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Submarino nuclear russo vazando radiação 100 mil vezes acima do normal, mas calma, não é terrível

18 semanas atrás

O K-19, carinhosamente apelidado pelos tripulantes de Hiroshima, era um submarino nuclear, na verdade o segundo construído pelos soviéticos. Foi um projeto feito nas coxas, corrido para dar aos commies (tem gente que se irrita com isso) uma plataforma para seus mísseis de curto alcance.

Tom Clancy se inspirou no K-19 para fazer o Caçada ao Outubro Vermelho, mas tirando o heroísmo da tripulação todo o resto pode ser substituído pela boa e velha incompetência estatal soviética. O K-19 saiu do estaleiro já cobrando uma dívida de sangue, pelo menos 10 trabalhadores morreram em acidentes durante sua construção.

Em sua viagem inaugural, em 4 de Julho de 1961 o sistema de resfriamento do reator falhou. O capitão mandou acionar o sistema de reserva, mas com a pressa de lançar o submarino, decidiram não instalar o sistema reserva.

O reator foi desligado, com as barras de grafite baixando e moderando a reação de fissão, mas o calor residual continuou aumentando, chegando a 800 C. Com o risco do reator derreter, o capitão ordenou que fosse construído um sistema de resfriamento na base da gambiarra, o que significava trabalhar direto no compartimento do reator. Era uma sentença de morte, em dois anos 22 marinheiros estavam mortos por efeito da radiação, pelo menos oito morrendo entre 10/7/1961 e 25/7/1961.

Sem poder pedir socorro a Moscou (o rádio tinha quebrado também) o K-19 rastejou até o ponto de encontro com outro submarino soviético, foi rebocado e se tornou um pesadelo radioativo para as equipes de manutenção. Depois disso ele foi reformato, se meteu em vários outros acidentes, incluindo uma colisão com um submarino americano e só foi descomissionado em 1990.

A história do K-19 não é atípica, os soviéticos nunca deram muita sorte com submarinos. Em toda sua história os EUA só perderam dois submarinos nucleares em acidentes, os russos perderam 7, e o K-19 nem entra na lista. A lista que ele entra foram dos acidentes com reatores de submarinos nucleares, onde os russos humilham todo mundo com uma contagem de 14 x 0.

O submarino protagonista da história de hoje também não consta dessa lista. É o K-278 Komsomolets. Ele era um submarino nuclear experimental soviético, e se você leu até aqui já sabe que "experimental" é a palavra-chave e o grande botão vermelho piscando.

O único de sua classe, foi lançado ao mar em 3 de Junho de 1983. Com 117 metros de comprimento de deslocando 8 mil toneladas, era um submarino de grande porte, projetado para águas profundas com um casco de Titânio, o que permitia uma profundidade de operação de 1000 metros, com 1250 metros de profundidade de teste e 1500 metros de profundidade de colapso.

Em 7 de Abril de 1989 o K-278 estava praticando manobras de submersão no Mar de Barents, perto da Noruega, quando um curto-circuito provocou um incêndio na Engenharia. Tentativas de controlar o incêndio não deram certo, então apelaram pro velho truque de fechar as portas estanques e deixar o fogo consumir todo o Oxigênio, mas os JÊNEOS que projetaram o submarino não deram muito atenção para detalhes como isolar o cabeamento entre os compartimentos, então o fogo se espalhou pelos dutos.

O reator sofreu um desligamento de emergência e o capitão ordenou EMERGENCY BLOW, a manobra que todo marinheiro ADORA treinar. Basicamente são acionados os chamados "chicken switches", duas alavancas que tem esse nome porque quando você aciona significa que está com medo, muito medo.

Essas alavancas conectam mecanicamente, sem nenhum dispositivo elétrico o sistema principal de ar-comprimido aos tanques de lastro, esvaziando os mesmos e dando ao submarino extrema flutuabilidade positiva, aí os marinheiros dão as mãos e cantam:

"♫Se as águas do mar da vida quiserem te afogar segura na mão de Arquimedes e vai...♫"

A manobra é uma verdadeira montanha-russa, imagina um bicho com milhares de toneladas do tamanho de um campo de futebol, subindo num ângulo de 45 graus a mais de 60Km/h.

No caso do K-278, depois da manobra o Capitão deu ordem de evacuar o navio, mas o Mar de Barents não é exatamente o caribe, é inamistoso até pras sereias nórdicas, e os tripulantes sofreram nos botes salva-vidas.

