Carlos Cardoso 15 anos atrás
Existe uma histeria muito grande em torno de organismos geneticamente modificados, mas não consigo compartilhar dele. UMA alteração genética projetada em laboratório, com um objetivo específico, testada à exaustão tem chances de ter consequências inesperadas? Tem, mas e as trilhões de mutações que acontecem todos os dias em todas as plantações e fazendas do mundo? A Natureza conseguiu mutar muito bem, obrigado, sem a Monsanto.
A briga aliás chega a ser desleal. A Evolução não quer saber se é do interesse do Homem que uma espécie permaneça do jeito que está, ela permanecerá se e somente se estiver bem adaptada a seu meio-ambiente. Quando este muda, entra em ação a ordem: Adapte-se ou morra.
A Monsanto mudou o ambiente ao desenvolver em 2003 uma semente de milho que produzia uma proteína chamada Cry3Bb1, que tem a propriedade de destruir o sistema digestivo dos gorgulhos.
Os agricultores adoraram a semente, 1/3 do milho nos EUA carrega o gene modificado, o que significou por vários anos o virtual fim do gorgulho do milho.
Até a Natureza assistir Jurassic Park e aprender a lição do Dr Ian Malcolm: A Vida sempre acha um caminho, das formas mais bizarras. Peixes-palhaço vivem em colônias dominadas por uma fêmea. Quando ela morre o macho dominante muda de sexo e vira a nova “rainha”. Isso mesmo, crianças, Nemo não era nem Ariel, era Ariadna!
No caso dos gorgulhos a boa e velha seleção natural eliminou os insetos afetados pela proteína, dando espaço para que elementos com mutações aleatórias que os tornavam imunes à proteína se reproduzissem mais. Agora um fazendeiro em Iowa reporta que seu milharal geneticamente modificado está sendo comido por super-gorgulhos imunes à proteína.
Por sorte eles não são imunes a uma outra semente modificada por um concorrente da Monsanto, mas logo serão.
Há uma ilusão de que organismos geneticamente modificados são a solução para todos os problemas, mas no caso das pragas agrícolas, são só mais uma arma em uma guerra eterna. Não é bala mágica, alterar intencionalmente um gene para criar uma defesa é uma forma mais rápida do que experimentar dezenas de milhares de plantas, achar uma naturalmente resistente e então cloná-la, método até então usado por todo mundo.
Esse método “natural e orgânico”, apregoado como muito mais bonzinho que as malignas modificações genéticas rendeu desastres econômicos, como a Doença do Panamá.
As pessoas gostam de comprar frutas familiares, então uma banana deve ser o máximo possível parecida com outra banana. Isso levou ao cultivo de uma única espécie, com seleção artificial de exemplares da Gros Michel, uma variedade popular por resistir a longas viagens. Logo todas as bananas consumidas em larga escala no mundo eram da mesma família, parentes próximos.
Veio a Doença do Panamá, um fungo que se espalhou como fogo em todos os países produtores. Nos anos 50 a espécie foi varrida do mapa, deixando milhares de produtores na miséria, e o povo sem bananas.
Descobriu-se então a Cavendish, uma variedade resistente ao fungo do Panamá. Só que a paz não durou. Surgiu uma nova versão da doença, chamada TR4. Ela afeta a Cavendish, e não há tratamento, pois o fungo é imune a fungicidas. Estima-se que em 10 ou 20 anos a Cavendish estará extinta para produção em larga escala.
As espécies sobrevivem a doenças graças a sua variação genética. Estatisticamente sempre aparecerá alguém imune, Não é mágica, é Evolução. E isso vale até para AIDS. 5% dos portadores de HIV nunca desenvolverão a doença. Para seus sistemas imunológicos cheios de pequenos leucócitos com a cara do Chuck Norris, o HIV é só mais um vírus vagabundo.
A monocultura levada ao extremo como no caso da banana é uma lição bem clara, por isso não há muitos esforços em clonar animais em grande escala. O prejuízo de um rebanho inteiro morrendo por alguma doença que só afetaria 10% das cabeças é algo que nenhum fazendeiro quer cogitar.
A lição é clara: O Homem pode brincar de Darwin mas no final a Natureza sempre vence.