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Se Nintendo e Microsoft não fizerem nada agora, dificilmente jogaremos GoldenEye 007 no futuro

O que impede de jogarmos um remaster HD do clássico GoldenEye 007 nos consoles atuais? Spoiler: muita boa vontade da Nintendo e Microsoft com a Danjaq.

1 ano atrás

Vinte anos atrás, o irmão mais velho do tio Laguna comprava o cartucho mais jogado do nosso Nintendo 64. Por influência do nosso pai, éramos muito fãs do James Bond e o jogo GoldenEye 007 era simplesmente fantástico. Na nossa opinião, bem melhor que o filme. E tinha aquele multiplayer maroto…

Olhando agora, acho que tanto o filme GoldenEye quanto o jogo envelheceram muito bem: embora tardiamente, o jogo deve ter promovido bem o filme no mercado de home vídeo da época, 1997. E quem vê o filme hoje, ainda pode lembrar que o divertido jogo existiu, e que tal título desenvolvido pela Rare influenciou bastante os games de tiroteio em primeira pessoa para os consoles. Foram mais de oito milhões de cópias vendidas, a maior parte delas nas Américas.

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O tio Laguna arrisca a dizer que, se não fosse pelo lançamento do GoldenEye 007, o Nintendo 64 teria naufragado terrivelmente no ocidente: das 32,93 milhões de unidades, vinte milhões de consoles foram vendidos no continente americano. O jogo veio basicamente um ano depois do lançamento do console e o principal concorrente do N64 já havia feito a festa na Europa e Japão. James Bond N64 foi parte importante da resistência.

Resistência essa que teve um fim em dezembro do ano passado: expiraram os direitos autorais da Nintendo sobre a venda do cartucho de GoldenEye 007.

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10 de dezembro de 2017, o último dia em que a Nintendo poderia lucrar com a venda do cartucho de GoldenEye 007 de forma exclusiva (crédito: CBP)

Isso quer dizer que a Nintendo perdeu a exclusividade de vender e lucrar com cartuchos novos do jogo. Em teoria, qualquer um pode falsificar o cartucho de N64 do GoldenEye 007 e não sofrer processo da Nintendo especificamente por isso. Na prática, claro que a Nintendo ainda detém parte da propriedade intelectual do software em si, por mais uns 75 anos no mínimo. Quem é a atual dona da outra boa parte do software é a Microsoft, proprietária da desenvolvedora Rare.

Sim, todo mundo está cansado de saber que o software GoldenEye 007 está num limbo jurídico bastante complexo. Nintendo e Microsoft são concorrentes no mercado de consoles, embora ambas não se considerem rivais: possuem públicos-alvo distintos e, de certa forma, até complementares. Como a Nintendo of America (NoA) reside na mesma cidade da Microsoft, ambas inclusive possuem um relacionamento respeitoso.

Em 2008 a Rare discretamente trabalhou em um belo remaster de GoldenEye 007 para a Xbox Live, com tudo acertado com a Activision Danjaq e até com a NoA, mas um tal de Satoru Iwata vetou. E este tinha os motivos dele: por mais dinheiro e participação nas vendas que oferecessem, a matriz da Nintendo não permitiria que um software exclusivo dela aparecesse em outro console. Dez anos depois, algo mudou?

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Shuntaro Furukawa, com 46 anos, substituirá Tatsumi Kimishima, 68, na presidência da Nintendo (crédito: Bloomberg)

Talvez. Já tem um mês que a Nintendo é chefiada por alguém que parece trazer nova visão para a japonesa. O novo presidente da Big N é o jovem sucessor de alguém que permitiu um belo marketing como este:


Nintendo → Minecraft Cross-Play Trailer - Nintendo Switch

Já peço desculpas por dizer isso mas Iwata-san deve ter se revirado no túmulo. Nunca antes na história da Nintendo que um concorrente fôra citado em um vídeo promocional dela. Tudo bem que é um vídeo mais voltado para o público ocidental e a Nintendo japonesa ignora, com razão, a existência do Xbox no arquipélago, mas é um senhor avanço. Não, infelizmente não podemos extrapolar isso para uma parceria que permitiria a volta do software GoldenEye 007 ao mercado nos atuais consoles de ambas as empresas, mas sonhar não custa nada. O que custaria, e muito, seria a autorização da dona do conteúdo executado pelo software.

