Para surpresa de ninguém, esqueleto alienígena era só um humano esquisito

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Sem que ninguém tenha percebido a questão sobre a existência de fantasmas, pés-grandes, aliens, poltergeists, OVNIs e todo tipo de fenômeno paranormal foi respondida por volta de 2010, com a popularização dos celulares com câmeras. O número de avistamentos continua o mesmo, e a documentação é sempre a mesma: vídeos filmados com uma batata, pelo Michael J. Fox, bêbado, durante um terremoto, em um navio em uma tempestade. Ah sim e a batata é Betamax.

Para piorar é seguro dizer que 100% das imagense vídeos de avistamentos nos canais de ufeiros no YouTube são forjados, o que é interessante, afinal se há tantos casos “reais” pra quê precisam mentir?

Por isso mesmo quando aparece um caso que não pode ser imediatamente desmascarado, a comunidade se agita, poucas vezes ficaram mais agitados do que com a descoberta de um corpo mumificado no deserto chileno em 2003, batizado de Ata:

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Complicado, né? Todo mundo lembra na hora de um alien, e é natural, somos martelados por todos os lados pela mídia para entendermos essa como a imagem de um alienígena, mas sabe o que eu reconheci quando vi a imagem pela primeira vez? Um Sleestak.

Os monstros-vilões do (péssimo, reconheço) seriado O Elo Perdido deram pesadelos a uma geração de crianças, bem antes dos alienígenas de Hollywood se unificarem em modelos padronizados, como os greys, reptilianos, etc. Mesmo assim eu reconheço que Ata pode ser associada com aliens, visualmente.

Só há um problema: Ata tem 18 cm de altura.

Obviamente a origem de Ata é desconhecida, mas podemos descartar origem extra-terrestre aplicando uma ferramenta filosófica criada por um sujeito chamado Guilherme de Ockham (1285-1347). Basicamente ele determinou que “entidades não devem ser desnecessariamente multiplicadas”: em qualquer problema a solução é mais facilmente encontrada apostando-se na simplicidade, e se há duas soluções prováveis, a mais simples usualmente é a correta.

Isso vale pra tudo, de ações militares a desenvolvimento de software. Vejamos no nosso caso como explicar Ata:

1 — Ela é parte de uma espécie extraterrestre que evoluiu independentemente, entre toda a infinita diversidade e infinitas combinações evolutivas, sua espécie chegou ao quase exato modelo do corpo humano, com duas costelas a menos mas até o mesmo número de dedos e vértebras, com uma semelhança maior do que a nossa com chimpanzés, que estão a uma escarrada evolucionária de virar gente.

Essa espécie desenvolveu um programa espacial, dominou o vôo interestelar, saiu pra explorar o universo e entre milhares de estrelas vieram parar no nosso Sistema Solar, encontrando um planeta com criaturas quase iguais a eles, só que gigantes.

Durante uma dessas explorações Ata sofreu um acidente e morreu em uma caverna no Chile, sem roupas. Seus companheiros a abandonaram e seguiram adiante talvez para explorar Marte.

Ou então:

2 — Ata é um feto ou um recém-nascido humano com graves problemas genéticos.

Os ufeiros claro não aceitam a segunda hipótese, e estão estilando de raiva com os resultados de uma pesquisa que durou quatro anos, feita por Stanford e a Universidade da Califórnia em São Francisco.

Os cientistas isolaram DNA da medula óssea de Ata, até conseguir purificar o suficiente para uma bateria de testes, alguns que sequer existiam em 2003. O resultado foi que a pobre menina se fosse alienígena seria perfeitamente saudável mas como humana estava bem estropiada.

Foram encontrados pelo menos 52 marcadores genéticos relacionados com mutações, muitas envolvendo o desenvolvimento do esqueleto, e várias delas desconhecidas. Geneticamente Ata ainda é homo mulher sapiens do sexo feminino, tendo morrido logo antes ou logo depois do parto prematuro. O mais intrigante é seu esqueleto: ela desenvolveu envelhecimento precoce e seus ossos são os de uma criança de 6 anos, só que menores.

Isso provavelmente acarretou insuficiência respiratória, agravada por uma  hérnia diafragmática congênita, uma condição onde o diagragma não se fecha totalmente durante o desenvolvimento fetal. A pobre Ata tinha tudo, Síndrome de Kabuki,que causa deformação facial, Síndrome de Seckel tipo 1, que causa retardo mental e nanismo proporcional, Síndrome de Larsen, que causa sei lá o quê e até Síndrome da Sinostose EspôndiloCarpoTarsal que pelo nome deve fazer a criança nascer com a cara do Costinha.

Ah sim, fora essa parte esquisita o genoma de Ata é perfeitamente humano, se encaixando certinho no perfil genético dos habitantes da região onde foi encontrada. E claro que a pesquisa não foi feita para contestar os ufeiros, havia motivos bem mais válidos, mas não custa nada dar uma espetada e no paper detalhando o trabalho é dito com todas as letras que “o espécime tem origens puramente terrestres”.

Quanto à origem das mutações, uma das hipóteses é que os pais de Ata tenham trabalhado nas minas de nitratos da região, e que estes tenham causado as deformações congênitas. Claro, sempre pode ser também radiação de um tipo desconhecido, usado na propulsão das naves alienígenas que estudavam os humanos chilenos e…

paper com a pesquisa se chama Whole-genome sequencing of Atacama skeleton shows novel mutations linked with dysplasia e pode ser encontrado clicando no link.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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