DARPA demonstra mais tecnologia de ficção científica

lukehandbeta

Houve um tempo em que ficção científica se referia a acontecimentos muito distantes, no futuro (Star Trek) ou no passado (Star Wars) ou mais no futuro do passado (2001 — Uma Odisséia no Espaço ). Em comum o fato de ninguém imaginar aquilo como viável em um futuro próximo. De um lado é bom, não tínhamos que nos preocupar com malditos macacos sujos. Por outro lado, nada de phasers, sabres de luz e naves espaciais.

Também nada de armaduras e nada de mãos do Luke, nem nada de homens (ou cachorros) de seis milhões de dólares. Hoje vemos nos filmes cenas que são visões de um futuro próximo e provável (e nem falo de Mad Max). Uma das mais emocionantes foi na divisão de próteses cibernéticas da OCP, no RoboCop do Padilha. É raro ver ciência tão bem representada em ficção científica, assista:

Virtuose Escola de Música — RoboCop 2014 – Guitar Scene – Aranjuez

Esse tipo de tecnologia está sendo desenvolvida por muita gente, mas de longe a DARPA é a mais avançada. Também, com verbas do Departamento de Defesa dos EUA, é tranquilo pesquisar, e eles vão da Bomba Gay a projetos como a  Reliable Neural-Interface Technology (RE-NET).

O projeto, que pretende no futuro produzir próteses para soldados mutilados no cumprimento do dever (e pra todo mundo, claro) está focando na interface homem-máquina, literalmente. Decodificar os sinais do cérebro e traduzir as intenções de movimento para que sejam entendidas por membros mecânicos é o grande desafio. Há várias abordagens. Uma utiliza sensores que lêem sinais elétricos dos nervos que antes controlavam os membros, e que são movidos cirurgicamente para a região do tórax, como este sujeito aqui:

JHU Applied Physics Laboratory — Amputee Makes History with APL’s Modular Prosthetic Limb

Outra técnica, desenvolvida pela equipe do Miguel Nicolelis, utiliza sensores de EEG, medindo ondas cerebrais. É bem mais complexo mas permite muito mais flexibilidade.

A terceira técnica é o implante direto de eletrodos no córtex motor do paciente. No caso Jan Scheuermann, tetraplégica, 52 anos que se voluntariou (claro, não estamos em 1936) para a pesquisa.

Um chip de 4 × 4 mm, contendo 96 eletrodos foi implantado em seu córtex motor esquerdo. O sistema foi calibrado exibindo imagens de membros em movimento e pedindo para a paciente imaginar estar fazendo aqueles gestos.

Em 2012 Jan recebeu o primeiro implante, com computadores auxiliando a movimentação dos membros. No final do projeto ela estava usando sensores mais avançados, capazes de detectar movimentação detalhada até para as mãos, e já estava tão boa no uso do braço que não precisava do auxílio do computador.

Veja o braço robótico, operado diretamente pelo cérebro de Jan, com 10 graus de movimentação espacial.

University of Pittsburgh Medical Center — One Giant Bite: Woman with Quadriplegia Feeds Herself Chocolate Using Mind-Controlled Robot Arm

A movimentação é completamente diferente de um braço robótico tradicional. As micro-hesitações e outros movimentos aleatórios estão todos lá.

Aqui uma reportagem mais completa, mostrando Jen usando e falando sobre a tecnologia. O mais legal é ela dizendo que no começo pensava “esquerda, direita, sobe” mas depois parou de racionalizar cada movimento, da mesma forma que um membro normal, ela pensa no que quer fazer e o braço faz.

Cardoso_Jan_Scheuermann

Jan hoje não usa mais o braço. Os eletrodos foram removidos. O cérebro humano não gosta de coisas espetadas (zumbis que o digam) e um buraco passando cabos e conectores é um convite às infecções. Jan sabe que seu trabalho beneficiará futuras gerações.

Se ISSO não é um exemplo de desprendimento eu não sei mais o que é. Jan não só arriscou sua vida em uma cirurgia experimental, como o fez sabendo que iria provar um pouco de liberdade e autonomia, somente para ter isso tirado de suas mãos, metaforicamente falando.

Graças a gente como Jan o vídeo do RoboCop de um sonho impossível se torna uma questão de tempo. As décadas até uma versão comercial de um exoesqueleto desses diminuem a passos vistos. Jan tem 52 anos e é bem saudável fora a tetraplegia. Não me espantaria se ela comemorasse seu aniversário de 80 anos dançando.

Fonte: EG. Mais detalhes no paper publicado aqui.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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  • Carlos Gabriel Godri

    Essa cena do novo robocop fez eu chorar, deve ser pelo fato de eu ser da area de computação, mas ver aquela cena dele tocando violão foi muito show 😉

  • Daniel Belini

    Matéria maravilhosa essa.
    Mostra quanto bem o ser humano é capaz de fazer.

  • Edmilson_Junior

    Espero o dia histórico que verei alguém com um automail desses mandando um ,,i,, para quem não acreditou que um dia eles poderiam voltar a ser independentes.

    • Hagane no Renkinjutsushi! 8)

      • yuryrodrigues

        Escreve Fullmetal Alchemist que todo mundo entendi o/

        Hagane no Renkinjutsushi! = Fullmetal Alchemist

  • Tio Faso

    Gente! Como é bom viver no futuro!! Espero que daqui há uns 10-20 anos já tenha gente tetraplégica utilizando exoesqueletos para ficarem plenamente independentes!

    Aqui uma dúvida: Nessa parte do texto “Aqui uma reportagem mais completa, mostrando Jen usando e falando sobre a tecnologia.[…]” – era para ter um link/video ou aqui não carregou ou eu interpretei o texto errado?

    No mais, excelente texto! X)

  • MPChock

    Além das possibilidades que isso abre pra quem precisa, eu não consigo deixar de pensar em pós-humanismo.

    Substituir membros por próteses melhoradas, adicionar membros extras (UI!), adicionar sentidos extras.

    O futuro parece que será bem emocionante para quem não se apega tanto a carne. 🙂

    • Edmilson_Junior

      E tem dinheiro.

  • Daniel Loureiro

    sobre o último caso, me lembrou de Clint Hallam, a primeira pessoa a receber um transplante de mão. Após alguns anos e tudo funcionando bem, ele pediu para amputar a mão – pois não sentia que era a mão dele ou qualquer coisa assim. Não lembro direito do caso, mas parece que ele havia pedido para amputarem, os médicos negaram e então ele parou de tomar a medicação, forçando o procedimento. Me pergunto até onde pode ser comum casos assim, de pessoas rejeitarem psicologicamente seus novos membros.

  • cmr

    O release final desse equipamento deveria ter o nome dela (Jan Scheuermann) pela coragem!

  • OverlordBR

    Ainda bem que eu deixei para ler este texto do Cardoso na segunda!

    É ótimo começar a semana com notícias assim!

  • Wagner Felix

    A Jen tinha tudo pra ficar carrancuda e amargurada, mas não, ela decidiu que a vida dela ainda vale de muita coisa, e o que ela fez pela humanidade foi muito mais do que a maioria ja fez, eu incluso… É inspirador.

  • elielcezar

    Somos capazes de fazer coisas extraordinárias como essasd ainda não aprendemos a utilizar as 3 conchas…

  • Eu fico imaginando o potencial a ser explorado com uma prótese dessas implantada numa criança (que necessite, claro). A facilidade de adaptação do cérebro traria resultados maravilhos!

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