Voltemos à década de 90: o jogo GoldenEye 007 foi feito em cima de conteúdo licenciado, de propriedade intelectual que não é da Nintendo. Os direitos autorais sobre a franquia James Bond 007 pertenciam e ainda pertencem à Danjaq. Na época do desenvolvimento do game, que começou durante as filmagens do longa, em 1994, a Nintendo comprou um senhor pacote da Danjaq: a Rare poderia usar o enredo do filme, as locações e cenários, a icônica abertura e a música-tema da franquia, além da aparência real dos atores nos respectivos personagens do filme GoldenEye. Como bônus, a Rare poderia usar alguns personagens secundários de outros filmes do 007, mas nada de mexerem com outros James Bond. Aí o pacote ficaria (bem) mais caro.

De qualquer forma, a Nintendo arrecadou uns 250 milhões de dólares com o jogo. Só que a japonesa preferiu não continuar a parceria com a Danjaq. E a Rare preferiu investir em uma franquia própria, Perfect Dark. Já 007, uma das franquias mais valiosas do cinema, acabara de se tornar uma das mais valiosas licenças no mundo dos games.

Laguna_007_EoN_2003_game

Lá em 1998, quando a Electronic Arts comprou da Danjaq a autorização para fazer novos jogos da franquia James Bond, a editora também comprou muita aporrinhação. Enquanto a Rare sofria pouca ou nenhuma interferência da Danjaq, a dona do 007 adorava interferir no desenvolvimento dos jogos publicados pela EA. Embora Tomorrow Never Dies e The World Is Not Enough não tenham nenhuma intervenção mais visível, os últimos jogos de 007 pela EA foram marcados por serem menos violentos. Leia-se: mostrando cada vez menos sangue na tela.

Além disso, na questão dos royalties, a EA não teve um pacote fechado como no acordo anterior com a Nintendo: para cada jogo desenvolvido, cada elemento era negociado à parte. Se o jogo da EA usar a música-tema é um valor, se quer reproduzir a abertura na engine in-game o valor é outro, enredos e locações com várias restrições, aparências e vozes dos atores agora são custos separados dos demais… A sorte do (na minha opinião) excelente James Bond 007: From Russia with Love foi que a franquia James Bond no cinema estava no hiato entre Pierce Brosnan e Daniel Craig. Uma das interferências da Danjaq era que o jogo em desenvolvimento tinha que promover o mais recente filme da franquia de qualquer jeito.

Laguna_GoldenEye_007_Reloaded_PS3_cover

E foi de qualquer jeito que a Activision recriou GoldenEye 007 no Nintendo Wii em 2010, com versões HD no ano seguinte para Xbox 360 e PS3. Como o ator protagonista nos filmes mudou, a Danjaq bateu o pé para colocar o atual Bond Daniel Craig num jogo que tenta homenagear um outro game, este baseado num filme com quinze anos. O jogo em si era bom e divertido, mas não era nem de longe o GoldenEye que a maioria dos fãs ansiava. Com o “remake” de GoldenEye, a Activision fez melhor trabalho que o feito em 007: Quantum of Solace dois anos antes. Infelizmente, nenhum dos jogos da franquia 007 que vieram depois daquele desenvolvido pela Rare conseguiu ultrapassar os oito milhões de cópias ou mesmo a arrecadação de quarto de bilhão.

Com resultado comercial aquém do esperado, desde 2014 a licença exclusiva para novos games do James Bond está à solta. Nenhuma editora grande quer pagar caro para promover conteúdo alheio e, talvez, obter algum retorno que cubra os custos de desenvolvimento e distribuição. O tio Laguna deseja muito jogar novamente aquele GoldenEye 007 num console atual, mas para as empresas envolvidas não haveria muito interesse comercial. A Activision tem seus Call of Duty, a Electronic Arts tem seus Battlefield, a Microsoft tem seus Halo e a Nintendo tem Splatoon 2. Sem contar que Naked Snake fica muito bem de smoking.


Rare Thief — Half Hour of GoldenEye 007 XBLA Gameplay

Olha, seria maravilhoso ver GoldenEye 007 Rare Remaster rodando no Xbox One X e no Nintendo Switch. Meu sonho, sonho mesmo era que Phil Spencer estimulasse a Rare a ressuscitar o desenvolvimento daquele remaster enquanto convence a Nintendo a dividirem juntas o elevado custo que a Danjaq pediria. Esse é o mal do conteúdo licenciado: se os direitos expiram, há pouco o que se possa fazer para preservar o jogo. Mais “simples” seria a EA trazer de volta James Bond 007: From Russia with Love ou mesmo o 007: Everything or Nothing, ou a Activision portar GoldenEye 007 Reloaded. Simples, mas há mercado que cubra o investimento?

Estamos há seis anos sem um novo jogo do 007 e não vejo muito futuro desta franquia nos games. GoldenEye 007 do N64 foi fruto de uma enorme combinação de fatores que não se repetirá. Se eu vir o jogo em um Nintendo 64 Classic Edition já ficarei conformado, quase satisfeito.

Fonte: ResetEra.

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