Dentro do submarino só o capitão e quatro outros oficiais, tentando salvar o barco, mas o submarino acabou afundando com todos dentro.

Eles tentaram até o fim impedir o naufrágio, só desistiram quando o K-278 passou da profundidade de colapso de 1500 metros, e comprovando que os engenheiros russos são ruins quando apressados pelo governo mas ótimos quando precisam projetar tecnologias pé-de-boi que funcionam na base da teimosia, A ordem de evacuação foi dada a incríveis 1680 metros.

Os cinco correram para a cápsula de escape (que também não havia sido projetada para funcionar naquela profundidade) e abandonaram o barco. Depois da que foi a mais apavorante viagem de elevador da vida deles, chegaram à superfície, mas o mar agitado invadiu a cápsula e só um dos tripulantes conseguiu escapar.

Quando o resgate chegou, e nem demorou, 42 dos 69 tripulantes haviam morrido, a maioria por hipotermia.

O M-278 repousava no fundo de 1680 metros de água, a 440Km da costa da Noruega.

levando dois torpedos nucleares e um reator que está vazando.

Expedições em 1992 e 1994 revelaram vazamentos de Plutônio dos torpedos, e aparentemente os canos do sistema de resfriamento do reator estão sofrendo corrosão, e vazando também, mas os russos explicaram que eram vazamentos mínimos.

Aqui um vídeo do bicho afundado:

Uma expedição norueguesa em 2019 sondou em detalhe o K-278, e para imensa e absoluta surpresa de todo mundo, os russos mentiram. A radiação emitida medida na tubulação do reator chega a 800 becquerels, enquanto a medição no mar naquela profundidade deveria ser 0.001 becquerels, por isso os clickbaitianos "100 mil vezes maior" do título.

A tendência é a contaminação aumentar, com mais corrosão e mais material exposto, mas há realmente risco?

A menos que a Ariel resolva morar no K-278, não. 800 becquerels é a radiação emitida por 53 bananas.

Sim, bananas são radioativas, por causa do Potássio (40K). Bananas emitem raios gama e raios beta, mas calma, você não vai virar o Hulk nem pegar câncer por causa de uma banana. Ao comer uma fruta de tamanho médio você absorve 0.1 μSv. (Sievert é uma unidade de absorção de radiação, Becquerel é uma unidade de atividade e... é complicado).

1 μSv equivale a um raio-x de braço. Para mais detalhes, consulte este brilhante gráfico do xkcd.

Um vazamento de 800 becquerels é bom? Não, mas não é terrível, ainda mais com as correntes espalhando o material de forma horizontal, esses 800 becquerels rapidamente se tornam nada, o único risco é envenenamento por radiação homeopática, mas caso (ou melhor, quando) o vazamento aumentar, o bicho pega.

O Bicho VAI pegar

Se você acha que o K-278 Komsomolets é o problema, acredite, não é. O buraco é mais embaixo. enquanto o Greenpeace se preocupava em fazer piquete em usinas nucleares inglesas, os soviéticos já haviam resolvido o problema do lixo atômico, da forma mais russa possível: Jogando no mar.

Mais precisamente no Mar de Kara:

Sem nenhuma cerimônia os soviéticos usavam a região para se livrar de material contaminado, inclusive submarinos inteiros. OFICIALMENTE os russos admitiram em 2013 que embora tenham assinado um Tratado em Londres em 1971 sobre manejo responsável de lixo radioativo, jogaram no Mar de Kara pelo menos:

  • Dois submarinos inteiros
  • 14 reatores nucleares (dois ainda com combustível)
  • 19 navios carregando lixo radioativo
  • 17 mil containers de lixo radioativo

Conclusão:

Existem muitos, mas muitos casos mesmo de descaso com material radioativo, e mesmo assim o mundo não acabou. Energia Nuclear, como qualquer tecnologia é tão segura quanto decidimos que ela seja, casos como o programa nuclear soviético como um todo demonstram que poderíamos ter muito mais energia limpa e segura se houvesse menos histeria e mais responsabilidade, pois se mesmo com a quantidade imensa de hagadas feitas nos últimos 50 anos (você também, EUA) contamos nos dedos os acidentes sérios.

É errado contaminar os oceanos? Com toda certeza, mas se Gojira não surgiu ainda na Sibéria, talvez seja indicação que Angra II não vai explodir nos próximos 5 minutos, e a palavra "nuclear" não seja sinônimo de "morte certa".

Fontes:

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