Resenha — Carros 3 (sem spoilers)

Vamos admitir: quando você pensa “Pixar” os filmes que vêm à mente são os unânimes Toy Story, Procurando Nemo, Vida de Inseto, Os IncríveisMonstros S.A. e os mais recentes porém já clássicos Wall-E, Up: Altas Aventuras, Ratatouille e Valente, mas estranhamente isso não acontece com a franquia Carros.

O filme original com os veículos cheios de personalidade é a menina dos olhos de John Lasseter, uma das ideias originais traçadas naquele mítico jantar com o então dono do estúdio Steve Jobs (quando ele ainda comandava a NeXT, antes de voltar para a Apple) e mesmo assim, nunca foi um grande sucesso de público. Carros 2 então foi um desastre automobilístico, uma aventura pela aventura um tanto vazia, uma paródia dos filmes de James Bond que é de longe o pior filme da Pixar.

Por isso mesmo, quando Disney e Pixar anunciaram Carros 3 todo mundo ficou com um pé atrás. Qual seria o caminho aqui? A solução foi mexer com o sentimento de nostalgia do espectador e tratar de um tema mais sério: o legado.

“Eu ainda sou a velocidade!”

Começando pelo começo, o primeiro Carros não é tão fraco quanto as pessoas dizem. Ele teve na verdade uma campanha ruim de marketing, se focando exclusivamente em vender um produto para crianças leve e visualmente atraente quando Lasseter na verdade fez do filme uma carta de amor ao automobilismo e a indústria de carros como um todo. Debaixo da lição de moral e humildade que Doc Hudson e todos de Radiant Springs deram no convencido Relâmpago McQueen, havia uma obra cheia de easter eggs para os aficcionados pelas quatro rodas captaram de cara, desde o fato da placa de Luigi, o simpático Fiat 500 fã da Ferrari apontar para as coordenadas da fábrica da escuderia em Maranello quanto Sally Carrera ser inspirada na dona do Rock Café Dawn Welch, uma das maiores defensoras da revitalização da Rota 66.

Isso e piadinhas envolvendo as marcas de caminhões Mack e Peterbilt (que se perdeu na localização) e Doc Hudson ser uma homenagem ao Hudson Hornet ano 1951 pilotado por Herb Thomas em suas corridas de Nascar (evidenciado pela placa 51HHMD, onde o M.D. é pelo fato dele ser um médico), sem falar que ele foi dublado pelo excelente e saudoso ator Paul Newman, ele próprio um ex-corredor da Nascar só ajudam para fazer de Carros uma pérola subestimada, muito querida entre os petrolheads. Qualquer um que entende de carros ama esse filme.

Ainda assim a bilheteria não atingiu o resultado esperado e para Carros 2 decidiram focar na aventura. O resultado foi um filme chato, fraco e burocrático que não tem a excelência do selo Pixar de qualidade, e sem surpresa é frequentemente referenciado justamente como a pior produção do estúdio, um mero caça-níqueis ainda que tivesse alguns bons momentos, como o sermão que o “tio” Topolino passa no McQueen (because Disney, sempre tem que ter lição de moral; ainda assim o ator Franco Nero fez um Fiat 500 pré-WWII muito bom).

A força de Carros sempre esteve nos excelentes personagens com que McQueen interagia naquele fim de mundo chamado Radiator Springs, veículos de um passado que ele sempre relegava por se considerar o ás da corrida e nunca parar para olhar o que estava ao seu redor, fossem as paisagens da estrada ou aqueles que se importavam de verdade com ele. Foi esse sentimento que a Pixar procurou recuperar em Carros 3, mas mudando o foco e fazendo do próprio carrinho vermelho o “velhaco” da trama.

E aí o filme derrapa.

Cadê todo mundo?

Na trama McQueen já é um corredor veterano, tendo vencido a Copa Pistão várias vezes e ainda um dos maiores corredores de sua categoria, mas as coisas começam a mudar quando uma nova geração de corredores, capitaneada pelo novato arrogante Jackson Storm superam todos os adversários com uma performance fora de série. Carros treinados pelo que há de mais moderno em tecnologia, eles aos poucos vão suprindo os lugares dos competidores tradicionais e de repente McQueen se torna o último representante da antiga geração, sofrendo derrota atrás de derrota.

