A nerdinha que salvou a Apollo 11

ops

Quando a Águia, o módulo de pouso estava a menos de 3 minutos de seu pouso histórico na Lua, algo deu errado, muito errado.

O computador de navegação acionou um alarme reportando erro. Algumas ordens de magnitude menos poderoso do que a CPU do seu microondas, não havia muito espaço para nada que não fosse estritamente necessário, e um módulo estava comendo 20% de CPU, em uma situação onde o sistema já estaria rodando a 85% da capacidade.

Steve Bales, Oficial de Orientação e Jack Garman, Especialista de Computação do controle da missão rapidamente comandaram um reset do alarme, achando que poderia ser algo aleatório. Armstrong e Aldrin assim fizeram, mas logo depois outro alarme surgiu. 

O grupo do MIT que programou as rotinas de pouso havia decidido utilizar o Radar de Subida e Rendezvous para rastrear o Módulo de Comando/Serviço. Isso já era feito pelo Abort Radar System, mas seria uma segurança extra caso algo desse errado. Mandaram os patches, os procedimentos, mas como foi uma mudança muito em cima, desistiram. Mandaram uma outra atualização para o radar do Módulo de Comando não ser acionado, mas esqueceram de enviar a alteração nos procedimentos. O botão que deveria ficar em MANUAL foi deixado em AUTO.

Com isso durante a descida o software tentava repetidamente ler dados do radar e calcular a posição do módulo. Como os dados não batiam (pois o radar não estava ligado), ele repetia e repetia o cálculo, consumindo mais e mais processamento, sobrecarregando os registradores e gerando os alarmes.

Em um computador comum teríamos uma falha catastrófica. As outras tarefas perderiam prioridade, pois a rotina do radar não devolveria o comando à CPU. Sem poder controlar orientação, propulsão, consumo de combustível e outros fatores, a Águia ficaria sem controle. O computador, travado em um loop seria destruído, junto com os astronautas na inevitável colisão, mas isso não aconteceu.

Ao contrário de sistemas operacionais mais simples, como o Windows 3.11, o computador da Apollo usava conceitos robustos.  Don Eyles, um garoto de 22 anos havia escrito algo revolucionário, saído das entranhas do MIT: um software com fixed-priority pre-emptive scheduling, a chamada multitarefa preemptiva com prioridades pré-definidas.

No DOS, Windows 3.11 e outros a multitarefa era cooperativa. Um programa era executado E, de tempos em tempos atendendo a uma interrupção de software retomava o controle ao sistema operacional, assim ele podia cuidar de outras coisas. Programas mal-educados não respeitavam isso, nem programas bugados.

O software de Don Eyles, aliado ao hardware implementava uma multitarefa onde não só cada rotina tinha um tempo máximo alocado, como as rotinas prioritárias tinham… prioridade. Assim se a CPU não está fazendo nada e sua rotina de radar bugada come 80% de CPU, azar, mas se a minha rotina de controle de pouso precisar de ciclos de máquina, ela vai ter, não importa o quanto ela grite e nem se um astronauta colocou o botão do radar em modo AUTO, acionando a rotina. A do radar vai rodar, pra ceder CPU para a minha.

O computador trabalhou no talo, mas o que era importante para o pouso tinha prioridade e processamento alocado. A arquitetura mega-power-robusta de Don Eyles salvou o dia. Só que o mérito mesmo é dessa nerdinha aqui:

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O nome dela é Margaret Hamilton. Formada em matemática em 1958, trabalhava no MIT como desenvolvedora de software. Na época Ciência da Computação e Engenharia de Software não existiam como cadeiras isoladas, na verdade nem existia o termo engenharia de software. Eram tempos pioneiros e você aprendia fazendo. E Margaret fazia muito bem.

Essa moça, que ficaria perfeitamente à vontade em uma convenção de Star Trek, cresceu nos rankings do MIT. E enquanto Don Draper dava tapinhas na bunda de mulheres na Sterling Cooper, Margaret comandava como diretora da Divisão de Engenharia de Software do Laboratório Charles Draper, do MIT.

Contratados pela NASA para desenvolver os softwares da Apollo, a equipe colocou em prática um monte de conceitos criados por Margaret Hamilton. Alguns sites dizem que ela escreveu os programas da Apollo. Não, crianças, ela foi muito além, ela criou os conceitos e a metodologia, a arquitetura e a modelagem.

