YouTube está desmonetizando vídeos pelo uso de palavrões, ou nem isso

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Há um problema sério com o YouTube: de uns tempos para cá a plataforma entrou num modo Ebenezer Scrooge e está cortando a grana de uma série de vídeos e canais, seja os com poucas visualizações ou aqueles que promovem conteúdos impróprios, com a desculpa de criar um ambiente com conteúdos para a toda a família. No entanto, presepadas causadas (ou não) por algoritmos dão a impressão de que o serviço está em vias de mudar radicalmente a forma como remunera os criadores de conteúdo, similar ao que fez no passado com o AdSense.

De duas semanas para cá o YouTube, que entrou em um modo carola-quase-Apple começou a restringir a monetização de vídeos que utilizavam linguagem chula, palavrões na descrição, título ou no conteúdo ou coisas semelhantes. Ao que tudo indicava o algoritmo da plataforma havia sido aprimorado ao ponto de ir finalmente atrás dos boca-duras do serviço, que a princípio não haviam sido afetados pela primeira onda de restrições impostas pelo YouTube que estavam afetando principalmente canais pequenos, e há uma lógica nisso que abordarei depois.

Só que aparentemente o algoritmo não é tão esperto assim, ou é eficiente até demais já que começou a restringir os vídeos de análises e unboxing de todo e qualquer criador de conteúdo que se atrevesse a fazer um vídeo sobre o iPhone X. Diz o YouTube que isso não deveria acontecer, que trata-se de um bug do algoritmo que por algum motivo estaria cortando totalmente os anúncios ou restringindo-os, classificando os vídeos como inapropriados para a maioria dos anunciantes.

O Marques Brownlee, um dos melhores canais de análises de gadgets foi afetado, entre vários outros:

O YouTube não teceu maiores explicações sobre o que estava acontecendo, e como o problema afetava quase a totalidade dos vídeos sobre o iPhone X muitos pensaram se tratar de um boicote imposto pela Apple, que não estaria disposta a permitir que ninguém fizesse dinheiro com seu atual top de linha que não eles próprios, mas aparentemente não é o caso: ao que tudo indica o algoritmo está implicando com o “X” do nome, relacionando-o com “XXX” e por isso entende que o vídeo em questão se trata de conteúdo adulto, passando a cortar a grana de todo mundo. Ou ao menos é o que parece.

Neste domingo foi a vez do Lito:

O algoritmo implicou com o vídeo mais recente do canal Aviões e Músicas, especificamente com o termo “desatolar” por provavelmente entendê-lo como um palavrão; tão logo o Lito o republicou com outro nome o robozinho deixou passar, desta vez sem criar caso. Isso reforça a teoria de que o sistema de avaliação do YouTube é burro e como não há um setor de humanos para revisar (o YouTube diz que tem mas é o mesmo que nada), essas coisas vivem acontecendo.

No entanto estes não são os únicos casos de presepadas do YouTube, e de uns tempos para cá muitos canais produtores de conteúdo sério foram perdendo a monetização sem serem dadas explicações. Em alguns casos a denúncia é absolutamente imbecil, mas tanto o Content ID quanto a ferramenta de denúncia têm prioridade e o criador de conteúdo, que a plataforma no passado prometeu proteger de ataques indevidos obra e se locomove por um simples motivo: ela já lucrou com a reprodução e as campanhas dos anunciantes, e pagar para o criador de conteúdo deixou de ser interessante.

No passado, no auge dos blogs o Google pagava volumosas quantias de AdSense aos criadores com a veiculação de anúncios nos sites e mesmo que houvesse gente que tenha abusado do formato (seja com blogs de má qualidade ou anúncios falsos) esse formato de negócio não é sustentável a longo prazo. Com isso o valor do AdSense foi minguando, minguando até a situação de hoje, onde ele paga centavos ou não paga nada. Muitos sites perderam a monetização por uma série de motivos que o Google nunca se dignou a explicar e ficou por isso mesmo, o conteúdo já existe e ele ganha dinheiro indexando e oferecendo-os a parceiros, tirando o blogueiro da jogada.

