Ronaldo Gogoni 23/07/2026 às 11:50
Nós já falamos sobre a Internet Morta, uma teoria da conspiração que se baseia na premissa de que todas as interações da rede hoje são majoritariamente realizadas por bots e soluções generativas de Inteligência Artificial (IA). A Cloudflare acabou de jogar mais lenha nessa fogueira, com um relatório em que afirma, sem rodeios, que 50% do tráfego na internet hoje é não-humano.
Uma declaração do tipo beira o absurdo, mas a companhia aponta como o principal culpado o Google que, apenas com suas ferramentas de resumos por IA do Search e crawlers que coletam tudo o que existe, levou a uma queda abrupta das visitações em diversos sites em pouquíssimo tempo; ao invés disso, o público está passando mais tempo nas soluções da gigante das buscas.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que IAs responderem por metade do conteúdo da internet hoje não significa que humanos estão criando ou consumindo menos; é preciso levar em conta que, dentro dos últimos quatro anos em que soluções generativas entraram em voga, elas conseguiram ampliar bastante a quantidade de material que levamos 33 anos, desde os primórdios da World Wide Web, para acumular da maneira tradicional.
Isso posto, o estrago das IAs no tráfego humano na internet é, segundo o relatório da Cloudflare, notável. A companhia analisou interações de usuários em setores como varejo, tecnologia, finanças e publicação de conteúdo, e a redução de visitantes chegou a 40% em menos de um ano em alguns casos. Em contrapartida, bots e algoritmos ocupam esses espaços visitando domínios, interagindo com conteúdos e coletando dados.
A Cloudflare diz que, entre junho de 2025 e abril de 2026, o tráfego humano em todos os setores da internet caiu em média 35%, e aponta o dedo sem cerimônia para o Google, acusando-o de ser o principal carrasco da rede. Seu motor de busca, hoje movido a IA, responde sozinho por 88% de todo o tráfego, com um procedimento bastante simples:
Os agentes de IA de Mountain View agem da mesma forma que outros, varrendo a internet em busca de todo tipo de conteúdo disponível, de forma a condensá-lo e devolvê-lo aos usuários na forma de "resumos de IA" produzidos pelo Gemini, sua principal ferramenta generativa. Em contrapartida, os sites dos quais a gigante se alimentou perdem visitações, pois o usuário já encontrou o que buscava e não se dará ao trabalho de continuar navegando; se o resumo de IA está certo ou errado (e muitas vezes está errado), pouco importa.
O problema reside no fato de que o Google é, e não adianta negar, o "caseiro" da internet. Seja por competência ou conveniência (o que render mais), a companhia amealhou poder demais ao longo dos anos graças ao seu algoritmo de busca, e passou a ditar quem merece destaque na internet e quem será relegado ao vazio. Muita gente se sujeitou por causa da graninha do AdSense, até Mountain View decidir que não ia mais pagar muito e nem para qualquer um; hoje, sites e portais rebolam por migalhas e visualização.

O famoso slogan "Don't be evil" foi silenciosamente removido do código de conduta do Google em 2018, o que diz muita coisa (Crédito: Reprodução/acervo internet)
É aqui que a situação piora: segundo o Cloudflare, 52% das requisições dos crawlers da internet afora, entre março e junho de 2026, foram destinadas ao treinamento de IAs, contra 22% no mesmo período de 2025. Quando olhamos para o Google, ele só possui um único agente rastreador que cumpre duas funções: treinar modelos e indexar sites, e elas não operam em separado.
Colocando em termos simples: para um site ser indexado no Google Search, ele é OBRIGADO a permitir que o crawler de Mountain View devore todo o seu conteúdo, que será regurgitado em resumos que acabarão por lhe tomar visitações; caso se recuse, estará também abrindo mão da indexação.
Isso se dá porque, quando o Google propôs os resumos de IA, não foram dadas opções de customização de opt-out a criadores de conteúdo, alegando "adicionar complexidade" desnecessária à ferramenta. Com isso, sites viram uma queda violenta de visitações e receita pois, sem tráfego, sem AdSense, e a gigante das buscas sendo o que é, não remunera ninguém pela coleta.
Assim, admins ficam com uma legítima "Escolha de Sofia" nas mãos: impedir a coleta e não ser indexado pelo Google que, com 88% de participação nas buscas da internet, seria suicídio profissional, ou autorizar e aceitar resignado que suas visitações orgânicas permanecerão no fundo do poço, obrigando-o a buscar outras formas de gerar receita.
Quando o Modo IA foi apresentado, a quase totalidade das agências de notícias acusou o Google de "roubo" de conteúdo, e essas, sem surpresa, foram as primeiras a sentir o impacto na queda de visitações; hoje, o efeito é generalizado e todo mundo está sofrendo com menos público entrando em seus portais e sites, que se satisfazem com resumos de IA ou vão às compras via apps de terceiros.
Reguladores, como não podia deixar de ser, estão de olho: no Reino Unido, o Google será obrigado pela CMA (Autoridade de Competição e Mercados, o equivalente ao CADE no Brasil) a permitir que sites locais possam proibir a coleta de seus conteúdos para uso por IA, sem que eles sejam automaticamente desindexados. Pressionada, a companhia apresentou uma nova ferramenta que faz exatamente isso (e apenas na terra do Rei a princípio), prometendo que "quem fizer opt-out não será punido com queda no ranking".
Claro, em se tratando do Google, só vendo para crer.
Fonte: Cloudflare