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Era Uma Vez... Em Hollywood, uma resenha (quase) sem spoilers

Nesta resenha conto minhas impressões sobre Era Uma Vez… Em Hollywood, com a missão de não entregar spoilers sobre a trama do novo filme de Tarantino

06/08/2019 às 13:28

Assisti na semana passada a Era Uma Vez... Em Hollywood (Once Upon a Time… In Hollywood), nono filme (oficial) do cineasta, que será lançado no Brasil no dia 15 deste mês, primeiro filme do diretor pela Sony Pictures.

Desta vez, o diretor e roteirista presta uma homenagem não só a Los Angeles de sua infância, mas também a uma era mágica em Hollywood, que terminou com o brutal assassinato de Sharon Tate pela família Manson em agosto de 1969. O filme trata principalmente da carreira de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), ator em decadência, e suas tentativas de se tornar novamente relevante, ao lado de seu fiel escudeiro, Cliff Booth (Brad Pitt).

Aviso logo que neste post não pretendo falar nenhum spoiler ou entrar em maiores detalhes sobre a trama, só falar sobre a sensação que tive ao assistir a Era Uma Vez... Em Hollywood, mas pretendo escrever outra resenha com spoilers assim que o filme for lançado por aqui.

Existem alguns pontos chave no filme que fiz questão de não citar neste post para não estragar a experiência de ninguém, assim peço aos nossos queridos leitores que por acaso já tenham assistido ou saibam de algum detalhe da trama, a gentileza de não comentar nada sobre isso, ou poderão ter seus comentários apagados.

Em primeiro lugar, minha opinião sincera, acredito que Quentin Tarantino acertou novamente com Era Uma Vez... Em Hollywood, e isso não deve ter sido nada fácil, pois o filme é bem ambicioso na sua reconstituição de época e também na grande quantidade de referências (reais ou inventadas).

Como eu falei no meu último post, escrito antes de que eu tivesse a chance de assistir ao filme, Tarantino quis retratar na tela parte de sua infância e das suas memórias afetivas, e é por isso que o diretor e roteirista chama Era Uma Vez... Em Hollywood de seu filme mais pessoal. Agora que assisti, consigo entender melhor o que ele quis dizer com isso.

Sabemos que os filmes de Tarantino compartilham do mesmo universo, e este é como uma coletânea de melhores hits do diretor, com várias coisas que são características do seu trabalho. Eu confesso que sou meio suspeito para falar, pois além de considerar Tarantino meu diretor favorito, adoro filmes sobre filmes, essa metalinguagem que brinca sobre como são feitos os sonhos que vemos na tela grande e também na pequena.

O filme é uma ode a uma era perdida de Hollywood, a um momento que não volta mais, mas que ao mesmo foi muito mágico, e também uma máquina do tempo que transporta os espectadores para aquele tempo perdido e emocionante. É notável o carinho e o cuidado que os realizadores deste filme colocaram em cada quadro.

As cenas dos exteriores são impressionantes, pois o filme nos transporta ao final dos anos 60, com longas viagens de carro por uma Los Angeles ainda sem trânsito. Sempre foi uma marca registrada de Tarantino colocar diálogos incríveis enquanto os personagens estão dirigindo pra lá e pra cá.

Foi desta forma que saíram vários diálogos maravilhosos em seus filmes, e em Era Uma Vez... Em Hollywood não é diferente, mas aqui muitas delas são passadas em silêncio, enquanto vemos detalhes de uma cidade e um tempo perdidos, que não existem mais, a não ser no cinema da época e em reconstituições incrivelmente bem feitas, como as deste filme.

Todo o clima do filme é incrível, os cenários incluem vários cinemas maravilhosos e restaurantes que eu adoraria poder frequentar. Isso ainda é possível no Musso & Frank Grill, inaugurado em 1919, e que continua igualzinho a como era nos anos 60, e onde Rick Dalton e Cliff Booth se encontram com o personagem de Al Pacino.

Vários sets funcionam quase que como personagens, e um deles é um dos cinemas da cidade, o The Bruin, no qual Sharon resolve assistir a um dos seus filmes, The Wrecking Crew, com Dean Martin, para conferir a reação da plateia, algo aliás que o próprio Tarantino adora fazer com seus filmes.

Nesse filme, Tarantino fez tudo ao seu alcance pra tentar colocar a L.A. do final dos anos 60 em sua própria cápsula do tempo, e que poderá ser revista por muitos e muitos anos, sempre que alguém quiser ter alguma ideia sobre o que foi aquele momento mágico de Hollywood.

Era Uma Vez... Em Hollywood não é só uma realização técnica, com uma fotografia e um design de cena impressionantes, que realmente colocam o espectador na L.A. do final dos anos 60, mas também conta com um conteúdo impressionante. Tarantino criou toda uma mitologia sobre a carreira e a filmografia completa de Rick Dalton, na qual dedicou muito tempo o que rende frutos que podemos curtir em cena, por mais que eles só sejam usados como pano de fundo para aumentar a riqueza do personagem no filme.

