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NASA pode abandonar seu foguete gigante e adotar as soluções da indústria privada

Tanto a SpaceX quanto a Blue Origin estão cada vez mais perto de lançar seus foguetes gigantes, enquanto isso a NASA trabalha com uma alternativa própria, mas faz sentido, ser muito mais cara e inferior?

22/11/2018 às 20:28

Você certamente lembra a cena de Apollo XIII quando os engenheiros da NASA precisam adaptar um filtro de CO2 quadrado em um buraco feito para um filtro redondo. Gene Kranz, Diretor de Vôo comenta algo na linha “só podia ser um projeto do Governo”. E era, mas não foi por burrice que a NASA construiu uma nave com dois tipos de filtros diferentes. Na verdade nem mesmo foi a NASA quem construiu o foguete.

No caso da Apollo XIII, a Grumman Aircraft ganhou a concorrência para construção do Módulo Lunar em Setembro de 1962, já a North American Aviation, que construiu o Módulo de Comando e o Módulo de Serviço foi contratada em Novembro de 1961.

Para complicar mais ainda, originalmente o módulo de Comando seria bem diferente, ele começou a ser desenvolvido pensando em um pouso completo, onde a nave inteira pousaria e decolaria da Lua. Internamente o conceito de LOR – Lunar Orbit rendezvous foi proposto em 1960, baseado em um conceito russo de 1919, mas a burocracia interna da NASA fez com que a idéia só fosse considerada a sério e aprovada em Julho de 1962.

Resultado: A NASA tinha um ano de projeto de um Módulo de Comando que não funcionaria com as exigências do Módulo Lunar. Só que já estavam adiantados demais, então decidiram que a North American iria desenvolver DOIS módulos de Comando/Serviço: O Block 1 que seria usado em testes orbitais e o Block 2 que seria usado para viajar até a Lua.

Cada parafuso que voou na Apollo foi feito por uma empresa privada, a NASA cuidava das especificações do projeto, convidava empresas para participar da concorrência, escolhia as vencedoras e elas que se virassem desenvolvendo a tecnologia. Algumas vezes dava muito certo, como no caso dos trajes espaciais, quando uma empresa conhecida por fazer lingeries acabou ganhando o contrato e deixando para trás um monte de firmas tradicionais. Essa história é contata em detalhes no excelente livro Calcinhas no Espaço, em promoção para Black Friday, aproveitem.

O computador de bordo? Uma obra-prima, projetado pelo MIT e construído pela Raytheon. Tudo terceirizado.

Essa percepção passa ao largo de muita gente, e contribui com a idéia errada de que investimento em Exploração Espacial é jogar dinheiro fora. Cada centavo de cada Dólar gasto até hoje com espaço foi gasto na Terra, movimentando a economia local do planeta. E nem foram pra uma Foguetebrás criada pra empregar parentes e virar vazadouro de recursos públicos mal-auditados. São licitações públicas, constantemente questionadas e com acompanhamento ferrenho do Congresso.

Isso acaba até gerando problemas, como a questão dos filtros, mas políticos são políticos e querem que seus Estados garantam uma fatia do bolo, por isso os fornecedores do Projeto Apollo estão espalhados pelo país inteiro, foram mais de 500 empresas, e se a NASA no auge do programa tinha 34000 funcionários, o número de terceirizados e empregados das empresas contratadas chegou a 375 mil. Por isso inclusive as teorias da conspiração são ridículas, como essa cabeçada conseguiria manter um segredo?

A tecnologia foi importante mas o Projeto Apollo é mais que tudo um triunfo de administração e gerência. Tudo tinha que funcionar, vindo de empresas diferentes e com especificações mudando o tempo todo, nenhum módulo é exatamente igual ao outro.

Mas então qual o problema com a SpaceX?

A NASA tem um problema de imagem, quando falam em corte de verbas todo mundo olha pra eles, mesmo que de cada Dólar pago em impostos pelos contribuintes americanos, somente MEIO CENTAVO vá para a NASA. Eles se apegam a suas conquistas, e os fornecedores sabem disso e deixam a NASA ficar com os holofotes. Fora da comunidade nerd ninguém sabe que o ônibus espacial foi construído pela Boeing e pela Lockheed Martin. Quase ninguém sabe que o braço robótico da Curiosity foi feito pela Maxar Technologies, e dezenas de outras partes também foram terceirizadas.

