Hellblade: Senua’s Sacrifice — Review

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Uma das características comuns a boa parte dos jogos eletrônicos são os protagonista superpoderosos. Ao criar personagens para suas obras, os autores de games costumam aproveitar a mídia para nos colocar no controle de pessoas praticamente sem defeitos, heróis que mesmo parecendo frágeis no início, sabemos que evoluirão até se tornarem seres que se aproximarão da onipotência. Já no caso do Hellblade: Senua’s Sacrifice, o pessoal da Ninja Theory queria seguir por outro caminho.

Bebendo das mitologias celta e viking, o estúdio britânico criou a personagem que empresta seu nome ao título e de forma surpreendente recorreu a algo tão interessante quanto arriscado para torná-la mais humana: fazer com que Senua sofresse de psicose. Isso poderia ser encarado por alguns como uma estratégia barata para chamar a atenção, mas bastará alguns poucos minutos dentro do jogo para percebermos que a ideia foi brilhante.

hellblade-senuas-sacrifice-5Para entender como os problemas psicológicos da protagonista se encaixam no enredo (e até na jogabilidade), primeiro precisamos falar sobre o seu passado. Nascida numa aldeia celta que foi isolada das demais pelos romanos, Senua aos poucos começou a ter visões e a ouvir vozes. Para os que conviviam com ela, aqueles eram sinais de poderes sobrenaturais, fazendo com que a garota se isolasse numa floresta. Com o tempo o exílio chegou ao fim, mas quando ela voltou para casa descobriu que o amor da sua vida tinha sido cruelmente assassinado por invasores vikings.

Em busca de vingança e planejando trazer o amado de volta à vida, Senua parte em uma perigosíssima viagem rumo ao inferno nórdico, onde pretende enfrentar a deusa Hela e assim conseguir se redimir. Durante o caminho ainda conheceremos um pouco da mitologia viking, mas o que já seria uma tarefa quase impossível se torna muito mais complicada devido aos problemas mentais da guerreira. E é aí que o Hellblade se destaca.

Sabendo que estavam lidando com um assunto que mesmo hoje em dia é bastante delicado e pouco conhecido, os membros da Ninja Theory recorreram a neurocientistas e pessoas diagnosticadas com psicose para tentar representar da melhor maneira possível os efeitos da doença. Isso os levou a um longo estudo e muitos testes, com o resultado sendo um dos jogos mais perturbadores que já tive tive contato.

Grande parte do sofrimento que somos submetidos a encarar junto com a protagonista vem das vozes que ela houve constantemente. Usando uma técnica conhecida como som bineural, onde os efeitos nos dão a impressão de estarem vindo de várias direções, é angustiante a maneira como as vozes tentam interferir nas ações de Senua, ora dando dicas valiosas, ora tentando desencorajá-la. Com uma execução tão brilhante, o conflito psicológico vivido pela personagem acaba nos afetando, mas para que isso aconteça é obrigatório jogarmos com fones de ouvido.

O jogo também brilha ao nos apresentar diversas alucinações visuais, umas mais sutis — e que não percebi inicialmente — e outras bastante explicitais, chegando até a momentos em que Senua parece se desligar do mundo a sua volta. Aliás, o Hellblade: Senua’s Sacrifice também flerta com a representação da depressão, problema que pode estar diretamente relacionado à psicose e que obviamente era ainda menos compreendido há alguns séculos.

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No entanto, apesar de todo o primor técnico na parte sonora e visual (com uma das capturas de movimentos mais incríveis que já vi), o jogo não pode ser considerado impecável quando se trata de sua jogabilidade. O principal defeito do Hellblade está nas suas batalhas, que embora consigam entregar um nível de desafio bem elevado, são muito simples e repetitivas. Isso se deve desde a pouca variedade de inimigos até os movimentos, fazendo com que cada combate pareça apenas uma mera repetição dos anteriores.

Também pode desagradar um pouco os quebra-cabeças com os quais nos depararemos de tempos em tempos. No geral eles apenas exigirão que encontremos certos padrões nos cenários e se durante a aventura eu não consegui entender muito bem como eles se encaixavam no enredo, depois tudo passou a fazer mais sentido. Ainda assim, o desafio proposto por eles será bem baixo.

Ou seja, Hellblade: Senua’s Sacrifice é mais um daqueles casos de jogo que peca em alguns aspectos, mas que acerta muito por oferecer uma narrativa espetacular e por usar as próprias características da mídia para incrementar a história. Se pensarmos nele apenas como um game, talvez não se trate de um muito acima da média, mas ao olharmos para a criação da Ninja Theory como a experiência como um todo que ela se propõe a oferecer, aí estamos falando de uma das obras mais sensacionais dos últimos tempos.

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Podendo ser considerado uma bela alegoria para tratar de um assunto tão complexo e que atormenta milhões de pessoas em todo o mundo, eu comecei a jogar o Hellblade: Senua’s Sacrifice achando que encontraria nele apenas um bom game, mas acabei recebendo mais uma confirmação de que se os games não podem ser considerados arte, acho que muitas outras formas de expressão também não deveriam ser.

PS: após terminar a campanha do Hellblade: Senua’s Sacrifice, não deixe de assistir o documentário que a Ninja Theory fez sobre o processo de criação do jogo. Nele entenderemos melhor muitos do elementos utilizados pela equipe e se ao subir dos créditos eu já havia achado o título muito excelente, após ver esse material passei a respeitá-lo muito mais.


