Pequena (pequena mesmo) introdução ao gerenciamento de cores na fotografia

No texto sobre os lançamentos de aniversário da Nikon, o leitor Rodolfo fez uma pergunta espinhosa sobre qual o monitor comprar para edição de fotografias. Digo espinhosa, pois a resposta não é simples e não está ligada apenas a questão do monitor. Existe uma metodologia que envolve algo que chamamos de gerenciamento de cores na fotografia e passa pela calibração de câmera, monitor e impressora.

Mas, antes vou contar uma historinha. Eu montei efetivamente meu estúdio fotográfico há 6 anos atrás. Foi quando decidi investir no aluguel de um local e comprar as tochas de estúdio. Um de meus primeiros clientes foi uma pequena empresa que fabricava lustres. Era uma empresa familiar com um trabalho artesanal impressionante e os produtos eram entregues em diferentes cores (mais de 15 possibilidades). O cliente queria montar um site e utilizar uma amostra das cores para os compradores escolherem a sua preferida. Então o trabalho era fotografar lustres com exemplos de todas as cores para serem postadas no site.

Depois de muito trampo para fotografar objetos muito grandes e várias horas de edição para acertar a representação das cores, o resultado final foi enviado para o cliente. Alguns minutos após mandar as fotos o cliente me liga e diz que está tudo muito ruim, que as cores estão erradas e que ele não gostou do resultado. Abri os arquivos novamente e percebi que estava tudo certo. Pequei as fotos, gravei em um pendrive e fui até o escritório da fábrica. Quando cheguei percebi que eles estavam vendo as imagens em um monitorzinho de 15 polegadas que já tinha alguns anos de estrada. Foi nesse momento que a ficha caiu. Como representar cores de maneira perfeita quando cada pessoa vai visualizar em um monitor diferente com diferentes regulagens e qualidades? Esse é o começo do martírio de qualquer fotógrafo.

Viver em um mundo digital com monitores e telas de celular de diferentes preços, idades e qualidades é um problema para o fotógrafo que quer manter a fidelidade das cores. Esse é um dos motivos pelo qual me recuso a entregar qualquer serviço apenas em formato digital. A impressão em papel ainda é a melhor prova de cor que posso fazer de minhas imagens e mostrar ao cliente que as cores estão legais, independente do local que ele vai visualizar os arquivos digitais. Mas, existe um pequeno caminho para você ter certeza de que suas imagens estarão o mais perto possível da realidade.

Passo 01 – A câmera

Câmeras fotográficas digitais são dispositivos que capturam imagens e interpretam as cores segundo o perfil instalado pelos fabricantes. Quando você fotografa em JPEG é possível escolher as formas como você quer que a câmera interprete as cores (Landscape, Neutral, Portrait, Standard, Vivid) e quando você fotografa em RAW essa calibração é escolhida na hora da edição (geralmente o Lightroom aplica o Adobe Standard para todas as imagens como padrão). Porém, câmeras também precisam ser calibradas para representarem as cores de maneira fiel. Duas câmeras do mesmo fabricante e modelo podem (e irão) representar cores de maneiras ligeiramente diferentes.

A maneira mais fácil de calibrar a câmera é utilizar um colorchecker (um cartão com representações fiéis das cores) e dois softwares gratuitos oferecidos pela Adobe, o Camera Profiles e o DNG Profile Editor. Você fotografa o colorchecker com condições adequadas de luz e em RAW, converte a imagem em DNG e, através do software de calibração, vai identificar desvios de cores do sensor e criar um perfil ICC específico para sua câmera. É possível acionar o perfil correto para sua câmera na aba de Calibração de Câmera no Lightroom ou no Câmera RAW.

Passo 02 – O Monitor

Agora que fizemos nossa câmera representar as cores de maneira mais fiel, está na hora de trabalhar com o monitor. Da mesma maneira que o sensor fotográfico, monitores de mesma marca e modelos podem representar cores de maneira diferente. Mas, vamos por partes.

Primeiro você deve escolher um bom monitor para as edições de suas fotos. TVs e notebooks, salvo algumas exceções, não são as melhores opções para uma edição mais refinada. Um bom monitor deve ser capaz de representar em 100% o espaço de cor sRGB e, preferível, que também represente o Adobe RGB (espaço de cor fica para o próximo artigo). Ele deve ter a tecnologia IPS, ter um tamanho adequado (24 polegadas) e resolução full HD (no mínimo). Ao representar 100% do espaço de cor sRGB teremos maior fidelidade de cores, a tecnologia IPS ajuda na qualidade de cores e o tamanho e resolução ajudam a identificar problemas nas fotos, como imagens desfocadas.