Os lançamentos da NASA por décadas foram quase monopolizados pela United Launch Aliance, um nome que só agora está aparecendo na mídia convencional. Para todo mundo aquele foguete era “da NASA”, quando a SpaceX começou a aparecer com seus projetos a NASA investiu com seus programas de fomento, mas não esperava que Elon Musk fosse ficar com parte dos louros.

Principalmente, ele mostrou serviço muito cedo. A SpaceX foi fundada em 2002, o primeiro Falcon 1 bem-sucedido voou em 2008. Em Junho de 2010 o Falcon 9 já estava voando. Mesmo com os atrasos e todo mundo trabalhando em Musk Time, a SpaceX dá voltas em torno da NASA, que se acostumou a trabalhar com prazos imensos.

Isso irrita muita gente, principalmente no National Space Council, que não gostou nada nada do cronograma da NASA para exploração  lunar, que entre hoje em 2028 prevê DOIS lançamentos do SLS e um pouso experimental (não-tripulado) de um novo módulo lunar, além de (YAYYY!!!) lançarem oito cubesats.

Nos bons e velhos tempos as contratadas ficariam quietas, pois lançando cubesats ou naves completas, ganhariam do mesmo jeito mas Elon Musk quer explorar Marte, e Jeff Bezos quer criar uma economia espacial viável, nenhum deles faz o jogo da NASA e isso incomoda, a ponto de ter gente dizendo que o modelo de recuperar o primeiro estágio “não se provou economicamente viável”, o que não faz o menor sentido.

Para piorar, os novatos estão atrapalhando a brincadeira da turma mais antiga, e expondo absurdos como o projeto do SLS.

O SLS nasceu de uma desgraça, que foi o programa Constellation.

Constellation

Tudo começou quando os EUA precisavam de um meio mais barato de ir ao espaço. Era impraticável continuar com os custos do Projeto Apollo, e isso era sabido antes mesmo do primeiro pouso na Lua, a idéia de uma nave reutilizável parecia o caminho natural, e depois de milhares de alternativas, chegaram ao Space Shuttle, que seria simples, seguro, confiável e colocaria carga em órbita a um custo de US$1397,00 por Kg.

Como todo bom projeto de governo, o Shuttle demorou demais, custou quase US$190 bilhões, cada vôo custava US$1,5 bilhões, a mortalidade era de 2.2% e cada Kg de carga útil colocado em órbita custava US$60 mil.

Naturalmente o Governo decidiu tentar de novo, e em 2005 foi lançado o ambicioso programa Constellation, cujo foco eram os foguetes Ares I e V:

Também faziam parte do programa a cápsula Orion e o Módulo Lunar Altair:

O Constellation deveria economizar uma boa grana usando componentes já existentes, o primeiro estágio do Ares I era essencialmente um dos motores de combustível sólido do ônibus espacial, reaproveitados. Originalmente ele e o Ares V usariam também os motores RS-25 do shuttle, mas adaptá-los ficaria mais caro que desenvolver motores do zero.

No final das contas o Ares I fez o total de UM vôo de testes, ainda sem o segundo estágio.

O programa acabou ficando caro e ambicioso demais, a estimativa era de que ele custaria o equivalente a US$307 bilhões, em valores de 2018. Com atrasos, problemas e quase nada efetivamente construído, depois de fazerem as contas, os políticos não ficaram nada felizes.

Entre 2004 e 2009 o Constellation havia pedido ao Congresso US$8,8 bilhões, e acabou gastando US$11,9 bilhões. Com os desastres da Challenger e da Columbia na memória, era evidente que os Shuttles não durariam muito, e os EUA precisavam manter os vôos para a Estação Espacial Internacional. O Constellation não iria suprir essa lacuna, só gastava dinheiro e em Outubro de 2010 o Presidente cancelou o programa. Thanks, Obama!

Em 2006 a NASA já tinha um plano B, o  Commercial Crew & Cargo Program Office começou a investir em empresas privadas para que elas desenvolvessem sistemas de lançamento de carga e eventualmente astronautas, mas cortes nos investimentos atrasaram boa parte dos trabalhos. O próprio Falcon 9, que usou parte dessa verba atrasou mais de um ano.