Foi o que levou muita gente a migrar dos blogs para o YouTube, pois a plataforma pagava bem como nos tempos do AdSense. Um PewDiePie da vida, ainda que ele tenha deixado de ser o queridinho do Google faz muito dinheiro por ano graças ao volume gigantesco de assinantes e visualizações, mas novamente a longo prazo esse modelo não se sustenta: a plataforma pode até fazer muito mais grana que os YouTubers, mas enriquecê-los não é interessante at all. É muito mais vantajoso manter os parceiros comerciais satisfeitos, já que eles têm a grana de verdade.

Foi o que levou o YouTube a começar a restringir a monetização, primeiro para canais a partir de 10 mil visualizações; depois começou a inserir uma série de regras que limou da jogada canais com conteúdos controversos, mesmo os grandes sob a desculpa de priorizar conteúdos para a família. Eu entendo a justificativa, mas ela não é a prioridade do YouTube.

Posteriormente, canais pequenos sem nenhum tipo de conteúdo controverso começar a perder o direito a monetizar seus vídeos, curiosamente sendo canais de ciência os principais afetados. O André foi um deles, o Sacani (do SpaceToday) também levou bordoada. Depois canais grandes como o Cody’s Lab, o AvE, o ElectroBOOM e o The Post Apocaliptic Inventor também tiveram a monetização cortada. O Cody foi ainda pior, pois ele recebeu uma suspensão por causa de uma “denúncia” que o YouTube não sabia de onde vinha, nem fez nada a princípio para combater.

Vale dizer que a responsabilidade de contestar denúncias é do criador, o YouTube manda se entender com o denunciante e se ele dizer “é isso mesmo” a denúncia pode virar um strike e já sabe: três deles e seu canal é deletado.


Cody’sLab — I’m Back! But from what?

Estamos falando aqui de canais relativamente grandes, com de 500 mil a um milhão de assinantes e milhares de visualizações por programa, e os cortes não possuem nenhum tipo de justificativa. Uma teoria, que o André levantou e que tendo a concordar com ele é que o YouTube está aos poucos fazendo a mesma coisa que o Google fez com o AdSense: restringir a monetização cada vez mais para um grupo pequeno de criadores, começando a cortar os canais de indivíduos pequenos e indo para os médios, posteriormente os grandes e por fim tirando todo mundo da jogada, mantendo a remuneração apenas para quem é interessante: os canais pertencentes a companhias que podem vir a ser parceiros comerciais. Os demais ou ganharão muito menos, na casa de centavos ou não ganharão nada, sem que o YouTube dê explicações.

Enquanto isso, canais piratas que mantêm streaming 24/7 de obras protegidas não só permanecem como são destacados na página principal, e por quê? Simples, eles dão retorno com um número altíssimo de cliques, mas mesmo esses no futuro deixarão de fazer dinheiro (se é que fazem); com o tempo nem o formato que a plataforma privilegia hoje, em que força o criador a postar todo o dia e nisso a qualidade foi para o espaço (o que levou à proliferação dos nuteleiros) se sustentará, porque o YouTube como empresa precisa dar lucro e não é sábio pagar rios de dinheiro quando ela pode conseguir tudo de graça. E alternativas externas à monetização já andam sendo combatidas.

E os criadores? Eles poderiam ir muito bem para Vimeo, Dailymotion, Facebook (que é outro sacana) mas sendo pragmático, o YouTube se tornou um Paradoxo Tostines: todo mundo está nele porque ele é o mais visto e é o mais visto porque todo mundo está nele. Uma debandada para rivais em peso poderia até ser uma opção, mas ninguém quer perder visualizações e a possibilidade de fechar campanhas externas por fora, e para isso é melhor permanecer onde você tem mais chances de ser visto.

Enquanto isso, o YouTube faz o que quer e o criador fica refém de um sistema que está dia após dia puxando um pouquinho mais o seu tapete.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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