Outro mito que cai: não temos tantos neurônios assim

Existem mitos populares, como a besteira “só usamos 10% do cérebro”, mitos baseados em erros de digitação, como o que transformou a Amazônia no Pulmão do Mundo, mas o curioso é que mesmo dentro da ciência há mitos persistentes, são informações simples que ninguém contesta por não serem essenciais e soarem razoáveis.

Uma delas é o número de neurônios no cérebro humano. A literatura especializada cita um valor médio de 100 bilhões para homens adultos. Só que a literatura cita mas não define a fonte. Foi vendo isso que um enorme CITATION NEEDED piscou na brilhante mente da Suzana Herculano, a Carl Sagan da Neurociência no Brasil.

Depois de pesquisar bastante ela descobriu que ninguém tinha realmente feito uma pesquisa, o valor era um belo de um chute. Vendo a chance de produzir conhecimento, Suzana – a quem tive a honra de conhecer no II EwClipo – arrumou uns cérebros e botou a mão na massa (cinzenta).

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Reconstituição aproximada

Agora, a questão: como saber quantos neurônios há em um cérebro? Eles são coisas complicadas, pra piorar áreas diferentes apresentam densidades diferentes de neurônios.

A solução foi trivial, mas ao mesmo tempo genial: ela dissolveu um cérebro em uma espécie de sopa; utilizando reagentes específicos dissolveu as paredes celulares, transformando o que antes foi uma pessoa em um balde de citoplasma gosmento.

Misturando bem, deixando a sopa homogênea, ela removeu uma quantidade específica de material, colocou sob um microscópio e contou quantos núcleos de neurônios havia.

De posse desse número, foi só extrapolar para o total de gosma presente no balde.

O resultado foi que na média (ela testou 4 cérebros) um cérebro tem 86 bilhões de neurônios.

É uma diferença importante. 14 bilhões de neurônios equivale a um cérebro de babuíno e é quase metade de um cérebro de gorila, ambos primatas bem inteligentes.

Tecnicamente os cientistas achavam que éramos um macaco mais inteligente do que realmente somos. Na prática o neocortex, onde está tudo que nos torna humanos, só contém 19% dos neurônios do cérebro, isso daria 16 bilhões. A margem de erro dos chutados 100 bilhões e quase suficiente para nos destituir de nossas faculdades mentais superiores.

Tudo isso graças a boa e velha curiosidade científica, mostrando que em ciência mesmo que haja coisas que “todo mundo sabe”, não há dogmas, tudo é passível de questionamento.

Fonte: Guardian.

Aqui o trabalho detalhado.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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  • Mas foi um chute bom… de 100 pra 86 bilhoes…hehe tirando o fato que são bilhoes.. de 100 pra 86 é razoavel..

    Ou isso significaria que antes o cérebro era maior? Quem sabe se alguém não fez o mesmo, e a media era maior? Derrepente isso significa que estamos diminuindo o tamnho de nosso cérebro..

    O que explicaria os funks, bbb, facebook, e outras drogas de hoje em dia……

    • SilverPanda

      Nada é capaz de tirar 14 bilhões de neurônios de um cérebro, nem mesmo drogas e programas de gosto duvidoso… o cérebro não era “maior” no passado.
      A estimativa dos 100bn não foi uma análise, foi só um chute, eles fizeram regra de três com um cérebro de macaco envolvendo capacidade mental ou quantidade de energia necessária para manter o cérebro (nosso cérebro é tipo um bebê, usa 25% das nossas calorias diárias) e chutaram 100 bilhões. Não foi um chute ruim, na verdade.

      • Achei que você entenderia o senso de humor do colega.

    • Ricardotr

      Concordo. Acho que para um chute até que eles chegaram bem perto.

  • Alexandre Oliveira

    Para que não conhece o “erro de digitação” do “Pulmão do Mundo” (eu não conhecia): http://reporterdaamazonia.blogspot.com/2011/01/desfazendo-o-mito-da-amazonia-pulmao-do.html

  • Xultz

    ” 14 bilhões de neurônios equivale a um cérebro de babuíno e é quase metade de um cérebro de gorila, ambos primatas bem inteligentes.”
    Só fiquei curioso quanto a isto: já que o número de neurônios do cérebro humano era uma infomrção imprecisa, será que a gorila e do babuíno são imprecisas também? Assim, a comparação continua sendo um chute.
    Por outro lado, se a informação do número de neurônios do babuíno é precisa, podemos concluir que sabemos mais do babuíno do que de nós mesmos.

    • Daniel Almeida

      Eu pensei a mesma coisa.

    • Robson Pestana

      Exatamente! De onde vem a informação do número de neurônios do babuíno e do gorila?

    • profeloy

      Eu tb fiquei curioso sobre esse ponto.

    • PredadorJrk

      Acho que é mais fácil conseguir o cérebro dos símios do que de humanos

    • Idem.

  • Daniel Almeida

    Interessante mas fiquei com algumas dúvidas que devem ser esclarecidas no artigo dela mas não cabem tantos detalhes no post.
    Cérebros mortos tem a mesma quantidade de neurônios de vivos? A perda, se significativa, foi levada em conta por ela?
    4 cérebros servem para determinar o valor?
    Você falou do valor de neurônios de babuínos e gorilas, fizeram o mesmo método para contá-los?

    São dúvidas, não desafios ou ceticismo.