Ao mesmo tempo continuaram com o desenvolvimento da Orion, que fez seu primeiro (e único) vôo 9 de Dezembro de 2014, levada por um Delta IV Heavy da ULA.

Com os atrasos os EUA ficaram sem capacidade de colocar humanos em órbita, tendo que depender de assentos comprados dos russos, que aumentaram repetidas vezes o custo, hoje estima-se que saia mais de US$80M por astronauta.

Entra o SLS

Havia um grupo que achava possível viver bem com os foguetes atuais, e cargas mais pesadas poderiam ser lançadas pelos Delta IVs, Falcon Heavies e montadas em órbita, mas o Congresso não queria, precisavam por questões patriótico-eleitorais de um novo foguete, made in usa e assinado pela NASA como nos velhos tempos. Muita gente internamente concordava, e acabou nascendo o SLS, um belo Frankenstein.

Ele terá dois motores auxiliares de combustível sólido derivados dos do Ônibus Espacial. Os quatro motores principais não serão derivados, serão os próprios motores que sobraram das naves em estoque. Ah sim o corpo principal será uma versão esticada do tanque principal do… adivinhou: Ônibus Espacial.

Mesmo com esse reaproveitamento de material, não deu outra: O SLS está atrasado e estourou o orçamento.  Em 2014 a estimativa era que o Space Launch System custaria US$7 bilhões. Em 2017 eles já tinham gastado US$12 bilhões. Em teoria ele deveria estar fazendo seu vôo inaugural… agora. Em realidade, a data mais próxima em que isso pode acontecer é Junho de 2020.

Enquanto isso a SpaceX planeja fazer o primeiro vôo da Big Falcon Ship, ou melhor Starship (foi rebatizada) ano que vem. O New Glenn, o foguete de verdade reutilizável de Jeff Bezos está planejado para voar em 2021.

Caso os dois sejam bem-sucedidos, os custos por Kg em órbita serão incrivelmente reduzidos. Elon Musk diz que o custo de um lançamento do BFR será menor que o de um Falcon 1, o que dá US$6 milhões, isso é tão ridiculamente baixo que dá pra trabalharmos com um custo de US$30 milhões (um lançamento de um Falcon 9 bem usado) e ainda sai barato. Não há estimativas do custo por lançamento do New Glenn, mas não deve ser muito mais caro que a SpaceX.

Já o SLS? O custo previsto por lançamento é de algo entre US$1,5 e US$2,5 bilhões de dólares.

Os críticos estão furiosos, mais uma vez a NASA não baixou os custos por lançamento, investiu bilhões recriando tecnologia obsoleta e ao contrário de antigamente, as empresas não esperaram, estão correndo atrás e propondo seus próprios sistemas, sem mais o medo de perder seu maior cliente.

Barateando o espaço um monte de gente vai querer entrar na brincadeira, ao custo de US$200/Kg da SpaceX até nós construiremos o MeioBitSat, e isso não é uma zoeira, eu falo a sério!

E não é só o MeioBit que está de olho, a própria NASA engoliu o orgulho. Em uma entrevista dia 19 agora Stephen Jurczyk, Administrador Associado da NASA falou com todas as letras:

“Eu acho que nossa visão é que se essas capacidades comerciais se tornarem disponíveis, nós vamos eventualmente aposentar o sistema do governo, e apenas comprar capacidade de lançamento nesses foguetes.”

Dada a inércia conservadora da NASA, isso vai demorar, mesmo quando a SpaceX mandar aquele monte de artistas passear na Lua e trouxer todo mundo de volta em segurança, a NASA ainda vai achar jeito de dizer que não pode certificar a Starship, e precisa de mais alguns anos e modificações.

O risco é que hoje em dia a opinião pública se move muito rápido, e quando os políticos começarem a receber reclamações de dinheiro de impostos jogado fora, bancando um foguete velho e caro enquanto Bezos e Musk passeiam pelo cosmos, eles terão que fazer alguma coisa.

O pior de tudo é que como bem apontam os críticos, esse dinheiro todo poderia estar sendo investido em exploração planetária, em missões como a InSight, a sonda que pousará em Marte dia 26 de Novembro e explorará a geologia interna do planeta vermelho.

A InSight aliás foi construída pela Lockheed Martin e lançada por um Atlas V da United Launch Alliance.

 


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