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Entre outros conceitos criados ou implementados de forma pioneira por ela:

  • Software assíncrono
  • Priority Schedulling
  • human-in-the-loop
  • end-to-end testing
  • System Oriented Objects
  • Linguagens de modelagem
  • Desenvolvimento distribuído
  • Detecção e correção de erros em RTOS
  • Metodologias de teste e certificação
  • Automated life cycle environments

·  
Fora o problema com o radar nenhum outro bug ocorreu durante as missões Apollo, graças aos requisitos de desenvolvimento e metodologias de teste criadas por Margaret. lembre-se, isso foi bem antes de UML e outros frufrus.

Só ser a Projetista-Chefe do software de vôo do projeto Apollo e do SkyLab já seria um prêmio e tanto, mas em 2003 a NASA tirou o escorpião do bolso e em um gesto inédito, outorgou a Maragaret Hamilton o NASA Exceptional Space Act Award for scientific and technical contributions, com direito a um agrado de US$ 37.200,00. Foi a primeira e única vez que a NASA deu um prêmio em dinheiro a alguém.

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Margaret Hamilton publicou mais de 130 papers na área de ciência da computação, cunhou o termo Engenharia de Software. Trabalhou em 60 projetos e 6 programas principais na NASA.

Hoje, aos 76 anos essa velhinha porreta é CEO da Hamilton Technologies, onde desenvolve as metodologias de Universal Systems Language — nesta não se trabalha com orientação a objetos ou modelos, mas sistemas e a Development Before the Fact, cujo princípio é simples: “não conserte, faça certo da primeira vez”.

O legado de Margaret Hamilton é imenso, cada vez que a Microsoft faz um teste beta com gente do mundo inteiro está usando o conceito de human-in-the-loop criado por ela. Incontáveis bugs são encontrados quando gente testa o software, além dos testes automáticos. Simples? Hoje pode ser, em 1965 não era.

Tudo que você usa hoje e tem alguma complexidade em termos de software tem o dedo dela, mas você não verá Margaret Hamilton em documentários cheios de foguetes e astronautas corajosos. Ela nunca apareceu nos filmes antigos, sequer estava no Controle da Missão. Ainda bem, naquela época o prédio nem tinha banheiro feminino.

Ela é uma mulher que se destacou em um campo quase 100% dominado por homens, em uma época onde ter órgãos reprodutivos internos era garantia de que não seria levada a sério. Se a Apollo foi um pequeno passo para um homem, foi um passo gigantesco para as mulheres em computação.

Pois se para alguns é fácil zoar as mulheres que queimaram sutiã, é muito mais complicado zoar uma que queimou um escudo ablativo de calor a 40 mil km/h reentrando na atmosfera terrestre, por pura expertise de seu software.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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  • Marcoscs

    …e ainda era gatinha.

    • Felipe Fernandes Braga

      E não usou rebolou a bunda por ai por ser gatinha!
      Existem varias maneiras de ser reconhecida pelos outros

      • Mylena

        Mas, infelizmente, não é reconhecida tanto quanto deveria. Não só ela como tantas outras mulheres, como Marie Curie, Jocelyn Burnell, Dorothy Hodgkin, não recebem o devido mérito.

        • Olha, a Marie Curie ganhou DOIS Prêmios Nobel, acho que em termos de reconhecimento ela tá bem.

          • Mylena

            Pergunte a um aluno quem foi Marie Curie. Ela não está nos livros didáticos, mesmo sendo tão importante.

          • Mylena

            Se bem que se você perguntar pra muito aluno sobre coisas óbvias, não terá resposta. hahaha

          • Daniel Almeida

            Está sim.

          • Há controvérsias.

            http://t.co/4dOemq8dJ6

          • Mylena

            Nos dois livros didáticos de química que tenho, nenhum falava sobre ela. Mas tudo bem, admito que ela não foi um bom exemplo. Mas os outros dois exemplos confirmam o que eu disse.

          • Deixe adivinhar, A Pedra Filosofal e o Prisioneiro de Azkaban?:

          • Mylena

            Não, na bíblia e no livro dos recordes. hahahaha
            Pra que mentiria sobre isso, Cardoso?

          • Ariel Souza Rossi

            O que que a Biblia tem haver com isso?

