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Reanimar os mortos talvez não seja uma boa idéia, afinal.

Cientistas estão tentando deixar certos carpinteiros judeus sem emprego. A proposta da experiência é nada menos que… ressuscitar os mortos. Querem tentar umas técnicas estranhas com pacientes que sofreram morte cerebral. A pesquisa foi aprovada mas há várias considerações éticas envolvidas…

4 anos atrás

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Só há um deus e seu nome é Morte. E só há uma coisa que dizemos para a Morte: hoje não

Syrio Forel — Game of Thrones

Antigamente era muito fácil morrer. Parou de respirar? Morreu. Aspirou água quando levou um caixote de uma onda no Mar da Galileia? Morreu. Acordou de mau jeito porque dormiu em cima do braço? Enterra antes que comece a feder. Hoje não: resgatamos pessoas das garras da morte cada vez mais além do ponto que nossos antepassados consideravam irreversível.

O grande problema ainda é o cérebro. Ele é muito frágil, e tende a ser danificado de fora pra dentro, com as áreas mais nobres e recentemente evoluídas morrendo, enquanto as partes internas, que cuidam de metabolismo e funções mais mecânicas permanecem intactas. A natureza é cruel, colocando muitas vezes parentes na difícil situação de decidir se querem que seus entes queridos passem o resto da vida postando comentários no G1, ou se é hora de puxar a tomada e encerrar suas vidas.

A chamada “morte cerebral” é algo controverso, a definição varia de lugar para lugar, em alguns casos exigem que a medula também tenha morrido, em outros somente as funções superiores sendo afetadas já é suficiente. Depender de aparelhos também não é indicativo, o sujeito pode ter funções cerebrais superiores ativas E depender de um respirador.

A palavra-chave aqui é “irreversível”, mas a Ciência DETESTA esse termo: é uma declaração de derrota, um fatalismo e conformismo que funciona melhor na seara da religião. Cientistas querem sempre desafiar o proibido, o senso comum e o que todos consideram impossível. Irreversível? Não senhor!

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Pra Ciência tudo tem um jeito.

Revita Life Sciences é uma empresa da Índia que quer mudar isso, e agora conseguiu autorização para um experimento inédito. Eles querem fazer testes em humanos, mas nada tipo Mengele ou a Unidade 731, as pesquisas serão feitas com pessoas com morte cerebral declarada, segundo critérios rigorosos.

O objetivo não é nada modesto. Conforme descrito na proposta da pesquisa, eles querem…

Reverter a Morte Cerebral.

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A proposta é utilizar extrato de peptídeos, células-tronco, laser trans-cranial e estimulação neural para promover regeneração celular de algum tipo. Durante 15 dias cientistas da Revita e da Bioquark aplicarão o tratamento, que terá sua eficácia medida por EEGs e Ressonâncias.

Olhando o site da Revita me parece uma empresa muito suspeita, mas só o fato de seguirem os canais corretos para esse tipo de pesquisa já aplaca muitas dúvidas, e não estão propondo nenhum tratamento mágico que tenha sua eficácia disfarçada por efeito placebo, como homeopatia ou acupuntura. Verificar a reversão de morte cerebral é algo muito simples.

Alegações extraordinárias exigem demonstrações extraordinárias, e nada mais extraordinário do que uma ressonância funcional mostrando atividade metabólica em uma região do cérebro tão danificada que o máximo que consegue é postar comentários dizendo que o ataque terrorista na Bélgica foi obra do PT para distrair a imprensa do Lava-Jato (sim, eu li isso por aí).

Quais as chances dessa pesquisa dar certo? Eu diria que próximas de zero, mas muita coisa pode ser aprendida, conhecemos muito pouco do funcionamento do cérebro em condições extremas.

Por Outro Lado…

Existe ínfima porém não nula chance de conseguirem algum resultado, o que significa um upgrade de morte cerebral para estado vegetativo. Num caso bem ficção científica/filme de terror, conseguiriam recuperar funções cognitivas básicas. O tecido morto substituído por neurônios novos não teria as mesmas conexões, seriam como cicatrizes tentando conectar áreas funcionais, imagine um disco com boa parte das trilhas lixadas.

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A única certeza é que o resultado não será a pessoa que morreu, mas algum arremedo profano desprovido de humanidade.

A pesquisa foi autorizada pela Comissão de Ética por envolver pacientes legalmente mortos, mas e se der certo e eles tiverem seus cérebros parcialmente ressuscitados? Um corpo reanimado volta a ser uma pessoa, volta a ter direito à dignidade? Se você é ressuscitado em um experimento científico, os cientistas perdem o direito a continuar com a experiência, se o processo dá certo?

O balaio de gatos-zumbis que esse experimento pode abrir é imenso, muito maior do que a própria clonagem, afinal de contas na pior das hipóteses trate-se o clone como um gêmeo e pronto, a Natureza tem feito isso por milhões de anos. Ressuscitar mortos, é bem mais raro e demanda carpinteiros judeus.

Pode ser que essa pesquisa seja a base de uma tecnologia Star Trek que em 400 anos reconstrua o cérebro de pessoas sofrendo de câncer, vítimas de acidentes ou doenças degenerativas, mas valerá a pena se essa tecnologia for baseada em incontáveis monstruosidades vivendo em eterno sofrimento?

Fonte: Popular Science.

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