível a todo tipo de incêndio florestal, ainda mais com um empurrãozinho do Homem, mas todas as queimadas na Amazônia são criminosas? Qual a origem delas, e como a NASA e o INPE as monitoram?

Queimadas - um histórico

A ideia de botar fogo em florestas surgiu no Neolítico, quando inventamos a agricultura. Na época as facas Ginsu ainda eram muito caras e limpar um terreno de floresta com machados de pedra, ninguém merece. Um dia um sujeito resolveu jogar uma tocha na mata, ela estava seca, e quando o incêndio apagou ele percebeu que era muito mais simples plantar ali.

Como toda ideia de jerico a técnica das queimadas foi inventada de forma independente em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil, onde restos de queimadas foram datados de pelo menos 12 mil anos atrás. Hoje a técnica continua sendo usada no mundo todo e em essência funciona assim:

Um terreno de floresta é incendiado, de preferência logo antes do período das chuvas. Os restos carbonizados são misturados com a terra, no ano seguinte o solo é plantado e os tais restos se tornam nutrientes para a safra. Depois de alguns anos o solo se esgota. Os agricultores procuram outro pedaço de terra, passam a plantar lá ou se não tem terra pronta, botam fogo em outra parte da floresta.

Depois de alguns anos eles voltam pro terreno original, botam fogo na mata secundária que cresceu por ali, e voltam a plantar no terreno.

Terreno de queimada em Kimpese, Congo.

Na prática queimada é uma ideia terrível. Sim, elas eliminam insetos nocivos, mas é a mesma coisa que usar uma ogiva termonuclear para se livrar de seu cunhado. Funciona, é extremamente satisfatório de se ver, mas os danos colaterais são consideráveis.

Junto com os insetos vão-se as bactérias responsáveis pela fixação de nitrogênio, minhocas, abelhas, outros insetos polinizadores, compostos orgânicos e tudo mais.

No Brasil não fazia muita diferença, já que os índios praticavam monocultura de mandioca, uma planta que é quase uma praga, que cresce em qualquer terreno, por mais inóspito que seja. Demanda zero manutenção, você enterra um pedaço do caule, esquece e meses depois tem uma raiz pronta pra comer (mas ferva antes).

Os colonos portugueses provavelmente já conheciam a técnica da queimada, mas vendo os índios tiveram certeza de que era uma boa opção aqui, e a adotaram sem demora. Isso foi repassado de pai para filho e hoje é uma tradição arraigada na cultura do homem do campo brasileiro, e não por falta de aviso. Monteiro Lobato, em modo Full Pistola denunciou a prática, no texto Velha Praga, de 1914.

Em 1602 no documento conhecido como Regimento do Pau Brasil o Rei Filipe III de Espanha proibia a exploração predatória de Pau-Brasil, incluindo a prática de queimadas.

O efeito negativo de queimadas no país inteiro era mais que conhecido, como fica evidente nesta carta publicada no Jornal do Brasil, em 1892:

 

Queimada vs Incêndio Florestal

A discussão parece semântica, mas nem todo incêndio florestal é uma queimada e a maioria das queimadas não são um incêndio florestal. Usando o Worldview você verá focos de incêndio florestal em montes de lugares inclusive países de primeiro mundo. A Califórnia no começo do ano penou com esses incêndios, mas não são queimadas.

A queimada implica em uma ação deliberada, alguém foi lá e botou fogo na mata ou no pasto abandonado para limpar a área. É diferente de um incêndio criminoso cuja única intenção seja... ver o mundo pegar fogo e também é diferente de um incêndio florestal natural.

Se serve de consolo, pouca floresta está sendo efetivamente destruída. Ao todo, 95% das queimadas acontecem em terrenos já plantados, o lado ruim é que esses terrenos já foram florestas e é comum essas queimadas saírem de controle e atingirem mata virgem.

Outro ponto é que nem toda queimada é ilegal. Segundo o Código Florestal, queimadas são proibidas exceto quando autorizadas pelo órgão ambiental estadual. AH sim, populações tradicionais (seja lá o que for isso) e indígenas estão isentas da proibição, podem fazer queimadas à vontade.