          • Mylena

            HAHAHAHA

          • Eu

            *a ver

          • Johnny Walker Junior

            Esta foi boa…
            Falando sobre alquimistas, até Isaac Newton tentava descobrir a pedra filosofal, além do mais, o idiota tomava suas poções alquimistas, sua morte também foi ocasionada por envenenamento por chumbo.

          • Adriano Garcez

            Se Newton foi um idiota, o que será de nós…

          • Henrik Chaves

            Que legal! É o mesmo livro que usei no Ensino Médio! Reconheceria essa diagramação até debaixo d´água. Livros muito bons os dessa série, por sinal (só o volume de Química Orgânica que achei meio desorganizado….).

          • Theuer

            …hoje em dia(ao menos neste país) você pode perguntar para muitos alunos, até quem foi Einstein, que a resposta não passará de algo como: “Aquele véio loco que mostra a língua!”

          • Hollander

            Não… É aquele que não saída da academia o tempo todo…

          • Johnny Walker Junior

            Meio gay esta foto… rsrsrs… Einstein não revire no túmulo viu, foi brincadeirinha…

            Pessoal, outra pessoa que ninguém lembra é Ada Augusta Byron King, lady lovelace, a mulher era fera, então não fico estupefato, a contribuição das mulheres foi muito grande, somente que na sociedade machista não foi para o roll da história…

          • Daniel

            triste verdade…

          • Felipe Fritzen

            Albit Einstein wicked smaht…

          • Hollander

            Você quis dizer Marie Claire?

          • Le Zuero

            Mylena o estudante brasileiro atualmente não conhece nem quem fundou o país onde ele vive, mal sabe escrever em português, como ele saberia da existência dessas mulheres cientistas? Eu tive um professor na universidade, de linguagens de programação, que vivia falando bem da Ada
            Lovelace, mas ele era uma exceção, justamente por que era o único que se interessava em ler as biografias dos principais contribuidores da ciência da computação.

          • Athos Rache

            Ela ganhou 2 nobel. Que mais vc quer?
            Capa da Playboy?

          • Leandro Pereira

            Pode perguntar pra um aluno o nome de uma lista inteira de nobels e ele provavelmente não vai ter ouvido falar de quase ninguém. A propósito, ela foi citada inúmeras vezes em inúmeras coisas que fazemos. Lembro do Beakman falando dela, lembro da música Radio Aktivität do Kraftwerk e se eu me esforçar mais um pouco posso citar outros lugares.
            Essa mulher não deixava o forninho cair!

          • Samuel

            Alunos de hoje não servem de parâmetro. Pergunte a eles sobre mim, nem isso eles sabem.

          • ElGloriosoRangerRojo™

            Ela estava nos livos didáticos que usei na escola. E olha que estudei em escola pública…

          • Felipe Fernandes Braga

            Lembro que o meu professor falou beeeeem vagamente dela, enquanto estava falando da descoberta do raio X pelo marido dela! Eu lembro que ele falou do Nobel, mas não sabia que ela tinha ganhado dois!!!

          • Rafael Tamburus Felgueiras

            Se o seu professor falou isso, falou besteira. Quem descobriu os raios X foi Wilhelm Roentgem. Pierre Curie era o marido dela. Ela ganhou o Nobel de Física em 1903 (Junto com o Pierre e com o Antonie Becquerel) pelos estudos da radioatividade e o de química em 1911 pela descoberta dos elementos Rádio e Polônio.
            Creio que ela tenha sido bem reconhecida sim. Inclusive existe uma unidade de medida (Ci – curie) em homenagem a ela e ao marido.

        • Por sinal algumas polonesas não gostam quando a chamam de Marrie Curie por que esse era o nome de casado.

          • Meu, nego é muito chato. E se todo mundo chamar de Marie Skłodowska vão reclamar que também não é bom pois o sobrenome é genitivo, Skłodowska, filha de Skłodowski?

          • Mylena

            Pelo jeito deve estar achando que sou uma feminista fanática.

          • Paulo Ricardo Schwind

            Não, apenas cri-cri. 🙂

          • Andre Nunes

            Fanática não é mas desperdiça o tempo seu tempo cobrando reconhecimento de mulheres quando a matéria do Cardoso é apenas isso. Isto é história mas se fosse ficção passaria com louvor no Teste de Bechdel.

