Resenha: Gravity — um filme perfeito para astronautas, mas não o bastante para chatos de internet

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[RESENHA SEM SPOILERS]

Existe um motivo pelo qual nerds de internet não podem ter coisas legais: são eternos insatisfeitos. Aceitam Jedis, zumbis, vampiros, japas teleportadores e cheerleaders wolverines, BABAM por uma série de 5 episódios que não passou de uma versão kibada de Galaxy Rangers, compram qualquer Universo Fantástico sem questionar, reclamando da falta de filmes espaciais sérios. Aí surge Gravity, a primeira coisa que fazem é gongar o filme por causa de minúcias científicas irrelevantes pra história.

E Gravity, como todo bom filme de ficção científica, é sobre a história, sobre pessoas, não sobre tecnologia. Essa discussão aliás vai longe. Será Gravity Ficção Científica — o gênero maldito — ou terá transcendido? Sinceramente acho nojento esse preconceito. Desde Julio Verne que ficção científica é considerado um gênero menor, esnobado pelos defensores da “real” literatura.

Gravity é ficção científica — se passa em um futuro alternativo onde os EUA ainda têm um programa espacial — e é uma história fantástica, sem pewpewpew e outros clichês tão apontados pelos detratores do gênero. Vamos então entender como basicamente uma atriz segura um filme inteiro, sem nem Houston pra ouvir seus problemas.

MimikoFernandes — Gravidade – Trailer 4 Legendado

No filme Sandra Bullock é uma especialista de missão, ou seja, uma cientista ou engenheira que recebe treinamento mas não é astronauta “profissional”. Ela está instalando um upgrade no Hubble, enquanto George Clooney bundeia pelos arredores em uma mochila Buck Rogers. Do nada o Controle da Missão avisa que um míssil russo atingiu um satélite e provocou uma reação em cadeia chamada Síndrome de Kessler, onde destroços atingem outros satélites, causando mais destroços, destruindo outros, outros e tornando a órbita baixa da Terra “inabitável”.

Quando estão voltando para o Shuttle a nuvem de destroços atinge a nave, matando todo mundo e deixando apenas o casal, perdidos no espaço.

Sandra Bullock não cai na trope de mocinha indefesa, ela é uma profissional altamente qualificada lutando pela sobrevivência, mas ao mesmo tempo, vítima de uma tragédia pessoal, ela não tem muito por que viver. Ela chega a desistir várias vezes, mas percebe que viver é uma dádiva grande demais para ser jogada fora.

Não se engane, Gravity é uma montanha-russa não só emocional como visual, vai te causar orgasmos visuais como Avatar, 2001, Guerra nas Estrelas e Jurassic Park, mas… não precisa. Os efeitos não são muletas, são um traje Mark XXVIII do Homem de Ferro. Tire o traje e ele não cai, continua sendo playboy, gênio, filantropo e bilionário.

Gravity poderia ter sido feito em um cenário único, fechado, com o controle da missão falando ao rádio e os dois atores reagindo, na cabine de comando de uma cápsula. Não foi, então além da densidade dramática, temos visuais DESBUNDANTES do espaço.

Vários astronautas rasgaram elogios, não conseguiam acreditar na precisão do visual, os objetos e naves estão idênticos, o que não é cientificamente preciso, se deve à licença poética, o que é apropriado em um filme que é poesia pura.

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Não compre o mimimi do Neil DeGrasse Tyson no Twitter. Eu compreendi. Ele perdoa Star Wars por ser fantasia mas não perdoa Gravity por ser… plausível. Para ele é como se a Olivia Benson puxasse um neuralizador no meio de um episódio de SVU, mas não é. As “falhas” de Gravity são os exames de DNA de CSI saindo em minutos, são necessidades para que a trama flua.

Astronautas não são tão bundalelê como o George Clooney, nem ficam dando rolés enquanto outros trabalham. O Hubble nunca fica tão próximo da Estação Espacial Internacional, e por aí vai, mas de novo: é um filme, não um documentário. Quer um documentário? Assista os vídeos da NASA.

Sério, se não viu Gravity, assista antes este vídeo da comandante da ISS, a astronauta Helena Bonham Carter Sunita Williams, mostrando todos os compartimentos da estação. Se você já viu Gravity, assista e veja como foram precisos nos cenários e na movimentação dos astronautas.

NASA — Departing Space Station Commander Provides Tour of Orbital Laboratory

Gravity tinha tudo pra ser o pesadelo de gente que como eu gosta de filmes com coisas que explodem, na melhor das hipóteses seria 96 minutos de DR no Espaço, ou então algo leeeeeento como 2001 ou Europa Report, mas não. Mesmo quando está sozinha Sandra Bullock não está parada. Quando não está falando está se expressando com a respiração, com os olhos.

Você, claro, torce pela personagem, mas chega uma hora em que não está mais tão preocupado se ela vai voltar pra Terra, mas que ela se salve internamente. O filme inteiro é uma metáfora, sem aquele ranço de livro de auto-ajuda, ou parabolinhas para salsas entenderem conceitos básicos.

Há filmes com mensagens que você pode apreciar de um ponto de vista superficial. Matrix é um excelente filme onde um sujeito aprende a brigar mais rápido e só, ou uma alegoria sobre quem controla nosso mundo. Já Gravity VAI te fazer considerar questões existenciais, sem te forçar, é apenas… inevitável.

Conclusão

Gravity é, como Arthur Clarke falava, o proverbial “bom filme de ficção científica”. Mostra a maturidade do gênero, o triunfo do conteúdo sobre a forma, e demonstra que com competência de todos os lados, mesmo fazendo tudo “errado”, sem som no espaço, sem dezenas de atores, sem reviravoltas, ainda sai uma obra-prima.

Inclusive, recomendo: assista em IMAX e 3D. Sim, 3D, depois de Avatar e da cena das Wingsuits de Transformers 3 Gravity é a única coisa que presta ser assistida em 3D. Você vai se maravilhar com as explosões, mas baterá palmas para a tridimensionalidade no momento das lágrimas, só digo isso.

Em um lado mais leve, Clooney faz papel dele mesmo, e temos uma homenagem descarada a WALL-E. E a Perereca da Sandra Bullock, que nunca antes havia sido mostrada no cinema.

O lado ruim é que você ficará com tanto medo que nunca mais colocará o pé em uma nave espacial.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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