Ninja Theory — Hellblade: Senua’s Sacrifice | Official Trailer | PS4 & PC

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Autor: Dori Prata

Pai em tempo integral do pequeno Nicolas, enquanto se divide escrevendo para o Meio Bit Games, Techtudo e Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.

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  • Julio da Gaita ✔

    oia, bem que tinha comentado sobre o review no post anterior.

    Parece bom, mas de boas de joguinho pra jogar com o brioco na mão, e como jogo mais a noite, deve ser combustivel pra altos pesadelos. Mas proposta interessante, pegar quando tiver em promoção msm.

    • Cocainum

      As vozes e o enredo podem ser um pouco perturbadores, mas não acho que seja um jogo que chegue a dar medo.

      Eu assisti um gameplay completo e estava muito a fim de comprar, mas como nem eu e nem meu filho somos do tipo que zeram Dark Souls com uma mão nas costas, fiquei meio receoso porque tem algumas batalhas bem tensas em alguns momentos, e o risco de não conseguir avançar ou até mesmo acabar zerando o save é bem grande.

      • Julio da Gaita ✔

        nem me fala, desisti de jogar bloodborne pq achei chato e morria direto pro cachorro/urso do começo. Mas sempre que vejo um gameplay acho bem interessante, vou tentar jogar o bloodborne e esperar quem sabe uma promo da plus pra pegar o hellblade.

        Mas definitivamente, tentar não jogar de noite ele, sou cagão bagarai…rs

        • Vinicius Vasques

          Eu platinei o Bloodborne uns meses atrás. O macete é você ter timing para atirar e usar armas rápidas. Por ter inimigos e elementos fixos, o fator surpresa se esvazia rápido, principalmente quando você entende de onde veio a porrada rs

          • Julio da Gaita ✔

            com certeza vale a pena dar uma chance, mas dá preguiça tinha até impresso um walktrough pra platina, mas acho q vou jogar só pela diversão.
            De uns tempos pra cá não venho gostando de jogos AAA super famosos e com campanhas “memoráveis” segundo a indpustria, Horizon Zero Dawn deixei pra fechar depois pra conseguir a platina ao fechar, mas achei o jogo chato pra caralho e muito clichê.
            Peguei o Tomb Raider novo e consegui me divertir tbm, mas não tenho paciência mais pra colecionáveis e essas coisas. Mas to bem ansioso pelo Ultimate do FIFA 18 e até pelo COD WW2 sem pulos duplos e robôs coloridos.
            Pra mim a graça tá justamente na imprevisibilidade e na liberdade de gameplay, derrotar uma pessoa de verdade é bem mais interessante q um NPC..

          • Felipe Lino

            Eu gostei pra caramba de BB e Horizon, até platinei. Mas no final concordo com vc:
            “derrotar uma pessoa de verdade é bem mais interessante q um NPC”. Nada me prende mais que um bom MP.

          • Vinicius Vasques

            Eu sou fã dos NPCs rs nunca fui um cara de jogar online. Mas falando em FIFA, uma das coisas que mais curti no 17 foi a tal novela do Alex Hunter. Foi o que prendeu mais tempo minha atenção.

          • Julio da Gaita ✔

            hahaha, gosto é gosto msm, achei legal pra ensinar as paradas tipo um tutorialzinho com história, mas chato não poder fazer o seu carinha e sim o Alex Hunter.

      • BIN

        Vale a pena, as batalhas só são complicadas até você pegar o jeito, depois fica bem simples, como na série de jogos do Batman.

      • Se deixar a dificuldade no Easy é bem tranquilo. Basta ter atenção.

  • BIN

    Achei o jogo muito bom, apesar de curto.
    O conceito do jogo é muito legal e jogar com fones de ouvidos faz realmente a diferença.

  • Pena não ter para XOne.
    Esse jogo e o remaster de Shadow of the Colossus me tentam a pegar um PS4.

    • Flávio Pedroza

      Tenho notado que alguns jogos tem saído para PS4 e PC, mas não XBOX One. Na geração passada, geralmente quem ficava de fora era o PC.

    • Cocainum

      A não ser que tenha rolado um “jabá” da Sony, eu não sei a razão de não terem lançado para X1. Tá certo que não tem a mesma base do PS4, mas mesmo assim, tem muuuuita gente que poderia jogar no console da MS.

      • Rodrigo Lopes

        Sem contar que eles poderiam ter feito com aquilo de “Universal App” da microsoft, e atenderia ao msm tempo o PC e o XOne.

  • Linus Taralds

    Eu confesso que além de tudo que foi falado, gostei muito dos puzzles do jogo, são diferentes do que estamos acostumados e nem todos são muito fáceis não (eu pelo menos demorei um pouco pra pegar a lógica deles).

  • Jhonathan Vieira

    É bom que ainda existam desenvolvedoras que arriscam, a maioria fica na zona de conforto mantendo o mercado estagnado. Por isso os indies tiveram um boom e espero que a atitude da Ninja Theory inspire outros e que o jogo seja um sucesso comercial.
    E pra quem quiser ver a evolução que eles trouxeram pro motion capture, aqui vai um belo video:
    https://www.youtube.com/watch?v=smj8i1__bmo

  • F4v3r0

    Esse jogo é um alento para os jogadores cansados dos jogos que parecem apenas mudar a skin. Uma das melhores experiências sonoras que já tive. Um enredo muito fora da curva. Concordo com a repetição do combate, mas o jogo é muito mais do que isso.

  • Jefferson Viana

    Ele é indie mesmo?????

  • Eduardo Pereira

    Jogo chato pra caralho. Só tem gráfico.

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