          • Boa pergunta hahaha. Pergunta essa para as polonesas mais puristas

          • Acho que assim: do pai pode… do marido não

        • 2014 foi escolhido para ser o Ano da Cristalografia. Sim, Dorothy Hodgkin foi lembrada SIM!

          • Mylena

            Tão lembrada que você até digitou o nome da outra cientista e teve que corrigir editando a postagem.

        • Volvo v70 sleeper

          Acrescente a sua lista, Amelia Earhart, aviadora pioneira e Stephanie Kwolek, inventora do kevlar!

        • Domingos Tavares

          Ou mesmo Ada Lovelace, a primeira programadora da história.

      • Daniel Belini

        Talvez ela não rebolou pois tinha como ser reconhecida sem fazer isso.
        Agora, na minha opinião, 99% das que querem chamar a atenção rebolando é por preguiça ou incapacidade.

      • MarioNaoPergunte

        É gatinha sim, discutir relevância por sexo apenas por que alguém disse que era gatinha, na boa, essa galera nhein …

        Gatinha, gostosinha e se eu estudasse junto nessa época e não fosse um nerd tímido, tentaria algo, com todo o respeito.

    • Até 1989 (20 anos depois das fotos no presente texto) eu também poderia dizer o mesmo! 8)

      http://history.nasa.gov/alsj/a11/a11Hamilton.html

  • Seria a Velma (Scooby Doo) uma personagem inspirada pela Margaret Hamilton? o.O

    • Eu

      GENTE!

      • Ele disse GENTE!

        • Eu

          Isso deve ser uma pista!

          • Adriano De Lima

            CLAP! CLAP! CLAP!

    • Leandro Ramiro

      LIGUEM PARA ESTOCOLMO, TEMOS UM NOBEL!

  • André Maringolo

    Mulher fantástica, feitos fantásticos. E mais um texto impecável do Cardoso.
    Parabéns a todos os envolvidos 😉

    • [OFF]

      Olha como a minha mente é suja: juro que li um ‘p’ no lugar do ‘f’ no seu comentário e eu já ia perguntar aonde. :/

      • Daniel

        2 e instantaneamente pensei…não eram grandes :/

        • MarioNaoPergunte

          Se estivessem a mostra, ninguém acharia o texto…

  • André Maringolo

    Esse texto me lembrou outro do Cardoso, tão bom quanto:

    meiobit . com / 97634 /grace-hopper-a-maior-de-todas-as-geeks /

    • Era para esse link estar no texto, acho que é coisa do cache. 😉

      • Uber

        E que tal pôr esse também: “O computador da Apollo: uma história de True Hackers”
        O nome dela não é mencionado, mas a foto aparece lá.

        • Boa sugestão. Embora o link já esteja no meio do texto, vou colocar ao final dele também na próxima revisão.

  • O Cardoso merece um programa de televisão só dele! Genial!

    • André Maringolo

      Ele tem os seus momentos no “Sala da Justiça” (a participação dele de fato deixa o programa mais interessante), e se não me engano já foi convidado pelo Danilo Gentili para participar do “Mesa Vermelha”.

    • Lucas Timm

      Televiwhat?

    • r0t3ch

      E uma revista também! Aquelas feitas de papel.

  • Caio Gonçalves

    Eu li o texto inteiro e toda vez que aparecia a palavra Nerdinha meu cérebro trocava o N por M.

    • Você não está sozinho. 🙂 😀

      • Marcio

        Tio, vc tem problemas com letrinhas… kkkkk

  • Mario Junior

    Ela me lembrou aquela atriz do BBT, que faz o papel da namorada do Sheldon. rsrsrsrs

    De fato, ela era muito bonita e inteligência era o que não faltava. 😛

  • Uber

    Quando vi a primeira foto, lembrei dela sendo figurante num post de 4 anos atrás do Cardoso: “O computador da Apollo: uma história de True Hackers”

    Vendo lá, não dava para imaginar que fosse tão importante!

  • Eduardo Lopes

    Bravo!

  • Johnny Walker Junior

    O engraçado é que nem o google a destaca, a Wikipedia tão pouco, foto horrível e preto e branco, mas descreve o seu curriculum. Seu nome completo é Margaret Heafield Hamilton.
    O google tenta te corrigir e te leva para uma atriz. Para achá-la somente com

    Margaret Hamilton (scientist).

  • Cacio Frigerio

    E bem gatinha….

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