No mundo todo entre 200 e 500 milhões de pessoas praticam queimadas, principalmente em shitho- países do Terceiro Mundo, onde há menos controle e fiscalização. No Brasil a situação é especialmente agravante, pois boa parte do terreno é queimado para plantio de soja, saturando o solo de fertilizantes químicos e para o gado, onde basta crescer grama.

Incêndios florestais no Brasil - a realidade atual

No momento o mundo inteiro está correndo feito o urso do Pica-Pau, aparentemente a realidade das queimadas ainda não havia chegado lá fora e por lá fora eu digo Jardins e Leblon. Pois é, elas existem, e por mais que as pessoas estejam desesperadas postando "tem 15 dias que a Amazônia está em chamas", a verdade é que ela está em chamas tem bem mais tempo. Em agosto o Brasil como um todo acumulou 75.350 focos de incêndios florestais, entre queimadas e incêndios naturais.

Parafraseando Chernobyl, não é bom, mas não é terrível. Ou melhor, é menos terrível do que se imagina e a situação já foi bem pior, veja a série histórica do INPE:

Parece bom, né? Não se anime. O ano não acabou. Vamos agora pegar os dados detalhados ano a ano, mas somente a soma do número de focos entre janeiro e agosto, desde 2009:

O país vinha em uma íngreme redução no número de focos de incêndio desde 2016, agora todo o trabalho foi perdido, agosto ainda não acabou e estamos nos aproximando dos 83.833 focos de 2016. Sem querer botar lenha na fogueira (dsclp) setembro costuma ter até o dobro de focos de agosto.

Dizer que podia ser pior, ou mesmo que a maior parte das queimadas é de mata secundária, é uma desculpa de otimista que nesse caso não deveria ser usada. Você está comemorando que o jacaré comeu sua perna direita só até o tornozelo, ao contrário de uns anos atrás quando ele comeu a perna esquerda até o joelho.

A Controvérsia

Há quem diga que muita gente está exagerando para se aproveitar politicamente das queimadas e que as nuvens de cinzas terem chegado até São Paulo foi fruto de uma conjunção de vários fatores, e que sem eles ninguém estaria falando nada. É possível? Talvez, mas se isso vai fazer um monte de gente levantar a bunda da cadeira e começar a cobrar ações da classe política, que bom.

É igual o aquecimento global: se for uma farsa (spoiler: não é, não seja um conspiracionista burro) nós teremos criado uma sociedade sustentável com fontes de energia limpas e eficientes, menos lixo, com mares limpos e céu sem poluição... por nada 😉

O que não dá é o pessoal tirar opinião lá de onde o Sol não brilha e tentar convencer os outros na base do grito. Hoje isso não deveria ser necessário; temos muita, muita informação open source, fora do controle das partes interessadas e são essas informações que vou ensinar VOCÊ a buscar e tirar suas próprias conclusões.

Vamos então aos principais recursos sobre incêndios na Amazônia e no mundo:

INPE

O Brasil não é muito bom em construir foguetes e o INPE consegue a proeza de lançar satélites que ficam ociosos, pois não havia ninguém para escrever o software, mas em uma coisa eles são bons (duas, se contar datilografia): análise de dados.

A expertise do INPE é reconhecida mundialmente, seus mapas e relatórios são essenciais para agricultura, planejamento urbano e inúmeras outras atividades. O Programa Queimadas é um portal completíssimo onde você encontra TUDO que precisa. Os gráficos mostrados mais acima foram feitos com os dados do INPE de estatísticas de focos de queimada por países da América do Sul.

Banco de Dados de Queimadas

O INPE mantém um banco de dados de todas as queimadas registradas por vários satélites desde 1998, pode ser acessado diretamente deste link aqui.

Clicando no ícone marcado com "1", lá no canto superior esquerdo, você chama a aba de filtro, onde pode escolher se quer dados de toda a América do Sul, de países específicos ou até filtrar por Estados e Municípios brasileiros. Selecione as opções desejadas, clique em "Aplicar" e espere. É meio lento mesmo.

Também dá para montar o gráfico cumulativo no período de um ano (não faça isso, são dados demais) escolhendo no campo de data qualquer valor entre junho de 1998 e a data atual.

Também há um mapa mais sintético dos focos de queimadas mês a mês, acessível deste link aqui. A imagem abaixo é de setembro do ano passado. Ou seja: se prepare!