Eu já tinha citado no meu último post que ele chegou a escrever cinco episódios da série Bounty Law, grande sucesso da carreira de Rick Dalton. Eu fico só imaginando como Tarantino se divertiu fazendo esse filme, principalmente as sequências de outros filmes (fictícios ou não) que aparecem na tela.

Sem querer comparar Era Uma Vez... Em Hollywood com o resto de sua filmografia, algo que prefiro deixar para fazer depois que eu assistir o filme mais algumas vezes, acredito que ele é um clássico instantâneo, no melhor sentido possível desta frase.

Era Uma Vez... Em Hollywood não funcionaria se os seus dois personagens principais fossem interpretados por qualquer ator. O fato de Tarantino ter conseguido juntar uma dupla como Leonardo DiCaprio e Brad Pitt é um dos grandes méritos do filme, e os dois são muito bem aproveitados pelo diretor.

DiCaprio está impressionante como Rick Dalton, um ator de TV que tentou a transição para o cinema, e não conseguiu o mesmo sucesso de outros, e que precisa se reinventar para continuar (ou voltar a ser) chamado para trabalhar. Dalton está em dúvida sobre seus talentos, apesar de sua longa e proveitosa carreira, mas ele tem um bom amigo em seu dublê, que está ali para lembrá-lo de quem ele realmente é.

Pitt está muito confortável como Cliff Booth, dublê, motorista, fiel escudeiro e faz-tudo de Dalton, que está lá para tomar todas as porradas que iriam na direção do ator, além de manter sua casa funcionando. Apesar do papel de Dalton ser mais fácil, é notável o que Brad Pitt faz nesse filme, algumas vezes de forma contida, outras nem tanto, mas sempre perfeito em cada cena.

O personagem do dublê tem um detalhe polêmico em seu passado, que certamente vai gerar muitas discussões, das quais não vou tratar neste post, pelo meu intuito de evitar possíveis spoilers.

O filme é dividido entre os dois atores e Margot Robbie, que está simplesmente perfeita como a lendária atriz Sharon Tate. Em seus melhores momentos, e quase sempre com Margot Robbie em cena, Era Uma Vez... Em Hollywood se torna uma celebração a história do cinema e a uma de suas épocas de ouro.

Robbie como Sharon Tate é em si, uma homenagem a todas as grandes atrizes que encheram a tela e o imaginário do garoto Tarantino, e também a de qualquer pessoa que tenha tido o privilégio de se apaixonar em uma sessão de cinema. A contribuição da atriz ao filme é absolutamente essencial, pois ela representa não só a beleza, criatividade e dedicação de Sharon Tate para criar os seus personagens, mas mas também a própria inocência e grandiosidade daquela época.

Quem acha que a participação de Margot Robbie é menos significativa por ela não ter muitas falas no roteiro, não percebe que a interpretação de um ator ou atriz vai muito além das palavras proferidas em cena. Assim como DiCaprio e Pitt, ela realmente merece um prêmio por seu trabalho incrível no filme. Que elenco, meus amigos.

Uma grande polêmica do filme foi a utilização de Bruce Lee como personagem em uma participação rápida, criada para compor e mostrar o personagem de Clint Booth como um durão. Sim, o filme brinca com Bruce Lee, mas acredito que de uma forma até respeitosa, mas entendo os motivos pelos quais a filha de Bruce, Shannon Lee tenha ficado chateada, já que o que é mostrado em cena provoca uma determinada reação na plateia.

Shannon já estava incomodada antes mesmo de assistir ao filme, por não ter recebido o roteiro previamente, ao contrário do que aconteceu com a irmã de Sharon Tate, Debra. Depois de finalmente assistir ao filme e ver a cena com Bruce Lee, ela se disse desconfortável ao ver que a plateia estava rindo do personagem que representava seu pai.

Para ela, o filme mostra apenas uma caricatura de quem Lee realmente era, e em seus minutos em cena, o personagem é totalmente arrogante e presunçoso, e não alguém que tinha se esforçado três vezes mais do que os outros para conseguir os seus papéis em Hollywood.

Ao contrário da maioria dos espectadores na minha sessão, não cheguei a rir na cena da luta entre Bruce Lee e Clint Booth, mas reconheço que ela foi bem feita, apesar do clima caricato. Dito isso, e lembrando que não tenho procuração para defender o Tarantino, essa cena me parece mais uma história curiosa para tentar explicar quem é o misterioso Clint Booth, do que um desrespeito a memória de Lee.