Se você tem bala na agulha pode apostar em um monitor Eizo e ser feliz para o resto da vida, mas se você é apenas um reles mortal então a linha ultrasharp da Dell é um caminho acertado. Uma opção bem em conta, mas que não chega a ser profissional, é o modelo 23mb35vq-hk da LG. Você pode encontrar esse modelo no Mercado Livre com valor médio de R$ 800,00. Os monitores Apple são muito bons também. Aliás, a qualidade dos monitores é o único atrativo atualmente para fotógrafos nos equipamentos da Apple.

Ter um bom monitor é o começo, mas todo monitor precisa ser calibrado. E aqui a coisa fica mais complicada. Se quer levar a coisa a níveis extremos de qualidade alguns passos devem ser observados. O primeiro passo é calibrar o seu monitor com um colorímetro. Ele vai fazer a leitura de como o seu monitor representa as cores e vai criar um perfil de cor específico para ele. Monitores descalibram com o tempo (vai depender da qualidade do monitor esse tempo) e o processo deve ser repetido a cada 30 dias (recomendado). O monitor calibrado deve estar em um local onde a iluminação não tenha variação durante o dia, pois os calibradores levam em conta a iluminação do local para criar o perfil de cor.

Calibradores são a melhor maneira de deixar tudo certo. Aqui o resultado é conseguido através da união da qualidade do monitor e da calibração precisa (alguns monitores mesmo calibrados não possuem qualidade de cor). Colorímetros são muito caros. Se você trabalha profissionalmente é um bom investimento (ainda mais se tiver vários monitores), mas é possível alugar o equipamentos nas grandes cidades. Para vocês terem uma ideia, aqui em minha cidade eu sou o único que possuí o equipamento.

Uma maneira tabajara de calibrar o seu monitor é utilizando um target de impressão. É uma foto 20x30cm com várias representações de cores e escalas de cinza. Você imprime uma cópia em papel (fotográfico de preferência) e abre a mesma imagem no monitor. Com base na imagem impressa você vai alterando as configurações do monitor até as cores ficarem o mais próximas possíveis da imagem que está em suas mãos.

Passo 3 – Impressora

Como você já deve ter adivinhado, as impressoras também passam pelo mesmo processo. Elas também devem ser calibradas e algumas podem reconhecer tanto o espaço de cor sRGB quanto o Adobe RGB. Porém, conheço poucas pessoas que investem uma grana para comprar uma impressora profissional. Geralmente trabalhamos com empresas de minilabs para imprimir nossas fotos. Mas, tem um segredinho nisto também.

Os minilabs são impressoras fotográficas que também precisam de calibração periódica. Assim que a máquina é calibrada e um perfil de cor ICC de impressão é gerado. Vá até o local onde você costuma imprimir suas fotos e peça o arquivo ICC de impressão. Se ninguém no local souber do que você está falando então saia de lá e nunca mais volte. Laboratórios sérios já possuem CDs gravados com esse arquivo para entregar aos clientes com conhecimentos avançados.

De posse deste arquivo é só abrir a imagem que vai para impressão no Photoshop ou Lightroom e utilizar a função Soft proofing para que o programa mostre no monitor como a foto ficará levando em conta o perfil de impressão do minilab. Claro que isso só funciona se o monitor estiver calibrado e temos que levar em conta  que o resultado mostrado é uma previsão. Algumas empresas de impressão pegam perfis ICC genéricos dos equipamentos na internet, mas isso não funciona bem. O perfil correto, calibrado na máquina, geralmente tem o nome da empresa.

Finalizando

Esses são cuidados para quem está procurando fidelidade de cores. É muito bom para a impressão e para você entregar um arquivo correto para as pessoas, mas a visualização de seus arquivos em diferentes dispositivos sempre terão variações de cor, brilho e contraste que fogem de seu controle. Várias vezes vejo trabalhos interessantes de fotógrafos que estão com desvios de balanço de branco berrantes. Pessoas que ficam azuis, vermelhas ou púrpuras. Um bom monitor e preocupações básicas podem resolver isso. Questão de investimento.

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Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

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