NASA

Aqui caímos em uma toca do coelho, a quantidade de recursos é quase infinita, com a diferença que os dados não estão tão mastigados quando os do INPE.

Pra começar, o NASA Worldview:

Ele permite que você visualize a Terra, o Ar, o Mar, a qualquer tempo (dentro do razoável) adicionando camadas de dados que vão de tráfego naval a incêndios, passando por tempestades de areia, emissões de monóxido de carbono, enchentes, cobertura vegetal.

Se você não quiser tudo isso, pode ir direto pras queimadas. Primeiro, abra o site do Worldview. Arraste o mapa até mostrar o Brasil. Olhe para o menu, na esquerda. Está vendo a opção Add Layers?

Clique e selecione na área Fires a opção Fires and Thermal Anomalies.

Essa opção pedirá que você escolha mais dados, nesta tela aqui:

Selecione a opção Aqua and Terra / MODIS, ela combina dados de dois satélites em órbita polar, que juntos fotografam a terra inteira uma vez por dia, em 38 faixas espectrais diferentes. O MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) é um instrumento com resolução de 1 km por pixel, que no caso trabalha na faixa do infravermelho detectando focos suspeitos de calor.

Ao selecionar a opção e fechar a janela você voltará para a tela principal e verá uma tela como esta:

Caso veja algumas faixas pretas, não se preocupe, é normal, são apenas áreas onde um dos satélites não passou.

A imagem acima indica focos de incêndio com resolução de 1 km/pixel e serve para dar uma ideia da situação atual, mas se reparar na parte inferior da tela, verá uma ferramenta de escolha de data.

Você pode clicar nas setinhas para avançar ano mês e dia, ou pode dar um clique-duplo nos valores e usar o teclado para inserir a data desejada. Isso mostrará a situação das queimadas naquele dia, mas a função mais divertida é naquele ícone que parece uma câmera de vídeo. Clicando nele você abre uma telinha para a criação de GIFs animados, como este:

Outra opção muito útil: no menu de opção, ao lado do Add Layer, você encontra o botão START COMPARISON, que é uma forma bonita e anglo-saxã de dizer "compare as imagens". Clicando a tela será separada em duas. No menu do Worldview temos agora duas abas, A e B, você pode clicar para selecionar cada uma e usando o menu de datas lá no rodapé, alterar a dita-cuja.

Sua tela agora está dividida em dois períodos de tempo, clicando e arrastando a divisória, você consegue visualizar as diferenças entre os dois períodos. Ah sim, no final do menu você pode usar outros métodos de visualização, o Opacity sobrepõe as imagens, e o Spy te dá uma lente onde você vê um detalhe da imagem como atualizado e o resto como versão antiga.

Se você ficar confuso com as nuvens, pode clicar no olhinho nas camadas da seção BASE LAYERS e desmarcar tudo, você ficará com um mapa puro:

Para exportar as imagens, clique no ícone da câmara fotográfica no canto superior direito da página, e marque a área que deseja capturar, clicando donwload em seguida.

NASA NEO

O NEO - Nasa Earth Observations, é um site que agrega dados de vários satélites, em escala global. Ele permite que você estude dados compilados sobre chuvas, partículas na atmosfera, temperatura global e focos de incêndio, através deste link aqui.

É possível comparar imagens e analisar setores dos mapas gerados, como este cumulativo de focos de incêndio nos últimos 30 dias:

O NEO permite que você trabalhe com granularidade de um dia a um mês e tem 19 anos de dados acumulados.

Todos esses sites acima só arranham a quantidade de informação disponível, temos muita coisa a nível estadual e nesse momento, já que todo mundo descobriu o que o pessoal da região norte e centro-oeste dolorosamente está cansado de saber, que queimadas existem, você deve aproveitar esses recursos e se informar mais, inclusive das queimadas que acontecem no SEU Estado.

É uma tarefa virtualmente impossível, é preciso pressionar políticos para que criem medidas extremamente impopulares para acabar com hábitos e tradições praticadas desde a idade da pedra, mas nossa espécie não chegou na Lua, não explorou todos os cantos do planeta, não erradicou a Varíola tendo medo de tentar algo impossível. É uma questão de querer, e lembrando: o Poder é de vocês!

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