Apesar de saber que Tarantino adora Bruce Lee, é inevitável pensar que o lendário lutador e ator merecia mais cenas no filme, até por ser maior do que a vida. Não tem jeito, depois que você apresenta Bruce Lee em um filme, muitos espectadores ficarão com vontade de ver mais cenas com ele. De qualquer forma, é melhor deixarmos isso para o meu próximo texto, no qual pretendo entrar nos detalhes do roteiro.

Mike Moh, inclusive, está ótimo no papel, que é uma grande responsabilidade. Assim como tudo na vida, existem dois pontos de vista, e um deles é o do próprio ator, que se manifestou a respeito da sua cena de luta com Brad Pitt neste post, que você não deve ler se não quiser ter ter todos os spoilers dessa cena (além dos que eu possivelmente já deixei escapar nesses últimos parágrafos).

Pra quem não ainda não conhece, recomendo imensamente assistir a todos os filmes de Bruce Lee, algo que aposto, o próprio Tarantino espera que seus fãs mais novos façam depois de vê-lo em cena, e possivelmente o motivo principal para ter retratado o personagem no seu filme.

Uma atriz que me chamou muito a atenção no filme foi a jovem Julia Butters, de apenas 10 anos, e que contracena com Leonardo DiCaprio como Trudi. A atriz iniciou sua carreira em Criminal Minds, e mesmo com poucos minutos em tela no filme, dá um verdadeiro show em cena.

As cenas nas quais a família Manson é apresentada no Sítio Spahn não fariam nada feio em um filme de terror, muito pelo clima de tensão criados pela direção de Tarantino, pela belíssima fotografia de Robert Richardson, e pelo desempenho dos ótimos atores e atrizes, que criam uma combinação de arrepiar.

Destaque para a interpretação de Dakota Fanning, Margaret Qualley, Mikey Madison, Lena Dunham e de Maya Hawke, a filha de Uma Thurman que esteve recentemente na terceira temporada de Stranger Things. O velho George Spahn é feito por Bruce Dern. Não vou falar mais sobre essa parte do filme, mas isso era digno de nota.

Outra das estrelas do filme é Brandy, a cadela pitbull do personagem de Brad Pitt, que rouba todas as cenas nas quais aparece. Ela foi interpretada por três cães, mas a principal deles foi Sayuri, uma cadela que foi a grande a vencedora do Palme Dog Award em Cannes, e foi elogiada pelo cineasta por ser uma grande atriz, algo que ele só percebeu na hora de editar o filme.

O PETA, é claro, não gostou nada do fato de Tarantino ter encontrado os cães com criadores da raça, que eles acusam de tratarem mal e explorarem seus animais.

Como sempre acontece nos filmes de Tarantino, a trilha sonora de Era Uma Vez... Em Hollywood é recheada de músicas obscuras da época, que como sempre encaixam muito bem no filme. Tarantino também usa muito trechos de trilhas sonoras licenciadas de outros filmes.

A trilha sonora de músicas da época, já disponível nos melhores serviços de streaming, segue o padrão das trilhas de Tarantino, e contém trechos da transmissão da rádio KHJ, que o cineasta ouvia quando era criança em L.A.

A Variety fez uma ótima entrevista com Mary Ramos, que trabalha com Tarantino desde seu primeiro filme, e se tornou supervisora musical desde o seu terceiro longa, ela conta todos os detalhes sobre a criação desta trilha, e como foi trabalhar com um compositor no último filme de Tarantino, Os Oito Odiados.

A entrevista é imperdível para quem ama as trilhas dos filmes de Tarantino, e conta como o diretor fez questão de colocar vinhetas e chamadas da rádio KHJ que ele ouvia quando era criança no filme e na disco. Ela conta que em seu novo filme, Tarantino recorreu a um dos grandes compositores de cinema no período, o incrível Bernard Herrmann, usando alguns trechos da trilha sonora de Cortina Rasgada, que Alfred Hitchcock dirigiu em 1966.

Mesmo na trilha, existem alguns daqueles detalhes típicos de Tarantino. A banda Paul Revere and the Raiders, que é destaque com duas músicas na trilha, foi produzida por Terry Melcher, que era o morador antigo da fatídica casa da rua Cielo Drive, e possivelmente o alvo original do ataque da família Manson. O disco não conta com todas as músicas mostradas no filme, é claro, mas as que estão ali foram escolhidas pelo próprio Tarantino, que sempre considerou os discos dos seus filmes como um presente para os fãs.

É claro que não poderiam faltar no filme as famosas cenas sangrentas que transformaram o nome do diretor em sinônimo de cinema violento, assim como os sempre presentes closes no pé de suas atrizes favoritas, mas como sempre faz, Tarantino mostra que vai muito além disso e das suas homenagens em forma de referências cinematográficas.

Era Uma Vez... Em Hollywood é mais um grande acerto na carreira de Tarantino, um filme que merece ser visto no cinema, de preferência em uma tela bem grande.

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