    • SilverPanda

      Olha, não sei os procedimentos para conservar o cérebro morto, mas tendo sido um feito citado na Nature, imagino que o cérebro foi retirado assim que ocorreu a morte e mantido preservado.
      E quanto à contagem de neurônios de babuínos e gorilas, tive a impressão que isso ocorreu “manualmente”, já que são cérebros bem menores e mais simples. Contaram quantos neurônios havia em uma porção de um setor do cérebro e escalaram posteriormente. Pelo menos isso que passou pela minha cabeça.

  • “Suzana Herculano, a Carl Sagan da Neurociência no Brasil.”

    Isso é piada, né? Só porque apareceu na TV aberta ela agora é baluarte de alguma coisa?

    • Jos_El

      Eu até que não colocaria ela nesse patamar. Mas os livros, artigos de divulgação científica, palestras e trabalho em geral em seu laboratório a fazem merecer a comparação. Televisão é apenas uma parte do que ela faz.

    • E só porque apareceu na TV agora é POP, traiu o movimento e nada mais do que ela faz deve ser levado a sério né.

  • Ai que loucura!! Que mitão que caiu!

    • Gênios pelo visto divivindo os 14 bilh~~oes que sobraram com a população da China:

      Cientistas descobrem número de neurônios do cérebro humano19 de fevereiro de 2009 • 08h25 • atualizado em 26 de outubro de 2009 às 15h53

      Isso em 2009… assim… que diabos de matéria é essa se não é 1 de abril?
      http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3585927-EI8147,00.html

  • Em termos de “ordem de grandeza” até que o chute inicial não foi dos piores. Bom saber também que tem pessoas que não se conformam com o que “já se sabe”, e buscam responder se é aquilo mesmo ou se dá para saber mais à respeito 🙂

  • Ricardo Silva

    O Texto e o assunto abordado são excelentes, mas o resultado final, meio que choveu no molhado.

    Falar que a diferença encontrada seria a quantidade aproximada de neurônios no neocortex não diz muita coisa, pois áreas diferentes do cérebro, possuem organização diferente, formas de trabalhar diferentes e a quantidade de neurônios não seria o único fator a ser analisado, para se chegar a tal conclusão, e o próprio texto já deixa claro isso.

    Baseado no que falei acima, também não leva a lugar nenhum comparar esta diferença com cérebros de outros primatas.

    Quais garantias que ela dá, que o processo que ela utilizou para dissolver o cérebro não destruiu alguns neurônios, ou geraram alguma mudança que pudesse influenciar o resultado final?

    O resultado que ela encontrou é uma aproximação logo, se corrigiu um chute com outro chute.

    • Cara… Ela é neurocientista / pesquisadora, conclui-se com isso que ela no minimo sabe o que esta fazendo e as influencias do processo utilizado, pelo menos é isso que pensamos quando vemos um trabalho cientifico de uma pessoa renomada como é o caso…

  • hamacker

    Esses números chutados são bastante comuns, outra brasileira havia descoberto um desses chutes :

    Citação :
    “Se a quantidade de hemoglobina (proteína responsável pelo transporte de oxigênio para os tecidos) cai a níveis inferiores a 10 gramas por decilitro de sangue, o cirurgião pede uma transfusão. Os médicos não se perguntavam de onde havia saído esse limite. Ludhmila decidiu investigar o procedimento em seu doutorado, orientado por José Otávio Auler Jr., na Universidade de São Paulo. Descobriu que ele se justifica pela tradição – e não pelo embasamento científico. ”

    Link : h*t*t*p*:*/*/*revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI242291-15230,00-A+INDUSTRIA+DO+SANGUE.html

  • Com base na quantidade de neurônios, se juntarmos 4 babuínos dá um humano?!

  • Pelo descrito o processo destrói muitos/alguns neurônios. O fato de ser publicado na Nature não quer dizer que seja verdade verdadeira, pois os analistas dos trabalhos são humanos e influenciados pelos diversos chutes.

  • Pelo descrito o processo destrói muitos/alguns neurônios. O fato de ser publicado na Nature não quer dizer que seja verdade verdadeira, pois os analistas dos trabalhos são humanos e influenciados pelos diversos chutes.

    • A vantagem do método científico e de um trabalho corretamente apresentado como o de Suzana é que ele é baseado em experimentação, repleto de citações biográficas sustentando os dados apresentados. Assim idiotas desqualificados xingando em comentário de blog não passam de idiotas desqualificados xingando em comentário de blog.

      E nem vou me dar ao trabalho de explicar o conceito de Peer review.

  • PORRA! E ninguém tinha feito isso até agora ?

  • É válido lembrar que todo esse trabalho da Suzana Herculano foi realizado junto ao laboratório do Roberto Lent, autor do “100 Bilhões de Neurônios” e uns dos que acreditava nesse número, até decidir testar – com a Herculano – a veracidade desta afirmação.

    No fim das contas, após esse texto, só lembraria que apesar das comparações o número de neurônios ainda não é o ponto principal para a diferenciação de inteligência e capacidades cognitivas entre os animais, mas sim a “quantidade” (o que certamente aumenta com um grande número de neurônios) e “qualidade” de conexões sinápticas realizadas.

  • http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3585927-EI8147,00.html em 2009… notícia muitoooooooooooooo velhaaaaaaaaaaaa

  • Luis Eduardo Rodrigues

    No site da FAPESP tem uma reportagem bem legal e acessível sobre a pesquisa: http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4607&bd=1&pg=1&lg=

  • Hlio PinheiroMotaFilho

    Muito bom o post.
    Ela (Suzana Herculano) e o pesquisador Robert Lent, trabalharam juntos nisso faz algum tempo. Ela descobriu isso através da técnica chamada fracionador isotrópico em 2009
    Notícia antiga porém de grande utilidade

    Abraços

  • Guest

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