É quando sua persona de campeão metido a besta faz seu previsível estrago, onde o protagonista sofre um acidente feio e a imprensa praticamente decreta sua aposentadoria. Todo mundo, inclusive seu novo patrocinador quer que ele pare mas McQueen não está disposto a desistir, e parte numa missão de superar Storm e companhia e vencer a corrida final, sua última chance de continuar correndo profissionalmente.

A ideia do filme é que o tempo passa para todo mundo, até para McQueen mas ele não aceita, se recusa a enxergar um palmo à frente do nariz de que talvez seja a hora de abrir caminho para os mais jovens. Ele acredita que não merece ter o destino de Doc Hudson, que (segundo McQueen) foi forçado a desistir e quer de todo jeito ditar quando deve parar. Para isso ele conta com a ajuda de Cruz Ramirez, sua empolgadíssima treinadora (que conta com um assistente virtual chamado Amílton ou… Hamilton. Sim, no original ele tem a voz de Lewis Hamilton).

Exatamente por se focar numa jornada de superação de McQueen, Carros 3 abre mão de explorar mais dos residentes de Radiator Springs (com exceção de Luigi e Guido, que fazem parte da equipe de apoio e aparecem mais) e busca apresentar novos personagens, desde o novo patrocinador Sterling ao treinador Smokey, que ensinou tudo o que sabia a Doc Hudson e os carros da pista de demolição. Mate, o guincho enferrujado e melhor amigo do carrinho vermelho praticamente sumiu (injustamente responsabilizado pela bomba que foi Carros 2), Sally só aparece no início e no fim e os demais apenas fazem pontas. Por outro lado há várias inserções de Hudson, usando material de Newman não aproveitado no primeiro filme.

Por outro lado o filme privilegiou uma personagem: Cruz Ramirez é a mais bem desenvolvida na tela, tendo toda a sua vida desfiada e se revela alguém que McQueen não esperava: embora chata e expansiva no início ela possui uma alma de corredora tanto quanto ele, algo que sua já costumeira arrogância o impede de notar. Mas quando isso acontece tudo muda para todos os envolvidos.

De qualquer forma a sensação é que a Pixar tentou dar um ar de fechamento e por isso dosou forte na sensação de legado e nostalgia, tentando artificialmente recriar o clima do primeiro filme. Carros 3 é definitivamente melhor que a produção anterior, mas embora seja decente e até divertido ele não supera o que Lasseter fez em 2006. O diretor estreante Brian Fee, que até então atuava como animador e storyboarder da Pixar conduz a trama de forma satisfatória, o suficiente para manter o espectador interessado mas não consegue injetar doses de genialidade na película, como se espera de uma produção do estúdio.

No mais fiquem atentos ao curta Lou, exibido antes de Carros 3. Ele é um dos melhores que o estúdio lançou nos últimos tempos e uma singela homenagem do animador Dave Mullins a seu pai, falecido recentemente.

Conclusão

Carros 3 é um bom filme principalmente para quem pulou a tragédia que foi o anterior, pois é uma conexão direta com o sentimento de legado do original e o contraste da passagem do tempo, com McQueen se vendo no lugar de Doc Hudson como o “antiquado” e “ultrapassado” pela nova geração de corredores é interessante. O problema é tentar focar na nostalgia à força ao mesmo tempo em que abre mão dos principais personagens que fazem parte da família do “Decalque”, que deram lugar a um desenvolvimento maior do relacionamento dele com Ramirez.

Por sua vez a novata é a personagem mais bem trabalhada de Carros 3, que embora pareça uma treinadora moderninha e empolgada também possui motivações e frustrações, e estrela os grandes (porém poucos) momentos da película. Ainda é um filme divertido para a criançada, mas perde um pouco a mão por não conseguir agradar os fãs antigos. A sensação que fica é que não importa o quanto a Pixar tente, a franquia Carros continuará sendo a faca menos afiada da gaveta embora na minha opinião particular, o primeiro filme seja genial quando visto como uma ode ao automobilismo.

Cotação

3,5/5 Mates, porque o amigão do McQueen merecia aparecer mais.

O MeioBit compareceu à cabine de imprensa de Carros 3 a convite da Disney.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Um cara normal até segunda ordem. Além do MeioBit dou meus pitacos eventuais como podcaster do #Scicast, no Portal Deviante.

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