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Sea of Solitude — Review

Abordando temas delicados como depressão e relacionamentos abusivos, Sea of Solitude é um belo jogo que mostra como a mídia tem evoluído.

14 semanas atrás

Durante muito tempo os jogos eletrônicos foram vistos como meros passatempos, brinquedos cujo objetivo era apenas entreter e aqueles que os consumiam não passavam de crianças, crescidas ou não, que sentavam diante de uma televisão para fugir das suas realidades. De certa forma eles ainda continuam servindo para isso, mas cada vez mais as pessoas tem visto na mídia uma ótima oportunidade para contar suas histórias.

Uma delas foi Cornelia Geppert, game designer, roteirista e responsáveis pelo estúdio alemão Jo-Mei Games, que com um jogo resolveu abordar alguns temas extremamente sensíveis e muitas vezes evitados pela sociedade, como bullying, depressão, relacionamentos abusivos e suicídio. Acertando em alguns pontos e deixando a desejar em outros, Sea of Solitude foi a tela utilizada por Cornelia para contar as experiências que viveu e que deveria ser conhecida por todos.

Aviso: por se tratar de um jogo com foco na história, falar sobre ele sem abordar alguns pontos do enredo seria muito difícil e por isso esta análise contêm alguns trechos que podem ser considerados spoilers.

Uma luz no sombrio oceano da depressão

No jogo seremos Kay, uma menina que serve como representação da sua criadora e que se encontra num mundo tomado pela água. Para se locomover pelo lugar ela usará um pequeno barco e logo nos primeiros minutos encontrará outra garota que lhe presenteará com um sinalizador.

Será com essa ferramenta que nos guiaremos pelos cenários do jogo, com a luz sempre indo para a direção que precisamos seguir. Será também com ela que iluminaremos algumas áreas e livraremos o mundo da corrupção, numa analogia aos males sofridos pela protagonista durante a sua vida e os quais ela relembrará conforme avançamos durante a aventura.

Com a sua aparência fazendo com que ela seja vista como um monstro, Kay carregará consigo uma mochila, onde guardará esses momentos ruins e que é uma clara referência ao peso que todos nos carregamos sobre os nossos ombros. Com o passar do tempo podemos notar como o objeto vai aumentando e esta é apenas uma das muitas simbologias presentes em Sea of Solitude.

Um mar de metáforas

O primeiro deles é o próprio mar em que nos encontramos, já que ele é feito pelas lágrimas derrubadas pelas pessoas que cercam Kay. A escuridão também é uma representação da depressão que aflige a menina e não demorará até percebemos que os monstros que a ameaçam são os entes queridos que compõem o elenco de personagens.

A própria protagonista sendo representada como um ser de aparência horrível é uma demonstração de como a autora se vê (ou via), o que fica mais claro conforme a garota reconhece que não ouviu as pessoas a sua volta quando elas mais precisavam e em como o seu egoísmo acabou prejudicando a vida de muita gente.

Há de se ressaltar que as metáforas entregues pelo jogo raramente não são claras, fazendo com que não haja muito espaço para interpretações e um exemplo são os monstros que encontramos pelo caminho. Eu não entrarei em maiores detalhes sobre isso para não estragar a surpresa de quem ainda não jogou, mas espere até conhecer alguém que é capaz de mudar sua imagem de acordo com as necessidades ou que consegue esconder a sua verdadeira natureza sobre uma aparência bonita.

Ainda assim, com cada fase/etapa do jogo abordando o relacionamento de Kay com algumas dessas pessoas, cada jogador poderá absorver essas história de maneiras distintas, muito devido as suas próprias experiências de vida. Mas mesmo que você não tenha passado por situações como as retratadas no jogo, acredito que a história nos colocará para refletir sobre determinadas situações e é aí que o jogo mais brilha.

A beleza e a falta de ousadia

Mas se o Sea of Solitude consegue abordar de maneira satisfatória alguns temas complicados, é na sua jogabilidade que ele mais merece críticas. Entregando mecânicas demasiadamente simples e um tanto engessadas, praticamente não teremos desafios enquanto avançamos, o que infelizmente quebra um pouco da emoção e ajuda a passar uma sensação de repetitividade.

Exceto por uma sequência ou outra, como a parte em que precisamos fugir dos valentões na escola, o jogo está sempre evitando se arriscar, com os seus quebra-cabeças sendo simples demais e o design dos estágios sofrendo com a falta de criatividade.

Já na sua parte técnica, Sea of Solitude é uma mistura de erros e acertos. Enquanto visualmente o jogo é muito bonito, com a sua direção artística funcionando muito bem para a proposta do enredo, o mesmo não pode ser dito das dublagens. Em boa parte das vezes as atuações não conseguem passar corretamente a emoção necessária, parecendo que os atores não estavam muito empolgados com o trabalho. Também vale mencionar os diálogos, que em boa parte das vezes não são tão profundos quanto poderiam e principalmente, mostrando-se muito repetitivos.

Esses problemas me fizeram pensar se não faltou um pouco mais de tempo ou até dinheiro para que o jogo recebesse um polimento maior e como ele foi publicado pela Electronic Arts sob o selo EA Originals, não há como deixar de relacionar a empresa a ambas as possibilidades.

A redenção através de um jogo

Apesar de alguns problemas e da sua campanha que dura apenas algumas poucas horas, o Sea of Solitude mostrou-se uma experiência muito interessante e ao mesmo tempo emocionalmente desgastante. Como consegui me colocar na pele da protagonista e até daqueles que estiveram ao se redor, em vários momentos me senti mal pelo o que estava sendo mostrado ali, o que me faz acreditar que o objetivo da obra foi cumprido.

Contudo, o que mais me fascinou no jogo foi a maneira como Cornelia Geppert o utilizou para combater os seus fantasmas, como a história de Kay foi a forma encontrada pela autora para se redimir e como ela teve que expor seus erros e pontos fracos para superar um passado conturbado. E só pela coragem de fazer isso ela já seria digna das minhas mais sinceras congratulações.

Sea of Solitude não é o tipo de jogo que agradará a todos, com alguns que os jogarem o considerando a proposta leviana ou simplesmente odiando a sua jogabilidade. Porém, se você quiser conhecer uma história baseada nas experiência do autor e que aborda os problemas mentais a que qualquer um está sujeito, este é um título que merece a sua atenção.

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